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julho 22, 2012

A cor do fim do poço

Para baixo, mais um pouco. Joguei a franja para fora da cara. O isqueiro já me queimava o dedo, perigando derreter de vez o tubo. Eu fazia uma força enorme. Um pouco para direita, mais um pouco. Assim. Acontece que a lava-roupas estava vazando havia uma semana, a rosca estava péssima – e eu preferi comprar uma nova a pagar pela peça toda. Me encontrava, portanto, sentada na área de serviço, rodeada por ferramentas que eu nunca usava. Vergonha-sapatão. E tentando, concentrada, solucionar de vez aquela merda.

O que deveria ser uma simples – porém cara – troca de cano, se tornou uma barata e complicada empreitada contra o plástico do tubo de saída. Por que fazem esta porcaria dura deste jeito? O meu polegar já estava vermelho, tentava lacear o furo com o calor do fogo. E estava quase dando certo – empurrava a boca de ferro com todas minhas forças cano adentro –, quando ouvi a porta da frente bater. Mas, que porra...?

Era sábado de manhã, não podia ser o Fer. A muito contragosto, duas semanas antes, ele conseguira emprego como programador auxiliar numa empresa almofadinha do Morumbi. Mais de uma hora e meia de ônibus para chegar, um inferno de lugar, mas pelo menos pagaria parte das nossas contas, que já estavam mais atrasadas do que noiva na igreja. No último mês, sem muito sucesso, ele havia tentado alguns freelas para cobrir os gastos, até fez bico na festa de um amigo na Clash; o dinheiro ainda assim era pouco. Da minha parte, eu já havia emprestado tudo que podia e daqui a pouco ia começar a dormir na produtora, de tanta hora extra que pegava.

Olhei para o relógio. Faltavam quinze minutos para meio-dia. Limpei a mão na bermuda – o fogo escurecia o plástico e o tubo velho, sujo soltava tudo nos meus dedos –, e levantei. Meia hora no chão, ao lado da máquina, e a minha testa já estava molhada de suor. Estou nojenta, pensei. E quis tomar um banho, assim que terminasse a droga do conserto. Fui até a sala. Talvez eu tivesse deixado a porta aberta, havia a possibilidade de a Clara ter chegado antes para almoçarmos. Sei lá. Saí pela cozinha e lá estava o Fernando, descarregando a mochila com raiva sobre o sofá e arrancando a camisa social aos trancos.

_Mas, o... o que você tá fazendo aqui, meu?!
_Nada.

Insisti, ele estava puto.

_Fer! Seu horário não vai até as três hoje?
_Vai.
_E...??
_Pedi demissão!
_O quê?!?
_Pedi. Caí fora, meu. Aquele cara é um babaca! – se exaltou, largando a mochila com raiva e se apoiando com ambas as mãos no sofá – Ele acha que pode falar e fazer o que bem entende! Que eu sou obrigado a aguentar essa bosta de emprego, o filho da mãe nã...
_Você tá me zoando que você – comecei a aumentar o tom de voz, interrompendo-o, nervosa – largou a porra do primeiro emprego que você consegue em MESES, porque você não gosta do seu chefe, mano?!
_”Não gosto”, não; não faz soar como se fosse capricho meu, caralho... o cara tá me testando a paciência desde o dia que eu entrei naquela porcaria!! Egomaníaco de merda! Grosso do caralho. Não sabe ouvir uma sugestão, trata todo mundo que nem lixo!! Só fala de meta, de porra de sede. Falava comigo como se eu fosse a puta dele, imbecil. Me botou pra fazer alteração idiota de usuário por três dias, desgraçado de merda...
_E você não podia segurar a porra da sua boca?!
_O cara é um escroto!!
_Foda-se. Você precisa ir lá e brigar com ele?? Cê não se segura, porra. Você acha que você é o único com um chefe de merda?!
_Ahh, falou a que não vê a hora de ir pro batente pegar a quarentona gostosa... – revirou os olhos para mim, ainda fora de si, nervoso.
_Não vejo a hora?! – me irritei – Eu não aguento mais pegar hora extra naquela porra daquela produtora, por SUA causa, e você vai me dizer que eu GOSTO de ir trabalhar?! Por quê? Por que a minha chefe, desta vez, não é uma filha-da-puta?! Ah! Se liga, Fernando!! Quanto chefe babaca eu já não tive que aturar na minha vida e você sabe, porra, desde os 17 que eu trabalho. O mundo inteiro lida com gente idiota, mano, todo dia, e você não pode segurar o seu emprego por duas semanas, caralho?! A gente tem que pagar o aluguel daqui quinze dias. Engole. Engole a porra toda e de boca fechada, mano, foda-se o cara. Foda-se! Você acha que está em posição de ser especial, cacete?!?

Discursei exaltada, em pé, na sua frente. Não posso acreditar neste moleque, argh. O Fernando ficou quieto, puto da vida, ouvindo sentado contra o encosto do sofá. Não me respondeu. E o meu argumento acabou ali, solto no ar. Nós dois ficamos em silêncio. Mudos. Aquela era a primeira vez que ele conseguia alguma coisa acima dos R$ 800 e ele foi lá e jogou tudo pela janela, irresponsável. Eu não podia acreditar, não mesmo. E de todas as pessoas, eu era a que melhor o entendia – o meu temperamento era idêntico, também tinha dificuldade de forçar merda ouvido adentro –; mas não tínhamos como arcar esta. O final de mês estava chegando e eu já ia precisar pedir grana emprestada para os meus pais de qualquer jeito, com ou sem emprego do Fer. Não tínhamos mais um puto nos bolsos.

Sentei ao seu lado e cruzei os braços, encostada contra a parte de trás do sofá. Continuamos quietos. O clima na sala se assemelhou a um enterro, de tão pesado. Não sabíamos mais o que fazer. Cogitamos tudo, tudo o que podíamos. Desde vender o carro, que ainda precisava esperar algumas parcelas até estar quitado, até pedir para os pais da Mia. Grana ou vaga no sofá, qualquer coisa. Não. Nenhuma delas, argh. Eu estava furiosa, odiava quando as coisas saíam do controle. Gostava menos ainda de vê-lo naquela situação. E então, sem muita alternativa, o Fernando desencostou do sofá e foi em direção ao corredor do prédio.

_Eu vou ligar pro velho... – disse, desistindo.

14 comentários:

Anônimo disse...

NÃOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!! =((((((((

Camyla disse...

Fernando tem o que na cabeça, hein???

Bruna disse...

Ênfase para o lado idiota do Fernando! Não baixou a crista pro chefe, agora vai ter que baixar pro pai... o q seria pior?!
=S

Anônimo disse...

só eu acho sexy mina que sabe manejar ferramentas? FM consertando a maquina, uhmmm. '6

Bruna disse...

só eu acho sexy mina que sabe manejar ferramentas? FM consertando a maquina, uhmmm. '6 <<<<<<<-- KKKKKKK MELHOR COMENTÁRIO!!

jamile disse...

aff fernando fdp =O

@livia_skw disse...

Todo mundo critica eternamente o Fernando, mas não lembram que a FM é a versão feminina dele (ou vice versa). A personalidade é a mesma!

Estou com pena do Fernando!

E espero que esse clima de final de novela, não represente de fato, o final da história!

Anônimo disse...

Tchau Fernando, na boa já deu

E eu imaginei a FM super sexy com as ferramentas

Juliana Nadu disse...

Ahhhhh eu fico triste pela historia ter que destruir a amizade dos dois pra que a aconteça algo entre a FM e Mia! =/

sanvés disse...

caralho mano, fodeu

Anônimo disse...

Coitado do Fer, maior corno, sacaneado pela amiga, desempregado e ainda tem que aguentar toda ala lésbiCa contra ele no FM huashashauhsuahsahsaushuaushausa Epero q ele fique bem ://

'' disse...

POOORRA, FER!

Anônimo disse...

Cara, por que o Fer tem que ser tão mesquinho? porra :(

Ketlen K disse...

PORRA, FER! Que sacanagem :(