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julho 29, 2012

Uns desenterros

A Marina levou uma das mãos ao centro da mesa, checando as horas no seu celular, ali deitado. Tinha os cabelos delicadamente presos em fivelas laterais, em ambos os lados. O resto caía solto sobre a malha branca que vestia com os jeans claros. “Está bonita”, disse. Ela me olhou, repreensiva, e deixou o telefone de lado. “E você está vinte minutos atrasada”. Era verdade, estava. Pensei logo em contar-lhe sobre a conversa estranha que tivera com a Mia antes de sair – o que certamente distrairia o foco do meu deslize –, mas não quis dar-lhe pano para a manga. A sua análise daqueles oito segundos de conversa em frente à porta do apê duraria horas, eu sabia como a Marina era. Preferi assumir a culpa. E ela observou, ainda aborrecida: “Eu venho da Vila Madalena de carro, você só precisava subir dois quarteirões!”. Ok, ok.

Sentei e pedimos uma cerveja juntas, outras duas mesas ocupavam a calçada ao nosso lado. Contei-lhe todo o rolo com o Fer e o apartamento. Ela ouviu tudo apreensiva. Não gostava da ideia de eu não ter garantias, reservas financeiras. Perguntou se eu precisava de dinheiro emprestado, lhe disse automaticamente que não. Mentira. Mas nem ela o tinha para me dar, eu também sabia. E outra: Pedir para os meus pais já havia sido um golpe duro para o meu orgulho, aceitar dela seria ainda pior. Nem pensar. Comentei que não dormira direito naquela noite, que estava preocupada com como as coisas seriam. E mais ainda, com quem diabos moraria.

_Ai. É complicado mesmo, flor. Assim tão de repente! – ajeitou os óculos pretinhos, com o cotovelo apoiado sobre a mesa e tomou outro gole da sua cerveja – Quantas semanas faltam?
_Duas. Este eu ainda consigo pagar, aí são mais quatro ou cinco até o próximo aluguel.
_E você não conhece ninguém que, talvez, esteja em outra república e não curta muito? Alguém que pague caro, sei lá?
_Não sei, meu. Não consigo pensar em ninguém...
_Bom, por um lado, você tem a Augusta a seu favor – sorriu, sendo positiva, a la Marina –. Vocês moram no meio da muvuca... se for pensar, qualquer um ia querer dividir um apê por aqui. Não deve ser tão difícil!
_Este não é o pior, meu. O problema mesmo é se o Fer voltar; e eu quero que ele volte. Mas quem vai topar ficar dois, três meses num apartamento? Sem garantia nenhuma de ficar depois de vez, mano?!

Ela revirou os olhos em mútuo entendimento, como se dissesse “pois é”, por cima do seu copo já na metade. Tomava outro gole. Pois bem, resumindo, não vai rolar. E eu estou fodida de vez, ri. Achava graça no absurdo da minha própria situação. Alcancei o maço. A Marina, então, deu um pulinho na cadeira e se apressou em deixar o copo novamente na mesa, limpando os lábios com um gesto sutil dos dedos. E aí sugeriu, toda animada:

_Por que você não chama a Dani? – ela sorriu e eu estranhei a indicação, retraindo a cabeça – É perfeito, meu! Pensa: os pais dela são cheios da grana, certeza que ela toparia morar por uns meses em São Paulo. Ainda mais com você, meu.
_Não! Nossa, não mesmo – enfatizei – Ficou louca?!
_Por quê? Ela odeia a cidade dela...
_Não, mano. Nem pensar! Preciso ficar uns dois anos sem ver a Dani, meu...

Isto foi idiota, pensei e a observei, contrariada, mesmo para uma sugestão sua. Ali tinha algo. Não era o tipo de coisa que a Marina me recomendaria, assim, aleatoriamente. Dani?! Por que a Dani? A nossa história era antiga, cheia de idas e vindas, e a Marina surgiu um pouco depois de uma das piores “idas”. Saímos em Campinas numa madrugada, eu e um grupo de amigos dela do interior, na Kraft. A Dani estava com a cabeça entupida de cocaína; enchemos a cara, todos, e num mal-entendido envolvendo uma cantada minha que não existiu em cima de uma amiga dela, a Dani me virou um tapa. Perdi o controle. Nos xingamos tanto, completamente em cima uma da outra, que acabamos expulsas da balada. Voltei a pé até a rodoviária e peguei o primeiro ônibus para São Paulo, puta da vida.

Não nos falamos por meses. E a poeira abaixou, como era de se esperar. Quando a revi – por acaso, nos tempos áureos da Bubu, em São Paulo –, eu e a Marina já namorávamos. Estávamos nos primeiros meses, eu ainda a traía pouco. Conversamos animadas na festa. As duas foram apresentadas, tudo durou menos de dez minutos, não houve atrito algum entre elas – e eu peguei a Dani no banheiro, fato que a Marina ainda desconhecia. Mesmo até aquele dia. É, e não – eu não tenho orgulho disto. Depois que deixamos de namorar, contei de diversas garotas à Marina, mas nunca sobre a Dani. Agora aí está, me sugerindo chamar justo ela para morar comigo. Sabia, porém, de todas as outras vezes que a reencontrei depois do término. Inclusive a última. E sabia também que tínhamos uma atração complicada uma pela outra. A olhei, com minhas suspeitas.

_Me diz... O que você tem contra a Clara? – sugeri, jogando meio verde.
_Nada! Por que isto agora?
_Por que, com tanta gente para escolher, você foi sugerir logo a Dani?! Você sabe como nós somos, sabe o que rolou da última vez, meu.
_Me pareceu apropriado. Ela tem dinheiro, disponibilidade, vocês se dão bem... sei lá! – a encarei, descrente, e ela revirou os olhos imediatamente para a minha reação – Nossa, desculpa, então. Não está mais aqui quem falou!
_Isto não é justo e você sabe, Marina. A Clara se esforçou pra caralho pra ficar bem com você, meu. Toda vez que a gente saiu... está sempre preocupada em te agradar, em te compensar. E você sequer pergunta como estamos!
_Nossa, menos, por favor. Não existe conspiração nenhuma, ok – cruzou os braços, dramaticamente.

O que há com as mulheres hoje, cacete?

_Eu acho que você não perdoou ela ainda.
_Isto é ridículo. E se você e a Clara estão, oh, “tão bem” – deu de ombros –, por que este medo todo da Dani, assim, de repente? Foi só uma sugestão. Você é livre para aceitar, ou não.
_Você é mais esperta do que isto, Marina, nós duas sabemos... não muda de assunto.
_Chega. Eu não quero mais falar sobre ela.
_Ela me faz bem, linda. Eu estou feliz – expliquei.
_Oras, tudo bem...
_Sei – ri, arqueando as sobrancelhas – Cara... eu tenho medo desta sua mente, sabia?

19 comentários:

Anônimo disse...

Uau, post novo às 8h da madrugada,rsrsrs
Mas...o que acontece com Marina? Ciúmes da FM/Clara? Será?
rsrsrsrs
Tá ótimo, agora só esperando a hora da Mia "se oferecer" pra dividir o ap...kkkkkkkkkkkk
Go, Mia, go!!!!

Anônimo disse...

Marina <3

A Mia podia ser a solução né hehe

@livia_skw disse...

Parabéns Mel, pelo post nº500!
Aliás, isso foi um post de meio? Medo do que possa vir no próximo, rs.

Anônimo disse...

Coisa linda essas duas!

Anônimo disse...

Dani não, pfvr
Chega de mulheres complicadas na vida da FM.

Dea disse...

eu aqui pensando: mas esse post não é novo. fui ver os comentários: zero. fiquei toda confusa, cara! hahahahaha :D volta logo. quero Ibotirama com Mel e Mia, rs! eu vou pra SP essa semana. acho que lá pelo dia 3. devo ficar uns 4 dias, no máximo. façamos algo ;)

Ianca' disse...

Parabééns! Post 500 o//

Qual a implicancia? E antes de desejar saber o que se passa pela cabeça da Marina, gostaria de saber que ideias passam pela cabeça da escritora... Hmmm

Anônimo disse...

quédêcontinuação?

jamile disse...

q lindas =) hahaha

Lorena Costa disse...

Eu bem que gostaria de ver FM, Clara e Dani passando uma noite juntas,, hehehehe

Raianny disse...

Ahhhhh, que peninha do Fer :S
hahaha a Mia poderia se candidatar a dividir o apê com a FM, seria no mínimo curioso...

Gabriele disse...

Fiquei imaginando a cena do barraco da FM com a Dani... tô rindo tem mais de meia hora kkkkk aguardando o próximo!

Anônimo disse...

Adorei esse post. E achei tão estranho do nada a Dani surgir de novo HSIUAHSA Quero só ver no que vai dar isso. Depois daquele barraco todo será que a Dani aceitaria facil assim ir morar por uns tempos com a FM?! E a FM ficaria tão desesperada assim pra realmente cogitar chamar a Dani? Curiosíssima pra saber o que vai rolar *--* Muito bom Mel, muito bom mesmo!

Anônimo disse...

Dani, volta?! Quero animação e barraco nesse blog. rs

Juliana Cosendey disse...

Caramba, acho que só eu ainda não tinha atinado pra opção da Mia dividir o apê com a FM UHSAHUSA quase que eu mesma já estava me oferecendo pra dividir o apê e ajudar a manola FM.

coxiba disse...

parabens pelos 500 posts

to com a FM:"o que ha com as mulheres hoje, cacete?" :/

tati disse...

eu só consigo pensar que uma hora a Mia vai falar 'ei, eu posso morar com você até o Fer voltar' e o Fer vai apoiar e não vai ter como dizer não e ai fodeu :~

Anônimo disse...

eu sei q é horrívl, mas acho esses relacionamentos "problema" dela tão atraentes. as brigas com a dani, as noites louca, msmo o lance com a mia....

'duuda disse...

cara, e essa marina fazendo biiirra? awnnnnnn <3