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julho 20, 2012

Perfekte Welle

_Ah, porra, vocês tão aí... – a Flavinha disse educadamente ao nos encontrar, na lateral da casa – ...tô saindo pra Vila Mariana já, vocês ainda vão querer a carona?

Me recuperei quase instantaneamente, desapoiando ambas as mãos da casinha de tijolos e erguendo o corpo, ainda um tanto zonza. A Clara estava ao meu lado, preocupada, e as duas me perguntaram sequencialmente se eu estava bem. “Aham...”, acenei, mentindo. Só vamos embora logo, fechei as calças escancaradas e peguei o maço no chão. O frio agora se fazia sentir duramente no meu corpo debilitado, argh. Entramos e despedimo-nos sem muitos rodeios das garotas que ainda restavam na sala; abracei a Lê já na porta e nós fomos.

A minha cabeça doía, instável; e o caminho de volta pareceu durar uma eternidade. Colocadas por cima das minhas, as pernas da Clara aqueciam o meu colo no banco de trás. Estava gostoso, mas as luzes de São Paulo me doíam a vista. Inferno. Subimos as escadas do seu prédio com dificuldade, eu apoiada nela e ela cambaleando, às vezes, contra o corrimão. Ríamos muito. O seu apartamento estava silencioso e, como de costume, havia certo charme naquela bagunça toda. Sentou-se na beira da janela do quarto, descalçando as botas, e me observou admirá-la. Dividiu, então, a cama comigo e dormimos sob diversas camadas de cobertas, quase o dia todo. Um domingo perdido. Voltei para casa quando já era noite.

Fui direto para o corredor, em direção ao quarto. “Recebi seu ‘bilhete’” – o Fernando resmungou detrás do sofá, assistindo TV na sala. Ótimo. Ignorara o meu “boa noite” na entrada e agora agia de modo proporcionalmente infantil ao meu chilique da noite anterior. Só de birra, não nos falamos direito por uma semana. Oito em ponto da manhã, na segunda-feira, e eu estava plantada, com um cigarro pela metade na boca, frente à loja de celulares. O meu bebê estava pronto. Glória, glória – aleluia! Paguei o que não tinha pelo conserto, afundando-me ainda mais nas contas, e o reiniciei já a caminho do trabalho, ansiosa.

“Eu sei q. ñ faz sentido, que ñ tem nd a ver... mas machuca, poxa :/” – a mensagem da Mia destoava entre todas as outras não lidas, uma caralhada delas enchera atrasado a minha caixa de entrada. Assim que vi o seu nome, cliquei impulsivamente para ler. E li com certa culpa, me sentindo mal; mas confusa. Do que você está falando?! A data era daquele sábado para domingo, 1:02 am. Imaginei o que estaria fazendo para me mandar uma mensagem àquela hora. E me veio à mente ela em seu quarto, sozinha, pensando em mim agoniada durante a madrugada. Mas o que diabos eu fiz? A imagem, por mais irreal e improvável que fosse, me perturbava.

Fechei a sua mensagem e virei a esquina, apagando o cigarro numa parede qualquer. Fui rolando abaixo a lista de “não lidas”, enquanto tentava me lembrar da última vez que a vira, por que poderia estar magoada? Passei por algumas mensagens da Lê, outras duas da Clara. Pensei na festa de sexta, nos 5 minutos na lavanderia. Abri uma das mensagens. E foi então que me ocorreu – a deixara na manhã de sábado para ir à Ouro Fino com a Clara. Era isto, nós discutimos. Como fui esquecer?

Tornei a baixar os olhos. E lá estava: “A gente, sabe, se orgulha de viver sob as nossas próprias regras e gastamos energia para mostrar pro mundo o qto somos livres, o qto somos felizes. A verdade eh que nunca estive tão bem, como estou com vc. Obrigada pela visita, Bo :)”. A mensagem era de uma semana antes, de quando interrompi o seu jantar para dizer, de forma bem pouco articulada, que gostava dela. Era a mensagem que eu não respondi, a tal.

Diferente da da Mia, que parecia ter sido escrita num impulso de madrugada, esta me soava como algo que a Clara pensara e reescrevera por horas. Até encontrar um jeito certo, e menos comprometedor, de me dizer: “gosto de você também”. E depois ficou brava porque eu não respondi. Sorri. A imaginei inquieta, com sua “amiga” já adormecida na cama, tentando entender por que diabos eu não respondia. A ideia me divertia.

É que não é fácil, entende, nem para mim e nem para ela, falar assim sobre o que sentimos às garotas. O comum é não sentirmos coisa alguma. E não ter obtido resposta minha deve ter sido mesmo exasperante – eu sabia, já havia tido a minha cota de elevadores fechados e conversas de mão única em Higienópolis no ano passado. Ah, por isto você estava toda bravinha no MSN sexta, ri.

Cheguei ao trabalho com uma vontade imensa de ligar para ela – e me esqueci da Mia. Naquela e nas próximas semanas, me esqueci. Eu e o Fer voltamos a nos falar, a minha relação com a Clara cresceu, eu trabalhava todo dia feito louca, pegava cada hora extra que podia e a Mia não me mandou mais mensagens, exceto um “ei, o que anda fazendo? :)” numa quinta aleatória, que eu categoricamente ignorei. A vida ficou fácil. Por quase dois meses ficou bem – mas aí, é claro, virou de novo de cabeça para baixo.

22 comentários:

Bruna disse...

Aiii... é tão bom quando o post acaba assim!

¬¬

Anônimo disse...

ISSO AÍ MEL, DEIXA A GENTE ASSIM MESMO, EM PLENA SEXTA FEIRA, PRA PASSAR O FINAL DE SEMANA TODO IMAGINANDO O QUE ACONTECEU DESSA VEZ. :(

Camyla disse...

Adorei o "e me esqueci da Mia." U.U
Maaaaaaassss como vc pode acabar um post assim, Mel??
O q virou de cabeça pra baixo? O q????

Próximo post, por favor!!

Pathy disse...

Lá vem "merda". Pq não se pode ficar só BEM heim?! ain.. angústia!

Julie Alves. disse...

Aaaaaah Dona Mel.. Acabou o post assim e passa MILHARES de coisas em minha mente! Vs adoora deixar a gente louca né senhorita? u.u
Ameii a continuacao de Conto De Fadas entre FM e CLARINHA!
MIA cai fora meu! Ja deu pra voce! u.u
Proximo, proximoo! ;)

Anônimo disse...

ADORO quando o blog pula meses! Vem coisa boa aí...

Ianca' disse...

Como que ela ignora a Mia por 2 meses mano? Doeu!
Mas gostei de vê-la pelo menos por breves sms's.
Essa alegria toda enjoa!!!! hahahaha
E tu acaba assim? ¬¬

Anônimo disse...

Pq vida fácil e estabilidade são para os fracos!

Cara, curiosei mtoo agora. E por isso, e somente, troféu joinha pra autora!
Nada q um post expresso não resolva, hahahaha

Esk disse...

Momento "aaaaawnn *-*"

Vomitando arco-íris eternamente pela fofura da Clara! Aí vai dizer que a Mia apareceu de novo? Logo agora??

Ansiosíssima pelo próximo, Melzita!

'duuda disse...

dai o post foi acabando e eu 'aaai, que gostoso, essa sensação é muito boa, e eu sei exatamente como ela é *-*'
e aí chegou o MAS ;~

Flavs disse...

COMO ASSIM? :( poxa Mel, chega de drama hahaha

Anônimo disse...

a mia FINALMENTE terminou com o fer! <3

Anônimo disse...

MIA MIA MIA <3
Lá vem merda

Anônimo disse...

Traga a Mia de volta com força pra história, por favor.

Anônimo disse...

Nossa, esse último parágrafo tava parecendo final de livro.. até a parte "- mas aí, é claro, virou de novo de cabeça para baixo."
Já tava quase surtando aqui, pensando que era o fim ;(((
Hahahahahahaha
Lá vem merda (yn)

Anônimo disse...

Mia mia mia <33

Anônimo disse...

Ahaaa!
Lá vem babado, gritaria e confusão...e MIA!!
Esse negócio de FM esquecer a Mia por 2 meses não tá legal ;)
Esperando ansiosamente a continuação.
Beijo, Mel e parabéns, está ótimo!

jamile disse...

mel vc escreve bem demais, eu amo ler tuas histórias =) parabens!

Anônimo disse...

------ Dani ------
Pow, como eu disse Mia é nao tem como meu... Pobre da FM, sei o quanto é comprecado. O pior d tudo é q quando se pensa q ta tudo bem, a recaida vem com uma itencidade mt lok!!!
Galera a Mia é algo q nao dar pra curar. Aff, abstinencia meu, uma luta a cada dia. Rsrsrs...
É comprecado d+ ter uma Clara e uma Mia na vida povo....

Anônimo disse...

mas aí, é claro, a Mel tinha que acabar um post assim pra matar suas leitoras de ansiedade, que lindo *-*
só que não ¬¬

cade o próoooximo (provavelmentecheiodemerdaspraFM)? D:

Anônimo disse...

Nada como uma 'Perfekte Welle' para acalmar um pouco a vida da FM, certo?
Cute, as usual.
[...]
Das ist die perfekte Welle
das ist der perfekte Tag
Lass dich einfach von ihr tragen

Gabriele disse...

Vou surtar...apenas isso LOL