- »

abril 04, 2013

Moleques

Peguei mais uma cerveja na geladeira. E disquei o seu número – “por favor”. Fui até a área de serviço, tentando não fazer barulho conforme me escondia. Ouvi o telefone chamar, sem resposta. Era a minha quarta ligação. Em menos de duas horas, talvez. Atende, atende. A latinha suava entre meus dedos e o calor que assolava São Paulo naquela noite esparramava-se janela adentro. Contra meu ouvido, os toques ecoavam. Ignorados. Vai; só atende, porra. A não-correspondência me irritava. Escutei chamar o meu nome da cozinha – nada; e a ligação caiu mais uma vez.

_Caralho... – chutei enputecida o balde entulhado de produtos debaixo do tanque, apoiada nas beiradas de alumínio com celular e cerveja ainda em mãos.

O Fernando abriu a porta atrás de mim.

_Mano, você tava se escondendo?!   
_Não – respondi, grossa.
_Pára, porra... – tocou a minha mão e eu saí da área de serviço, trombando em seu ombro – ...pára de ligar pra ela!

Continuei em direção ao corredor, sem responder. Larguei telefone e latinha sobre a mesa da sala e enfiei a cara numa almofada, me jogando no sofá. O Fer veio em seguida. Sentou na poltrona, me observando ter um ataque-fresco de raiva. Ele riu. E então mandou que eu entregasse o celular.  “Não” – respondi, rancorosa. E me sentei, tornando a discar o número da Clara. Ninguém atendia. O Fer se levantou, dando dois passos até mim, e tirou o aparelho do meu ouvido – desligando-o ao sentar-se de volta na poltrona. “Chega”. Meteu o telefone no bolso da bermuda, encerrando o assunto.

_Me dá. Eu não vou ligar.
_Vai, sim.
_Me dá a merda do telefone!
_Não, cara... – ele riu, de novo – Que que cê vai conseguir com isto? Faz três dias que você tá perseguindo a garota e ela num dá sinal de vida, meu; a única coisa que vai sair disto é briga.
_Dane-se. Talvez eu queira que ela brigue comigo!
_Mais? – o Fer balançou a cabeça e puxou a camiseta por cima da nuca, tirando-a; tornou a encostar na poltrona e acendeu um baseado, largando a blusa no chão.
_...
_Eu não vejo sentido no que você tá fazendo, na boa. Você não é assim.
_Foda-se. Eu preciso fazer alguma coisa! Qualquer coisa! Eu prefiro que ela atenda esta porra deste telefone e me xingue, que grite comigo do que que eu não tenha nem chance de falar, caralho; de explicar que eu... porra, que eu sinto uma falta desgraçada dela!! Fer, eu tô enlouquecendo.
_Calma, ela vai vir. Cê tem que dar um tempo para ela, mano.
_Não. Não para a Clara – neguei e ele roubou um gole da minha cerveja, com calor –, ela não vai me esperar. Vai ter um porra de uma fila de vagabunda para curar ela de mim. Eu tenho que fazer que ela não me esqueça, fazer questão que pense em mim! Ela não vai vir rastejando de volta. Ela, não.
_Na boa, você não é tão descartável assim. Ela gosta de você.
_Eu não apostaria as minhas fichas nisto... Eu pisei mal, pisei feio. Ela está puta comigo.
_Ela te levou para a Argentina, velho! Cê tá menosprezando o quanto ela realmente te curte...

Ele me encarou, tragando mais uma vez. “Hum”. Balancei a cabeça e arqueei a sobrancelha - não sei se a Argentina melhora ou pioras as coisas. Tomei mais um gole da minha Itaipava, pensando se devia fumar. O meu orgulho estava dilacerado. Sentia-me estranha sem as suas constantes ligações, sem os SMS dela. Parecia que faltava algo – alguém para dividir a minha porra de existência naquele buraco. São Paulo tornava-se cinza. Ou sempre fora, só eu que não estava olhando, pensei. Era quarta-feira. E eu me deixava amargurar com o passar dos dias, a sua ausência parecia gritar dentro de mim. O Fer não entendia como eu podia ter mencionado o nome de outra garota – no caso, a namorada dele, cujas mensagens eu vinha ignorando a semana toda; sem cabeça para aquilo na hora – em plena Buenos Aires. Eu me inquietava no sofá.

_Pelo menos deixa ligado esta merda, vai que ela responde.
_Não vou ligar, cacete. Esquece!
_Fernand... – interrompi meu próprio resmungo, nervosa.

Ele me observava, inabalado. Que frustração infernal. Me vi obrigada a ceder – não estava desesperada o bastante para ir, de fato, até lá e tirar à força o celular dele. Foi quando ouvimos a porta da frente se abrir. Era o Du, chegando de um happy hour na Bela Cintra. Um certo cheiro de bar o cercava. O Fer se virou para ver quem entrava, estendendo-lhe a mão por cima do encosto da poltrona.

_E aí, velho? Beleza? – ambos se cumprimentaram e o Du largou uma sacola da Livraria da Vila sobre a mesinha à minha frente.
_Que cês tão fazendo aí?

Perguntou ao sentar na ponta oposta do sofá, largado a meu lado. Revirou então os olhos, com bom humor, assim que o Fernando explicou. Em duas palavras: “curando fossa”. O Du riu. Nos três últimos dias, o pobre coitado vinha servindo de muro das lamentações para mim. E se mostrando boa companhia naquele apartamento. Agora arrancava meio de qualquer jeito os sapatos, aparentemente bêbado. Notei que os seus olhos se demoraram alguns segundos nas tatuagens no corpo do Fer – que fumava a uns metros de nós, sem camiseta. Achei graça.

_Parei já, alguém quer?

O Fer ofereceu da poltrona, apagando o baseado sobre a mesa de centro. Nenhum de nós se manifestou. Desde que éramos adolescentes, ele tinha a mania de passar a mão na parte de trás da cabeça, alisando os fios cortados em máquina dois – e agora ganhava um espectador. O Du o observou sem muito filtro, já bem embriagado. Estávamos os dois afundados no sofá. O Fer reuniu as latinhas vazias sobre a mesa, sem perceber a atenção, e levantou para buscar mais uma na cozinha. Jogou as outras no lixo e foi atrás de uma gelada.

_Pô, gato esse teu amigo... – o Du disse na primeira oportunidade que teve, em tom baixo, largado contra o braço do sofá – ...não tinha reparado da outra vez.

Acenei com a cabeça e sorri. O Du soava ainda mais másculo quando falava de outros homens. O Fer continuava na cozinha.

_Caras héteros assim... – prosseguiu meio bêbado, articulando com certa admiração – ...sem chance dele dar a bunda, não é?

Eu comecei a gargalhar, pela primeira vez em dias.

25 comentários:

Larissa disse...

porra, tou numa puta fossa tbm, sempre bom ter algm que a faça a gente rir dessas coisas sem noção!

Anônimo disse...

HAUHAUAHUAHAUHAUH MAS GENTE

Anônimo disse...

Fer? Dar a bunda?
Hahaha de raio laser.

E bora fazendo FM, pq beber é o que te resta.

Anônimo disse...

Ri ALTO junto com a FM!!!

Ianca' disse...

"Escutei chamar meu nome na cozinha" Querendo estar lá pra ouvir D:

Po, Du, sem chance dele dar a bunda, cara hahahahahaa

Bruna disse...

hahahaha... no minímo engraçado esse final! hahaha...

aiai... a FM é foda mesmo, agora ignora a Mia, corre atrás da Clara, quero ver logo onde vai dar isso!

coxiba disse...

gostei da ideia do Fer com o Du ;)KKKKKKKKKKKKKKK

Anônimo disse...

É, FM, o seu mundo ia ser muito mais facil se o Du pegasse o Fer...... imagina o quanto ia facilitar explicar que pegou a mia?? ahahduhauhuhua Pena q sem chance, né

Anônimo disse...

Seu blog é mt pansexual. Tenho vontadd de pegar td mundo!! DELÍCIA DE POST EMMM '6

Aléxia Carneiro disse...

Sem chances dele dar a bunda? :/

Flavs disse...

QUE MENINO SAFADINHO! HAHAHAHAHAHAHA
Ai Du, seu lindo!

Anônimo disse...

campanha: "dá esse bunda, fer!"

o/

Anônimo disse...

Duuuuu, te entendo! Morro de tesão no Fer, na boa.

Anônimo disse...

Super acho que deveria rolar um fuckingFer!

@livia_skw disse...

Hilário, haha!

Anônimo disse...

aché poco

Anônimo disse...

Quero ver a Mia puta no aniversario da fm pq foi ignorada. Só digo isso. kkkk

Anônimo disse...

kkkkkkkkkk Ri muito!! Muito foda esse final..
Depois dos últimos posts.. tão tensos... tava mesmo precisando de um fôlego p continuar a saga da FM..
Ansiosa!!
Obg Mel!
(ANA CURI)

Anônimo disse...

Ai, já pode? Fer, FM, Mia, Clara, Du e todo mundo na mesma cama?

Anônimo disse...

Gente, e o celular da FM no bolso do Fer? Será que ele vai ver as 5 mil sms da Mia lá? Já to imaginando toda uma cena. E Fer, na boa, dá a bunda ae. :D

Anônimo disse...

"O meu orgulho tava dilacerado".
Pois é, né FM? Orgulho ferido? E é por isso que está ligando desesperada pra Clara? Ha!
Sorry, não é paixão mesmo.
Atende a Mia, anda logo ;)

Bárbara Leão disse...

To mais na fossa que a GFM!
Só isso q tenho a dizer!

Pathy disse...

Imaginando o Fer de quatro.. HAHAHAHAHA Não, não dá!

E tomara que a Clara esteja passando o rodo, pra FM ver o que é bom u.u
(Sim, tô maléfica) u.u

Anônimo disse...

Poste perfeito! Essa historia me leva a loucura! Adoro.

Gabs disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Ai, mas eu ri.