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julho 23, 2012

2 meses em 20 minutos

Vem. Está demorando demais, pensei. O conserto do vazamento na máquina lava-roupas chegava ao fim e nada do Fernando passar por aquela porta. Merda, cadê você? Terminava de rosquear o cano na torneira, vedando com um pedaço de fita isolante. E a minha preocupação crescia, arrependida de tê-lo criticado. A briga agora deve estar feia, droga. Mas que droga. O relacionamento dos dois era uma catástrofe; o pai do Fer era o tipo de cara de quem ele não ouvira uma palavra de carinho – ou de orgulho, diga-se de passagem – a vida toda e que também não media palavras para criticar e humilhar os outros, impondo a sua própria moral.

O filho, claro, cresceu influenciado por este contexto; apesar de porra louca como eu, e mesmo com todas as tatuagens no braço, o Fernando tinha aspectos muito sérios em si; a sua postura era muito “de homem”. Sempre foi – foi mudo em casa, durante a infância toda, e não até o meio da adolescência que aprendera a se posicionar contra o pai, a retrucar. Mas ainda era o seu pai; e a opinião dele ainda importava. O velho era capaz de destruí-lo. Pesava no Fer e era isto que me preocupava, vem logo, vem. Eles tinham brigas imensas, orgulhosas.

Levantei de joelhos no chão e virei a torneira, para abri-la. Testava o sucesso da minha gambiarra – nem uma gota sequer, toma esta! –, quando o meu celular vibrou sobre o tanque. Era a Clara. Saíra mais cedo do trabalho e já estava na porta do prédio, informou num SMS. Escrevi de volta pedindo que subisse, ainda precisava tomar um banho e me trocar para irmos almoçar. Limpei mais uma vez as mãos nos shorts. Olhei para o relógio da cozinha, aquela ligação já durava mais de vinte minutos. Ugh. Molhei o rosto e lavei as mãos brevemente, enxugando-as numa toalha qualquer que pendia no varal.

Fui então abrir a porta, voltando à sala antes que a campainha tocasse. Alguns metros adiante no corredor, sentado na escada do prédio, vi o Fer com a cabeça baixa e o celular ainda no ouvido. A sua orelha já deve estar quente. A mão segurava a nuca; o cabelo quase raspado, curto, e a camisa social aberta, tinha uma regata branca por debaixo. A expressão abalada. Ouvi o elevador começar a subir. Besta. Por que cê foi pedir demissão, moleque?! – tinha os meus olhos fixos nele, me cortava o coração vê-lo se submeter àquilo. A maquinaria parou. Aos poucos, começou a discutir de volta com o pai, tão logo a porta do elevador se abriu, e a Clara veio na minha direção.

Estava linda, eu estava um desastre. O tom da briga dos dois aumentou, o Fer tinha os olhos vermelhos e molhados – poucas vezes o vira chorar. Podia vê-lo frustrado. Secava o rosto nos antebraços, com raiva, e continuava a argumentar. A Clara o notou ali, metros adiante de nós. Me cumprimentou, estranhando a situação toda, e perguntou o que estava rolando. Quis saber se tinha algo a ver com a Mia. Eu disse que não – sem explicar direito também. O Fernando estava fora de si, começou a discutir de volta, gritando com o pai.

_E eu sou o quê? E eu sou o quê, porra?! – dizia ao telefone, irritado.

Encaminhei a Clara apartamento adentro, tocando-a pelo ombro. “Vem”. A última coisa que ele precisava era de plateia, naquela hora. Então entramos. Ela ficou esperando no meu quarto e eu fui tomar o meu banho. Não demorei muito. Tornei a entrar no quarto e me troquei rapidamente, já estava com fome. A Clara mexia no meu computador, vendo as suas notificações no Facebook. Saímos nem meia hora depois de termos entrado. Passamos pelo corredor e vi o Fer já sem o celular na sala, fumando um baseado no sofá, quieto. “Espera um minuto, deixa eu falar com ele”, pedi. E ela ficou perto da porta.

_E aí, quão ruim foi? – sentei ao seu lado, de mansinho.
_Uma bosta. Eu já sabia que ia ser.
_O que ele disse? Não conseguiu?

O Fer tinha os antebraços apoiados nos joelhos, as pernas abertas. O baseado pendia na boca, tirou-o com a ponta dos dedos e soltou a fumaça. Já recuperara a expressão séria habitual. As tatuagens apareciam sob a manga dobrada da camisa.

_Ele quer que eu volte, né. Quer que eu vá morar lá com eles. Não sei – balançou a cabeça –, ia ajudar não ter que pagar aluguel e a comida, posso pegar uns freelas e me virar com o resto, o carro e tal. Mas ia ser foda, mesmo por uns meses só. Não me dou com o velho, cara.
_Você não precisa sair, Fer...
_Ele não vai dar a grana, não vai emprestar nada. É um filho-da-puta! Ele não tá nem aí – disse, frustrado –. Só quer me mostrar que eu sou um bosta, que eu não sei fazer porra nenhuma sozinho.
_Não, meu. Calma. Eu vou pegar com os meus pais este mês, fica pelo menos mais um aí.
_Que jeito?!?
_Não sei, mas... Cê não precisa sair agora. A gente vê um j...
_Não, mano. Não vou ficar te atrasando também! Já te devo a vida, meu, pára! Você já fez até o que não podia por mim. Já fez demais. Não quero ficar te atrapalhando mais nessa.
_Não é assim, meu.
_Não, já tá decidido. Cê precisa correr atrás de alguém pra dividir, o aluguel tá aí. Nem que seja só por uns meses. Depois eu volto, a gente vê. Não sei...
_Não, não. Nada a ver! Eu moro com você, porra. Não vou dividir com outra pessoa! Nem te deixo ir morar com o sociopata de merda, nada a ver. Nada a ver mesmo – senti um aperto no peito, de repente –. Você fica, Fer.
_Não vai ser tão ruim. Pensa, divide aí com a Clarinha... – ele riu, brincando, e lançou o olhar para ela.
_Deus me livre!

Ela logo recusou, do outro lado da sala. Gracinha.

_Não, nada disto... – contra argumentei, mais uma vez – Fer, esquece esta ideia! É sério. Mais tarde eu tô aí e a gente pensa em alguma coisa, você e as suas tralhas não vão a lugar nenhum...
_É. Tá. A gente vê, vai lá, vai. Vão almoçar... – ele sorriu para mim, sem muito ânimo – ...eu vou pra Mia também, vou me trocar. E a gente se fala mais tarde...

24 comentários:

Giovana Turioni disse...

FM toda solidária e engolindo todas as merdas que disse pro Fer, awn! Simpatizo tanto com ele que fiquei morrendo de dó. Quero mais, Mel!

Ju disse...

Também fiquei morrendo de pena do Fer :( hahah. E a Clara super delicada hahaha. Quero só ver o próximo!

Anônimo disse...

FODA! É foda imaginar um cara tipo o fer, td tatuado, chorando e puto e ai. <\3

Conheço de perto "pais" assim. Ja vi oq podem causar, destroem msm uma pessoa. É uma merda!!

GFM td linda preocupada. Quero mais (2)

'duuda disse...

ah meu, ele é um babaca de ter se demitido, sabe. mas da uma pena imensaaa de ver esse tipo de relacionamento. a gente se apega nas personagens, sabe :~~ hahahaha

Anônimo disse...

mas ele ñ pensou, neam.. ñ foi de proposito!! tou com o fer.... ñ qro q se separem ://

Bruna disse...

Que post triste. E tão, tão real ♥

Juliana Nadu disse...

É assim que se resolvem as coisas... amigos não são só nos momentos que tudo esta numa boa, amigos são pra essas horas onde parece que nada dá jeito!! Eu gosto muito do Fer, não acharia justo ele se dar mal nessa historia!! E a FM mais uma vez mostrou seu lindo caráter!! >.<

Ju disse...

É pecado querer o Fer longe pra ver se a Mia e a FM se entendem? :(

Anônimo disse...

Fico bonitinho um falando não pro outro. 'Não, eu vou'. 'Não, vc fica'. 'Não, nd a ver'. kkkk

PS- Quero o FB da Clara! Libera aí, Mel!!

Anônimo disse...

Owwnnn, Fer!! :((

Anônimo disse...

mia vai morar no ap, tenho dito!

Anônimo disse...

Vou apanhar por essa: eu pegava o Fer.

Bibi disse...

"Anônimo" pode pegar o Fer meu de boa, imagina, fica á vontade =) ... Ou então, que horas a Mia sai da facul mesmo? hehe

Anônimo disse...

Fer vai pra casa da Mia, vai conversar... e a solução será: mia por uns tempos no ap! UHUL!

ps: Campanha "Libera o Face da Clara aí, Mel" HAHAHAHAHAHA. (ri muito)

Ianca' disse...

Se a Clara deixasse hahahaha
Mas acho que não faz muito sentido a Mia ir pro apê, ela tem irmãos?! Acho que os pais dela não aprovariam por hora, possivelmente ela só estuda, era como arcar como uma aventura.

E o blogger engoliu meu comentário do outro post, thanks servidor.

Fico mó bolada vendo essa situação, fiquei puta com a atitude imbecil do Fer, mas tb não curto vê-los sofrer.
Amei a descrição da agonia dele.

Camyla disse...

Nossa, eu achei o Fer tão idiota no outro post, mas agora deu a maior pena dele :/
E foi lindo ver a FM dando a maior força... Olhando assim a amizade deles, como ela pode pegar a Mia? Só sendo muito amor mesmo, pra ficar com ela, viu? ...
Espero que ele não vá embora enquanto a FM estiver fora.

Tô triste por ele e quero mais.

Flavs disse...

Uau, cadê o orgulho nessas horas? hahaha

Anônimo disse...

Todas querendo que a Mia divida o apê com a FM enquanto o Fer fica no pai dele SHAIUSHA Mas certeza que a Mel não vai facilitar as coisas assim, né Mel? Aposto que talvez as coisas vão por um caminho diferente. Sei lá meu, agora não sei mais de nada, só sei que tá muito bom meu. Próximo por favor!

Anônimo disse...

Quem nunca fez merda, né...

Anônimo disse...

Engraçado a frase que você escolheu para ressaltar da discussão dos dois, me fez realmente no que estaria rolando na conversa. Deu um sentimento ruim, como se o Fer ainda tivesse a sua personalidade muito esmagada pelo pai. É um relacionamento problematico, este post mexeu comigo, por motivos que nem eu estou pronta para aceitar. Enfim, ótima escritora! Você é foda mel, continue nos iluminando com a forma precisa com que você escreve...

jamile disse...

mais =D

@livia_skw disse...

Poxa, deu uma vontadezinha de abraçar o Fer! Eu bem sei o que é ter um relacionamento complicado com os pais.

Espero que o Fer não vá embora, pra FM ficar com a Mia.

Anônimo disse...

Preciso dizer que ta incrível??rs
adorando a viagem da MEL pra NZ,ela não está mais assídua com os posts pessoal?hehe.bem que ela poderia postar fotos da viagem :p.

Anônimo disse...

Mia morando com FM, AGORA! :D