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março 14, 2013

Littorina littorea

Algo de nostálgico transpirava por aquelas prateleiras empoeiradas de madeira. Conforme o meu dedo deslizava, indeciso, pela capa do Benedetti. Um gosto secreto – e eis um sentimento perigoso para se deixar corpo adentro; para se permitir que invada a mente assim. Mas lá estava: uma vontade irracional de pagar por aquelas linhas. Levá-las comigo. Para a garota que me confundia o coração e a cabeça com seus vai-e-véns. Ela ia sorrir, sorri, e arregalar os olhos quando visse que pensei nela. A imaginei com as mãos no livro, me ouvindo contar sobre aquele momento. E decidi: vou levar – ou não? “Tengo que amarte”, revirei os olhos ao repassar a frase na minha cabeça, é meio patético. “Aunque esta herida duela...”, não. Folheei as páginas rapidamente, sem ler nada em particular. Ela vai pensar que estou apaixonada. Não dá – é ridículo demais.

Estar na Argentina, de certa forma, me atrapalhava. Não posso estar seriamente pensando na Mia, olhei para o livro agora com desgosto, não. Péssimo timing. Os arredores pareciam subtrair das letras o cheiro dela, sumindo sorrateiros com as suas madeixas morenas e o seu olhar curioso. Eu estou aqui e não lá. Não preciso disto, eu não preciso – repetia na minha cabeça como um mantra, convencendo-me. Preciso aprender a deixar a confusão para trás. Suspirei. E espiei mais uma vez sobre a prateleira para ver que a Clara caminhava lentamente de volta, distraída pelos títulos da pequena livraria. – encarei determinada o livro em minhas mãos, decidida a deixar para lá. E larguei a obra do escritor uruguaio na cesta onde o encontrara. Este é o meu fim de semana, fui indo na direção da Clara; meu com você, porra.

_Cansei. E aí, vamos?
_Olha o que eu achei! – ela segurou um Quino na minha frente, a capa amarelada indicava ser antigo, e eu ri – E você, viu alguma coisa?
_Não – bom, pensei, meio que sim.

Caminhar até o caixa da livraria foi uma tarefa hesitante. E um tanto difícil de se realizar sem dar bandeira. Ótimo, argh. Agora nunca mais vou encontrar a merda do poema. Parte de mim ainda queria levá-lo. E com certo nervosismo, eu dedilhava a mão direita sobre o balcão. Ruidosamente. Eu devia ter tirado uma foto da página – será que podemos fazer isto? Deve ser inapropriado. Eu divagava mentalmente: que se dane, fingiria ser cultural, algo do Brasil. A Clara me indicou o preço, que o atendente falou enrolado em espanhol, interrompendo os meus pensamentos. Puxei a carteira com meus pesos trocados horas antes. Por que eu sequer estou cogitando cenários?! Não vou levar o livro. Só o Quino e pronto. Não preciso comprar presentes. Para ninguém, cacete, eu me dissuadia.

O atendente agora contava o meu troco, com certa demora. E não vai fazer falta também, a Mia não está esperando nada disto – tá, digladiei comigo mesma, talvez por isto mesmo que seja legal. Mas, por outro lado..., peguei a alça da sacola já com o livro pago dentro, é meu aniversário, sou eu quem deveria estar recebendo presentes. É. Nos despedimos com educação e saímos para a rua, não eram nem 18 horas. A Clara parou frente à porta da livraria para acender um cigarro. Hum. E o que será que a Mia vai me dar? Admirei os meus próprios pés na calçada. “Você quer?”, a Clá ofereceu um Marlboro aceso. Eu aceitei. Isto é, se der algo, resmunguei mentalmente. Deixara São Paulo com a Mia ainda brava. ‘Desculpa’, sei. Devolvi o cigarro para a Clara.  Duvido que ela vai deixar passar. Só não queria que eu viajasse irritada e descontasse tudo na cama com a Clara. Admito – eu, às vezes, pensava coisas estranhas.

Começamos então a andar pela calçada. Por que ela se incomoda? Ela tem o Fernando, sempre teve. Segui com os pensamentos acelerados. Ela não precisa de um livro meu, de poema algum. Começava a ficar rabugenta. A verdade era que eu queria – violentamente – lhe dar aquele livro. Fazer caso do acaso. Numa ânsia que me tomava a cada passo em que nos distanciávamos da esquina da livraria. E por que eu me incomodo? Eu a amo tanto assim que não consigo ficar 24h sem pensar na porra do seu nome? ‘Não’, aparentemente – revirei os olhos. E se a amo, por que não consigo dizer? E o que merda estou fazendo aqui afinal?! Me senti de repente como se traísse a Clara em pensamento. Aquilo era ridículo: É só um poema.

Já dei todo resto, eu posso muito bem dar um poema pra Mia. E num impulso como quem arranca um band-aid sem rodeios, pedi para que a Clara me esperasse e corri meia quadra de volta para comprar a droga livro. “É para a Marina”, disse ao retornar, de cabeça baixa – estou mentindo descaradamente agora, bonito. Ao chegar no albergue uns vinte minutos depois, enfiei a sacola com ambos os livros na mochila. O que a Clara pegou para mim e o que eu peguei para a Mia. Já começava a me sentir levemente arrependida, ainda que satisfeita. Estranhamente, ao mesmo tempo. Íamos apenas tomar banho e nos trocar; o jantar seria em Recoleta e depois encontraríamos uns amigos da Clara, com quem iríamos à balada.

“Vou daqui a pouco”, murmurei. Não entrei no chuveiro com ela – fiquei afundada na cama me atormentando com pensamentos pouco saudáveis acerca do motivo que levara a Mia, afinal, a se incomodar com a minha viagem. E o peso interno se arrastou, aff.  O que eu estou fazendo?!, deslizei as mãos pelo rosto, atordoada. Não conseguia entender por que um poema ainda tinha forças de desencadear horas a fio de Mia-argh dentro da minha cabeça. Pensamentos sobre o porquê dela ter surtado me levavam invariavelmente ao “ela me ama mesmo?” e este era rapidamente substituído por “por que diabos importa?”, que vinha seguido de auto repreensão por estar pensando naquilo em plena Argentina e logo eu me pegava argumentando comigo mesma que eu tinha direito de pensar na Mia, de dar a mínima para o que ela sentia com relação a mim. Para, então, ser interrompida pela Clara:

_E esta brisa aí, hm? Que pasa? – ela riu, me olhando.

Estava encostada contra o batente da porta que dividia o quarto do banheirinho do albergue. Nua da cintura para cima, num shorts curtíssimo embaixo. Destes soltinhos de linho vermelho, num tom queimado bonito. O seu cabelo molhado deslizava em fios morenos, contornando os seus seios. Notei que algumas gotas haviam escorrido até metade do seu abdômen. “Hum?!”, insistiu. E andou até a minha direção na cama, deitando o corpo de bruços ao meu lado. A Clara tinha uma tatuagem minúscula de menos de um centímetro – a silhueta de um caramujo – sobre as costelas, meio na altura dos seios. Era um charme, discretinha. De tão pequena tinha vontade de tocar na sua pele toda vez que a avistava, sob pretexto de averiguar se não era uma pintinha. Lembrando surpresa que existia ali.

_Estou, sei lá... – respondi então, escorregando o polegar sobre as pequenas linhas.
_Hum...
_Foi um dia meio esquisito.
_Esquisito, por que? – ela virou o rosto preguiçosamente para o meu lado, falávamos em tom lento e suave – Achei que você estivesse gostando...
_Estou, Bi. É só que eu... fiquei meio, não sei. Pensando, sabe.
_”Pensando”?
_Na... Mia.

E tão logo pronunciei – inconsequente – o seu nome e antes que pudesse me explicar, a Clara se levantou apressada. “Vamos”. Não disse mais nada, não brigou comigo. Simplesmente ficou em pé e vestiu uma regata preta, calçou a sua rasteirinha trançada. Numa pressa quase rude. E a batalha começou.

25 comentários:

Anônimo disse...

Essa mania que a fm tem de falar o que ñ deve. Primeio com a roberta e depois a dani, agora cm a clara de novo!! kkkkk louca pra ver as duas no fight n balada....

Anônimo disse...

A Clara sempre dá as melhores <333

Pathy disse...

Sério, toma no cu FM!
Tomara que a Clara de um perdido nela na balada.. #TeamClara até a Mia aparecer pelada u.u

Bárbara Leão disse...

:O
QUE MERDA!
É a única coisa que resume essa situação!
Por que a PORRA DA MIA tem que estragar tudoooo?!?!?!
E por que diabos a GFM tem q abrir essa boca!?!?
PUTA QUE PARIOOOO!!
Esperando pra ver o estrago q essa frase causou na viagem!

Anônimo disse...

HAHA, eu AMO a sinceridade da fm! na boa!!

Anônimo disse...

MDSSSSSSSSSSSS! FM, PFVR
NÃO PRECISAVA DIZER ISSO.

Anônimo disse...

Da série fodendo a vida adoidado. ¬¬
Bitch, please!

Anônimo disse...

Nooooossa, muito EU a fala dela... Agora se prepara pras consequencias, FM, pq elas vêm.

Anônimo disse...

Confesso que fiquei totalmente boquiaberta e chocada com esse fim....

Mas para fala a verdade, só fico esperando o dia da verdadeira revelação da mia de que ama a FM desde o começo do relacionamento com o Fer.... hahaha

Anônimo disse...

Alias, sensacional o post! Traz a Mia de volta msm, pq eu to relendo o blog e amando a época q ela era motivo de todo aquele drama e pensamentos e dialogos.... Ai ai ❤
Alias, QUE saudade da Marina!!! Dá uma ligadinha pra ela qnd vc voltar, FM, passa la na casa dela...

Anônimo disse...

Hahahahahaha

Essa sinceridade é demais!


Mariah.

Camyla disse...

Velho, que caralhos a FM tem na cabeça?? Se eu fosse a Clara, tinha ido pegar as coisas pra voltar pro Brasil na hora OU pegava a mina mais gata na balada e deixava a FM chupando dedo. Se é pra fazer a Clara sofrer, deixa a mina de vez, cacete! Tô muito puta com ela :@
A Clara não merece passar por isso e a FM não merece a Clara.

Anônimo disse...

Às vezes eu queria ter um pouco dessa coragem/verdade da fm. A gente se engana achando que não falar as coisas é melhor, mas o tempo não perdoa.
Btw, uma música que sempre que escuto penso nessa história toda é Tornado, do Jónsi. ;)

Bruna disse...

Poouutzzzzz!!!

Anônimo disse...

awn a Mia *-*

Anônimo disse...

To comecando a ficar com raiva da Mia huahua

Anônimo disse...

Eu definitivamente gostaria que a Mia não tivesse entrado tanto nessa viagem assim...ah cara, a Clara é muito legal, se eu fosse ela terminava esse lance com a FM e ia conhecer alguém melhor! No final das contas a Mia e a FM se merecem! Gostam da coisa com o pé no México! haha
Clara linda foda!!! Ela devia era se acertar com a Marina!! hahaha

Anônimo disse...

Só sei que quero saber oq a Clara vai fz c essa história toda... não demora Mel... pleaseee!!
E nunca deixarei de agradecer a vc Mel... por proporcionar esse história para animar nossos dias!! Obg msm!!
(ANA CURI)

Flavs disse...

Tô achando muito bem feito. Porra, que saco, aproveita os dias com a Clara e esquece a Mia!

Juliana Nadu disse...

"Admito - eu, às vezes, pensava coisas estranhas"

hahahahah essa frase me define!!

Caralho!! eu sei pq a Clara teve essa reação!! Ela já tava ligada no que ta acontecendo... ta tentando evitar o inevitável!!

Ianca' disse...

Eu amo a Mia, sou da torcida de carteirinha, mas a FM não devia ter falado, fiquei com dó da Clarinha linda :(
Que post gostosinho, essa batalha interna, ó FM, te decide mulher!
Muito bem descrito, escritora :D Parabéns!

Anônimo disse...

UAU!
Mel, que post maravilhoso, primeiro aquele monte de pensamentos do compro/não compro o livro e depois a FM larga que ficou pensando na Mia...ahahahaha
MUITO bom!
Só que estão "culpando" a Mia...ela não fez nada, FM que não presta mesmo e tá babaaaando por ela.
E sou TeamMia, mas fiquei com pena da Clara,ela não merecia essa no fim...

Babaloodeuva disse...

To com medo do próximo post, será que FM volta viva da Argentina. Não sabe ficar de boca fechada affff

Dea disse...

ouch. sinceridade demais não faz bem. agora a coisa degringola.

Anônimo disse...

primeira vez em todo o blog que sinto raiva da Mia... foda, foda.