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julho 09, 2012

Tautologia

Entre sorrisos e o trincar das taças de vinho contra a garrafa, lá estava a minha garota, embebedando-se em boa companhia. Ótimo – qual será o tamanho da merda que eu falei pra ela? Balancei a cabeça em autodesaprovação e entrei, corajosamente, na sala. Cercando o charme argentino da Clara e acompanhando o ritmo com que se esvaziavam os copos ali, estavam a Lê e a Camila em pé ao seu lado, próximas a uma mesinha alta e redonda. Um vasinho de violetas de enfeite, duas garrafas de tinto abertas. Conversavam já entretidas, e interessadas, as três com as taças entre dedos.

Me aproximei, apoiando suavemente a minha mão na parte inferior das costas da Clara, num movimento “territorial” inconsciente e imbecil. Um “te amo” desastroso, meia hora atrás, e agora isto? Tira a mão daí, idiota! Ao tocá-la, no entanto, ela imediatamente olhou para o lado e aí me ofereceu um gole, sem dar tempo para os meus reflexos. Deixo a mão? Tiro a mão? Corto fora?, digladiei por um instante, mentalmente. E aceitei o vinho – os dedos já escorregando para fora das suas costas. Conforme bebia, fiz questão de encarar firmemente a Lê à minha frente, que segundos antes tinha os seus olhos fixos na curva da minha camiseta do Billy, ou seja, na cintura da Clara.

Comporte-se aí, “amiga”.

Devolvi a taça e ri muito superficialmente do assunto, elas falavam sobre um vídeo bobo que circulava na web. Eu não estava realmente ouvindo, sequer o havia assistido. Olhei para a Clara, mas as suas expressões permaneciam enigmáticas. Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?! Será que me ouviu? Tentava (em vão) ler cada milímetro dos seus gestos, analisando todo o seu comportamento. Eu estava nervosa, ansiosa por este motivo – era estranho não saber. E ela me encarou de volta, dando um gole no vinho. Acho que ouviu, sim – mas a verdade era que eu não sabia, não podia saber; passara batido na hora e agora era tarde demais para verificar. A Clara me observava hesitar, sorriu discretamente para mim. Ah, ela ouviu.

E a conversa continuava ininterrupta, passando por todos os últimos hits do YouTube; eu não poderia estar menos concentrada no assunto. Ela pode só, sei lá, estar feliz com isto. Ou, devolvi-lhe o sorriso, levemente apreensiva por dentro, pode também estar se vangloriando aí, pensando que eu agora sou uma babaca apaixonada por ela. Encarei o chão, argh – que inferno. A mera ideia de que ela pressupusesse deter o controle do que nós tínhamos, na sua cabecinha ego-inflamada, e tudo por uma frase maldita que escorregara sem intenção da minha boca era, era... não. Não. Tudo menos isto, cara. E enquanto eu auto-induzia tensão aos meus pensamentos, a Camila tagarelava incessantemente com a Lê sobre uma iguana e algo acerca de uma banheira; eu as ignorava.

_Sabe... – a Clara se aproximou do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar o tópico delas – ...eu quis te matar, te matar mesmo lá dentro.

Falou delicadamente. Referia-se à cozinha e à minha ceninha com a Marina – “você é muito panaca”, disse. Ri e me desculpei imediatamente, nem lembrava disto, meu.  A Clara achava graça também, o seu humor era favorecido ainda pelo tinto em mãos. Talvez ela sequer tenha ouvido, vai..., pensei. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida logo ressurgisse. Era uma oscilação a cada sinal, tudo muito incerto. Isto é ridículo, mano, eu devia perguntar de uma vez, suspirei. Sou uma besta mesmo, me irritava com a minha inquietação involuntária. Eu não falo estas coisas. Eu nunca falo estas coisas. Nunca – o que que foi me dar, logo hoje? Arrependi-me e toquei, num impulso, de leve no seu braço.

_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos, vamos...
_Vou só pegar o meu maço, deixei na cozinha, e a gente vai...

“Espera aí, volto já”. No meu caminho até o cômodo adiante, trombei com a Paula e a sua acompanhante desconhecida, que saíam de lá de dentro. A garota parecia escondida atrás da constante sombra da minha amiga de anos, ninguém a ouvira falar uma palavra sequer a noite toda. Já a Paula, por sua vez, vestida numa camisa social vermelha com uma jaqueta de couro preto por cima e o seu cabelo Joãozinho-caminhão, logo fez-se presente e abriu a boca, com palavras até em excesso.

_Cara, é sério que a Marina saiu com esta mina aí que cê trouxe? – eu a encarei na mesma hora; como diabos vocês trocam este tipo de informação em menos de cinco minutos, meu; irritada já, puta merda – E você, meu?! Não é estranho estar com as duas aqui?? Cê já sabia disto antes de vir?
_Sim. Não. E não. Agora sai, Paulinha; sai da minha frente.
_Mas, mano, ela despejou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta, não é da sua conta, né? – a interrompi, grossa, entrando na cozinha.

E a minha ex-namorada estava encostada no balcão, as pernas cruzadas e a mão beliscando de um pote de amendoins, enquanto falava com a Ana. Fofoca destas, logo você? Jura?! Lancei para ela um breve olhar indignado. E voltei o rosto para a mesa ao meu lado, pegando o maço praticamente cheio que havia esquecido ali. Tudo bem. Não era como eu pudesse esconder este tipo de coisa da rede lésbica e as suas bocas grandes. E vai, a Marina foi sacaneada também, então nada mais justo; I guess. Saí pela porta da cozinha até a sala, o maço em mãos, e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta já do outro lado, que dava na lateral da casa; uma espécie de quintal estreito. Alguns vasos com ervas jaziam no chão de ladrilho, malcuidadas; todas certamente plantadas pela Ana. Acendemos cada qual o nosso respectivo cigarro, ambas encostadas contra a parede.

_Você já está oficialmente conhecida, hein... – balbuciei com o filtro ainda na boca, apagando o isqueiro – ...virou a “mina que deu aquela puta mancada com a minha ex”, cê sabe, né?
_Nossa, hein. Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei a notícia, meu... – ri – ...só tô sendo honesta.
_Ah, porque você é um poço de sinceridade mesmo... – a Clara soltou a fumaça para baixo e achou graça, implicando o mesmo passado de mentiras bandidas que dividíamos.
_É. Pois é.

Mas estou trabalhando nisto... E estava mesmo; nós duas rimos juntas. Nos entendíamos de alguma forma; estava frio e escuro ali fora. O vento da madrugada batia contra o tecido fino das nossas mangas; mas não parecia nos incomodar, não naquele instante.

_Por... falar nisto, meu... – tomei coragem e me desencostei da parede, já inquieta; pus-me à frente da Clara, as minhas botas esbarravam de leve nas suas – ...eu queria falar... com, contigo.
_Hum, e sobre?
_Sobre... ah... – ri, envergonhada; olhava para o chão e levantava a cabeça, hesitante, uma das mãos sobre a testa, o cigarro entre os dedos – aquilo que... eu... meio que falei, antes.
_Ahm. E o que você, meio, falou antes? – ela riu, de volta.
_Ah... cê sabe...
_Não, eu não sei. Não sei de nada. O que era?

Ela sabia. Agora eu tinha certeza – ela, a Clara, mordia os seus lábios argentinos e, ah. Eu podia ver nos seus olhos, espertos e debochados.

_Nada, cê sabe – respondi, rindo.
_Sei, “nada” – ela riu junto e me encarou, fixamente; sorrindo.

Assim. Sem elevadores, sem namoro-dramas. Ela sabia.

24 comentários:

Ianca' disse...

Achei bonitinho a posse da Devassa com o toque na cintura da Clara, e a defesa da "presa" para com as amigas nada confiáveis...

Agora choquei, pq achei que tinha sido uma merda espontânea, mas a FM aceitou mesmo o que disse? Mew, o fim desse post foi muito doloroso, tô aos caquinhos... E agora mew? E agora? Tu quer acabar com as tuas leitoras, isso sim, tornando a Clara tão importante deixa-a indispensável :/

Anônimo disse...

QUE FINAL DE POST MAIS LINDO! ESQUECI COMPLETAMENTE DA OUTRA LÁ, SÉRIO. ESTOU IN LOVE COM A CLARA. ANW *-*

Monica disse...

que gracinha essa Clara!!!

Anônimo disse...

Meu meu meeeum, muuuuuuiitttooo fofas!!! Amei o post e os detalhes aahhhhhhhhhhhh *-*

Cruel to be kind disse...

Clara <3

Cruel to be kind disse...

Clara <3

Anônimo disse...

Coisa mais linda as duas, a FM toda surtadinha com a reação da Clara haushahshau. Mas to com saudades da Mia :(

Anônimo disse...

Gente, quanto sofrimento! FM e suas barreiras...
Sei lá, no amor a gente pode pecar por excesso!


ps: frase linda dita pra pessoa errada. Jogo contra mesmo ;p

Anônimo disse...

quero a mia :((

Anônimo disse...

Acho digno a FM ver que existe vida sem Mia, e uma vida boa. Agora mostra logo o pé na bunda que o Fer levou, tira ele do apt, e faz a Mia correr atras dela pq quer de verdade. Tudo isso, claro, sem magoar a Clara. =D

( the girl fucking Mia ) disse...

Vocês me dão tarefas tão fáceis... rs (mas, sim, tenho um plano! Para cada um deles, inclusive a participação da Clara nisto tudo)

Fazneime disse...

Awn, tá muito fofa elas duas juntas <3

@livia_skw disse...

Velho, um poço de ternura! A Clara equilibra a FM, enquanto a Mia só gera caos.

Anônimo disse...

Epa,epa,epa!
Tudo muito fofinho, mas...concordo com o post das 23h.
Faz a Mia correr atrás da FM, pra variar, e vamos ver o coração da nossa protagonista balançar.E a verdade aparecer porque o amor, aquele sofrido pela Mia...tá lá no fundo. Certo!
E a Clara? Hum...porque não "deixá-la" com a fofa da Marina? Afinal...duas fofas que já se encontraram antes...kkkkkk
Beijão Mel!

Anônimo disse...

Vc disse no grupo do fb q td q vc posta aqui tem a vr com a Mia diretamente ou indireta... e eu sinto msm q msm com ela sumida, esse lance td om a clara tem uma importancia mto grande. pra mia e tbm pra fm. E espero elas juntas ainda... mas a clara tem um papel fundamental!!

Anônimo disse...

POR FAVOR, não machuca a Clara.

Anônimo disse...

Hahahajajha, todas na expectativa do reaparecimento da mia.

Gente a clara ta me ganhando de pouquinho em pouquinho . adoro essa cumplicidade de filha da putiase dessas duas. Elas sao um casal muito foda.
Clara só nao tira o lugar qe a marina tem em meu coração pq eu tenho uma pequena tara por esse jeitinho cdf sexy da marina .
Ainda bem qe sao só personagens de um blogger.

Juliana Nadu disse...

Nossa o(a) anônimo disse exatamente o que eu queria dizer : "Acho digno a FM ver que existe vida sem Mia, e uma vida boa. Agora mostra logo o pé na bunda que o Fer levou, tira ele do apt, e faz a Mia correr atras dela pq quer de verdade. Tudo isso, claro, sem magoar a Clara" hahahahahah eu tenho quase certeza..

E todxs nós sabemos que vc é uma muleka cheia dos planos Melzita!! s2

Roberta disse...

Li o post ouvindo Siempre me quedará <3
Perfeito Mel! eu comecei ler o blog a "pouco tempo" então, como li tudo em poucos meses, consigo notar claramente o quanto você evoluiu como escritora, antes uma festa durava um unico post, com diversos acontecimentos, agora dura mais do que isso, e apesar de matar suas leitoras de curiosidade assim fica mais real, da pra acompanhar cada detalhe!

ohana sanvés. disse...

Fucking God, que linda a Clara *-* até esqueci da Mia depois dessa, er...
e Mel, como tu escreve bem. sério, eu leio um parágrafo e depois releio, parando pra prestar extrema atenção em cada palvra que tu escreve. fico maravilhada, rs
Mel cada dia me surpreende (:

ohana sanvés. disse...

ah, vendo o comentário da Roberta ali... sou completamente a-p-a-i-x-o-n-a-d-a pela Siempre me quedará. Sério, eu sou louca nessa música ♥

Pathy disse...

Então teremos mais drama nesse romance?! HAHAHAHHAHA
P.S.: Gostei da ideia da Clara e a Marina. hihihi

'duuda disse...

ai meeeuuu!
to nervosa, quero o fim dessa conversa! e pobre clara, já chegou no grupo cheia de história! hahahahaha

jamile disse...

ai adoro a clara =) hsausha