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novembro 11, 2010

Indistinto

Caralho. Minha cabeça doía. Meus olhos se abriram, lentos e desnorteados, feridos pela luz que invadia o cômodo. Os raios cinzentos de sol entravam frios pela janela, machucando os meus olhos e piorando aquela dor aguda que irradiava por todo o meu cérebro. A agonia – por qualquer líquido que fosse – se alastrava pelas minhas veias, me dobrava o estômago no meio do caminho e chegava seca à minha garganta. Completamente desidratada, após uma noite daquelas.
 
 
Senti vontade de vomitar e ignorei. Foda-se. Continuei deitada, imóvel. Minha posição me incomodava de alguma forma, porém demorei um certo tempo para perceber, toda torta e largada no sofá. Espera, sofá? Olhei em volta, movendo apenas as pálpebras, judiadas pela noite mal dormida, e nem um só músculo do corpo ou rosto. Tudo parecia se mover em mareada câmera lenta. Meus pés continuavam calçados com os Nikes preto e vermelhos sobre uma almofada e o azul-marinho do sofá. Estranho. A minha jaqueta me apertava e o encosto me impedia de deitar com ambos os ombros confortavelmente acomodados.
 
Puta merda, eu tinha mesmo desmaiado na sala. Em algum momento da madrugada anterior. Forcei minha mente, sonolenta, tentando refazer os meus passos Augusta abaixo e até a porta de casa. Não consegui. Porra. Um pedaço me faltava na memória. Passei as mãos pesadas pelo rosto e suspirei, me virando e esticando um dos braços em seguida para a mesinha de centro, onde aglomeravam-se o meu celular, um maço e as chaves de casa.
 
Peguei o telefone: nenhuma mensagem. Ufa. Para minha sorte, a caixa de saída estava vazia. E o maço também, merda. Meu estômago se revirava, oco, como se fosse dar a volta em si mesmo, de fora para dentro. Quis vomitar, de novo. Não... não, caralho. Num ato de protesto comigo mesma, levantei o corpo e arranquei a jaqueta, largando-a longe, já sentada na beirada do sofá. Me forcei então a ficar bem. Era só uma droga de uma ressaca, eu sabia e resistia ao mal-estar, teimosa. Já passei por pior.
 
Um cheiro enjoado vinha da cozinha. As luzes estavam todas acesas, do corredor para lá, e um barulho de panelas me irritava os sentidos – que horas são? Me sentia confusa quanto à linha temporal daquele fim de semana. Aquilo devia ter me acordado, o cheiro ou o som, mas que inferno. Levantei-me, meio rabugenta, a cabeça pesada e o corpo esvaziado. Caminhei pela sala na máxima velocidade que aquela ressaca desgraçada dor de cabeça me permitia. Ou seja, tropeçando nos meus próprios pés. Patética.
 
Encostei com as duas mãos no batente da cozinha. O Fer estava cozinhando no fogão, de costas para mim, com uma calça de moletom cinza e uma camiseta velha de dormir. Olhei-o por dois segundos, indiferente à nossa discussão na noite anterior. Não era apatia minha, sei lá, era algo diferente. Entrei e sentei numa das cadeiras em frente à mesa. O som do metal contra o piso frio denunciou a minha presença e fez com que ele me notasse, olhando brevemente por cima do ombro. Sem querer me dar atenção, continuou cozinhando e eu desabei de cansaço, apoiada nas minhas palmas, com os cotovelos sobre a mesa e o rosto metido no meu próprio cabelo. Fisicamente exausta, que merda.

novembro 09, 2010

Os bem-educados

_Tá se divertindo?!
_Oi?!
_Perguntei se cê tá se divertindo, porra!! – perguntou, me olhando direto nos olhos.
_Que foi, Fernando?! – retruquei, ofendida com o tom de voz dele – Sei lá, meu... tô, t-tá normal.
_É, tô vendo que tá mesmo... – resmungou.
_Que foi, mano??
_Como o que foi? – bateu no balcão, se virando de frente pra mim – COMO O QUE FOI, PORRA?!?
_TÁ LOUCO, FERNANDO?!
_EU?! CÊ TÁ LÁ DANÇANDO COM A MIA, CARALHO, C-COMO SE...
_COMO SE O QUÊ?! – o confrontei, brigando de volta – HEIN?!
_VOCÊ SABE POR QUE EU TÔ PUTO, SABE MUITO BEM! NÃO VEM SE FAZER DE DESENTENDIDA, NÃO!
_QUAL É, FERNANDO?! PORRA, A GENTE TÁ SÓ DANÇANDO!!
_SÓ “DANÇANDO”?? – ele gritou ainda mais alto – SÓ FALTOU VOCÊ ENTRAR DENTRO DA ROUPA DELA, CARALHO!!
_Ah, mano... – eu ri, debochando – ...para, na boa. Puta nóia!
_CÊ NÃO FICA RINDO AÍ, NÃO! – ele me apontou, nervoso, e as pessoas em volta começaram a olhar – Cê sabe MUITO BEM o que tava fazendo de errado!
_Você fumou, caralho?! Tá louco?! “O que eu tava fazendo de errado”?! Eu não fiz nada!! A GENTE SÓ TAVA DANÇANDO, FERNANDO, PELO AMOR DE DEUS!
_SÓ DANÇANDO?! VOCÊ CHAMA AQUILO DE DANÇAR?? CÊ TAVA QUASE COMENDO ELA NO MEIO DA PISTA! É MINHA MINA, PORRA!! – se irritou, berrando tão embriagado quanto eu – VOCÊ NÃO TEM RESPEITO, VELHO?!?!
_MAS EU NÃO TAVA FAZENDO PORRA NENHUMA!
 
Senti vontade de ir embora na mesma hora, mas o encarei. E baixei a voz – numa tentativa de acalmar os ânimos.
 
_Fer, me escuta. Eu não fiz nada – ele balançou a cabeça, puto, sem acreditar numa só palavra – Olha para mim! A gente estava só dançando, eu juro. Cê acha que eu ia pegar a sua mina? A sua mina, porra?! Na sua frente, mano?! Eu nunca ia fazer isso, Fer. NUNCA!
_N-não sei... – ele se virou e apoiou de novo no balcão, respirando fundo – ...por que cê foi lá dançar com ela, então, caralho?!
_Por que eu não iria dançar com ela?! – retruquei, indignada – É ANIVERSÁRIO DELA! Fer, qual é, todo mundo tá dançando com a Mia. Todo mundo! Aliás, aquelas amigas dela... né, vamos concordar? Mano, até selinho elas tavam dando e cê vem encanar JUSTO COMIGO, PORRA?!?
_Cê acha, meu... AQUILO NÃO É NADA! – se virou de novo para mim – Elas tão de graça, mano...
_AH, E ELAS PODEM?? Elas podem fazer graça com a sua mina e cê não tá nem aí?? É isso?! – argumentei, com a pachorra de ainda me achar a certa na história – ISSO É UMA PUTA HIPOCRISIA E VOCÊ SABE!! Porra, Fernando, SÉRIO MESMO?! Cê vem esquentar para cima de mim, que não fiz merda nenhuma, QUE EU SOU SUA AMIGA, MANO!! – me exaltei – As meninas tavam fazendo mil vezes pior! Eu só dancei duas, três músicas com a Mia...
_Duas ou três músicas COM A MÃO METIDA NAS COXAS DELA, CARALHO!! – tornou a levantar a voz, bravo – Posso GARANTIR que as amigas da Mia não tavam dançando com ela DO JEITO QUE CÊ TAVA!
_CLARO QUE TAVAM!! CÊ É CEGO, PORRA?? – gritei e ele me encarou, puto da vida – CLARO QUE TAVAM!!
_FODA-SE! FODA-SE!! NENHUMA DELAS TÁ INTERESSADA NO QUE a mia TEM NO MEIO DAS PERNAS!
_EU TAMBÉM NÃO, PORRA!!! TÁ LOUCO?? – cheguei perto da cara dele, revoltada, olhando-o nos olhos – Você está levando isso pro lado pessoal, Fernando... Sério, porra!! NINGUÉM FEZ NADA! QUAL É O SEU PROBLEMA COMIGO?!?
_MEU PROBLEMA COM VOCÊ É QUE CÊ NÃO TEM LIMITE!
_NÃO TENHO LIMITE, CARALHO?? SEMPRE TIVE O MAIOR RESPEITO PELA SUA MULHER, MEU! CÊ TÁ ACHANDO QUE EU SOU QUEM?? PUTA PARANÓIA, MANO! PUTA MERDA, QUE É ISSO AGORA?! EU E A MIA SOMOS AMIGAS!
_NÃO! NÃO!! – ele me cortou – EU E VOCÊ SOMOS AMIGOS, EU E VOCÊ. ENTENDEU, PORRA?! – me ameaçou – ENTÃO CÊ TOMA MUITO CUIDADO COM O QUE VAI FAZER DAQUI PRA FRENTE!
_Eu não preciso ficar aqui ouvindo essa merda... – peguei minha comanda no balcão e o encarei – ...na boa, vai tomar no meio do seu cu, Fernando!
 
Me virei e saí andando, deixando-o falar sozinho.

É

Me fodi legal agora.

Portanto, bandeira branca

Não é como se eu quisesse, de fato, ficar em cima da Mia. Em meio à pista mais subversiva da Sarajevo, entre tanta gente se movendo junta e se agarrando. Não – eu não queria. Mas assim que ela parou no meio da multidão e se virou na minha direção, apoiando as mãos atrás do meu pescoço, os meus pés se rebelaram e as minhas mãos desaprenderam a me obedecer. Já os meus olhos, bom, esses eu nunca consegui tirar dela mesmo. E antes que eu pudesse perceber, as minhas pernas já estavam entre as suas e o meu corpo perto demais. Para nos foder de vez, o DJ ainda mandou uma pesada do Tricky. É“Hell is round the corner”. É exigir muito do meu autocontrole, porra, ter aquela mulher nas minhas mãos e a segurar de qualquer forma que não fosse aquela. Com todo o respeito.
 
Isto é, mais ou menos.
 
Mas não beijei, ok? Em momento algum. Nem de relance, nem um pouco, nem por um instante encostei na boca da Mia. Naquela boca. Aquela. Sabe, aquela... boca. Com aqueles lábios que me destruíam a sanidade. “We're hungry, beware of our appetite" – a música ecoava numas batidas graves e eu suava frio, puta que pariu, enquanto a olhava descer, rebolando, deslizando aquela raba desgraçada pelo meu corpo e se virando para mim, com a boca logo ali, na minha cara, a três centímetros da minha, porra. Porra. Um só movimento, um milésimo de segundo, e eu poderia beijá-la.
 
Mas não – eu não fazia nada. Nada. Cacete. Só a olhava, ali, me olhando de volta, virando de costas e deixando o rosto de lado, com as mãos para trás e o corpo encostado em mim, segurando nos meus braços e escorregando as mãos para a minha cintura, pelas minhas pernas, conforme abaixava na minha frente, deslizando o seu jeans no meu. De novo e de novo. Perdendo qualquer noção de autopreservação. Caralho, garota, cê vai me enlouquecer assim. Dava vontade de matar – só por existir do meu lado assim, tão perfeita. Era isso ou fugir o quanto antes dali. Todavia, eu sempre ficava. Com o coração na garganta, aquele verão de 40º nas calças e os olhos irremediavelmente nela.
 
Tem gente que rouba o seu ar e nem percebe.
 
Agora a Mia começava a perceber o que fazia comigo e a desgraçada gostava – podia ver ela se divertindo em como me deixava completamente babaca. E eu continuava ali, dividida entre amá-la ou odiá-la por isso – porque bom é, né? Mas aquela impotência acabava comigo. Puta merda. Chega a doer, viu, com pontadas agudas no peito, ter a garota que você quer nas suas mãos e, por motivo de amigo força maior, não poder fazer nada. Argh. O absurdo é tanto que, uma hora, de repente, você simplesmente precisa sair de perto. Ir tomar um ar, esfriar a cabeça, fumar um cigarro, qualquer porra que seja. Sei lá. Qualquer merda que tire ela da sua cabeça. Das suas mãos.
 
E foi o que eu fiz – “já volto”, disse no seu ouvido e a larguei sozinha na pista. Apenas o ato de sair daquele aglomerado de calor humano já me fez respirar melhor, ainda que eu soubesse que a culpa ali era de uma só pessoa. Encostei no balcão do bar que ficava perto da entrada, sentindo uma leve corrente de ar vinda da porta, e pedi uma cerveja gelada para o cara de dreadlocks que me encarava à espera do que marcar na minha comanda. O primeiro gole foi como sentir o paraíso descer frio – e gostoso – por todas as paredes de fogo do meu corpo. Acalmando vagarosamente aquele inferno ali dentro.
 
Ah, eu precisava disso.
 
Suspirei, aliviada, olhando para a garrafa e a abaixando de volta no balcão. Mal a encostei e já subi mais uma vez, tomando outro gole, sedenta. Abaixei a cerveja e os olhos novamente, quando senti que alguém me observava. De canto de olho, vi um braço tatuado emparelhado com o meu, apoiado no balcão. Então subi o olhar. E dei de cara com o Fer, me encarando, puto. A dez centímetros de mim.

novembro 04, 2010

Rendida

_Onde cê tava, mano? – a Lê perguntou, embriagada, com os braços ao redor da possível fefelechiana de antes – Cê sumiu!
_Ahh, meu, por aí...
 
Eu sorri e apoiei os cotovelos no balcão do bar, de costas.
 
_Sei... – ela sorriu, me olhando desconfiada, e deu um gole numa cerveja já pela metade – A gente tava indo pra pista, vamos?!
_Não, meu... – balancei a cabeça – ...deixa, vou dar um tempo aqui.
_O que cê aprontou, hein?
_Nada.
_Nada?! – a Lê achou graça, sem acreditar.
_Eu... – me aproximei do seu ouvido, de lado, para cochichar – ...peguei a Mia na pista de cima, meu.
 
A Lê afastou o rosto, arregalando os olhos, e então começou a rir. A garota ao seu lado ficou boiando, sem entender do que diabos estávamos falando. Já a minha amiga continuava me encarando, desacreditada, como se não pudesse aceitar. Reafirmei a veracidade dos fatos com a cabeça, com toda minha credibilidade bêbada.
 
_Cê é doida! Sério, cê tem problema... – riu – ...puta merda.
_Quê? Ninguém viu, meu.
_Não, vem, vou te pagar uma bebida... – ela se divertia – Você merece.
_Não, não... Para! Já tô alta pra caralho, mano. Se eu beber mais, vou passar mal aqui...
_Larga de cu doce, vai, meu, diz aí o que cê quer.
 
. Pedi um rum com gelo, sabendo que não deveria. Fazer o quê, né? E a Lê terminou sua long neck, enquanto eu virava a minha dose de arrependimento-programado. Só depois me apresentou propriamente a garota. E claro – ela fazia Letras na USP. Eu sabia. Conversamos por um tempo, as três, sobre qualquer coisa que a embriaguez logo me fez esquecer. E quando, enfim, saímos para a pista, uns bons vinte minutos mais tarde, minha percepção da realidade já estava consideravelmente prejudicada. Fui olhando o mar de gente à minha volta, caminhando, trombando para todos os meus lados, sem conseguir, de fato, raciocinar. Caralho, mano.
 
Sempre me orgulhei da minha capacidade de perceber o quão bêbada eu estava antes de realmente afundar o pé na jaca – só que esse momento já tinha passado há um bom tempo. E eu não fiz nada a respeito. Estava ocupada demais pegando a Mia no dark room da Sarajevo. Então, quando cheguei na pista principal, já não conseguia delinear uma pessoa sequer ao meu redor, com o corpo leve e a cabeça pesada, bastante tonta. Para piorar, a Lê, aquela amiga da onça, logo se pôs a dançar exclusivamente com a tal da fefelechiana.
 
E eu, óbvio, sobrei.
 
Sem outra opção, apanhei a garrafa ainda fechada que ela segurava nas mãos e procurei me distrair com a cerveja dentro. Que se dane, já tô na merda mesmo. Poucos minutos depois, quando o DJ embalou um Seu Jorge remixado e eu fiz uma careta de desgosto, a Mia apareceu dentre as pessoas ao meu lado. Lá vem merda, pensei assim que a vi, toda irresistível, com medo da minha falta de controle naquele estado.
 
_Cê não vai dançar comigo?
 
Ela perguntou, já me pegando pela cintura.
 
Possivelmente mais bêbada do que eu. Apenas acenei que “não” com a cabeça, sorrindo para ela. E ela insistiu, como uma criança mimada, me segurando pela mão quando tentei me afastar. Caralho, viu. Estava maravilhosa ali. Olhei em volta, à procura do Fer, e passei a outra mão na nuca, preocupada. Isso não vai dar certo.
 
_Cadê o seu namorado? – questionei, no seu ouvido.
_Tá com os amigos dele... Já fui lá, tava com ele até agora, meu – respondeu e sorriu para mim, me puxando – Veeem...
 
Mais uma vez, fiz que “não” com a cabeça, relutante – mas os meus pés cederam na sua direção. A Mia me olhou, já quase me convencendo, e sorriu. Você é bonita demais, garota, puta que pariu, eu a observava fazendo graça para mim, com consciência de que aquela guerra estava perdida antes mesmo de começar. Diabo de mulher. E foi quando ela se virou, ainda com as mãos nas minhas, e começou a se enfiar no meio daquela bagunça da Sarajevo, me puxando por entre as pessoas. Hesitei, por alguns segundos, em pensamento, mas as minhas pernas já a estavam seguindo. Não estava realmente em condições de lhe negar qualquer coisa. Então que se dane.

O troco

E assim, ela perdeu Distillers para mim. Por longos minutos, na pista escura da Sarajevo. Não ganhei de volta os meus Bowies e nem álbuns inteiros perdidos por ela, é verdade, mas... Um só beijo daquela garota e, de repente, que me importava a porra da trilha sonora?

novembro 02, 2010

Matemática

É simples. O escuro aumenta a estática. E quanto mais escuro, maior a estática. Um corpo busca o outro, às cegas, em constante estado de alerta – naquela expectativa entorpecente de, enfim, esbarrar. Se encontrar. A qualquer momento, a minha respiração acelerava, oscilando entre uma batida e outra da caixa de som. Perdidos no breu, os meus olhos abertos encaravam a ausência completa de formas, dela, à minha frente. Mas sentia a sua presença nas mínimas partículas de ar que separavam o seu corpo do meu. O álcool atrapalhava o cálculo. E quanto mais álcool, maior era a imprevisibilidade do encontro. Solta ali no espaço, no vazio. Mas ela vem, eu confiava, hoje ela vem. E o importante era que vinha – não quando e nem de onde. Isso já não dava para calcular. Sem referência alguma, naquela pista completamente escura. Em contrapartida, a minha pele era tomada por uma ultrassensibilidade visceral. À espera dela. E quanto mais arriscada a situação, mais longa parecia a espera.
 
C a r a l h o.
 
O meu coração batia inevitavelmente mais rápido e o sangue parecia deixar todo o meu corpo. Os meus dedos frios seguravam o seu rosto e desenhavam-no na minha imaginação. Pouco a pouco, cedendo espaço. Ali, no escuro, sentia-a vindo cada vez mais na minha direção. Até que as suas mãos encontraram os meus ombros. Deslizaram, escorregando pela minha camiseta e – enquanto o meu coração disparava – subiram pelo meu pescoço, numa intimidade conquistada nos últimos dias, cruzando-se brevemente atrás da minha nuca e depois continuando, pele acima. Subiram, se emaranhando no meu cabelo e contornando a parte de baixo das minhas orelhas, passeando pela lateral do meu rosto até encontrarem os meus lábios. Aí correram pela minha boca, num toque leve, antes de voltar para a lateral do meu rosto, me fazendo arrepiar.
 
Ali, à mercê dela.
 
Podia senti-la movendo-se no breu, mas não via. Nada. Absolutamente nada. Ainda assim, de alguma forma, eu sabia, ah, sabia. E foi aí que, de repente, antes de qualquer parte do seu corpo, a sua boca tocou o canto da minha. Senti então a sua blusa amassar-se contra a minha, algodão com algodão, e os seus lábios deslizaram, se acertando nos meus. Havia mãos demais entre os nossos rostos – duas minhas, duas dela – e pouco espaço entre nós. Quis dar-lhe passagem, então desci as minhas. Contornando a sua silhueta no escuro até alcançar a sua cintura. E num só gesto, a trouxe para mais perto ainda. A sua boca abriu a minha e as suas curvas se moveram sob os meus dedos. Porra. Sentia a minha sanidade se perdendo, afundando no seu gosto, misturado com o álcool e com aquela vontade de tê-la comigo.
 
Aquilo foi me dando um calor desgraçado, meu deus. Sentia minha falta de controle latejar em cada célula do meu corpo. As suas mãos me apertavam cada vez mais e as minhas a ela. Respirando juntas. O meu peito contra o dela, abraçadas, nos movendo em sincronia no vazio. Coloquei-a contra a parede e abri caminho entre as suas pernas, meus Nikes esbarraram nos coturnos dela, as nossas coxas se enroscaram. E minhas mãos desceram até os bolsos de trás da sua calça, segurando-a contra mim, enquanto a beijava com força. Com a intensidade de quem não tem tempo a perder.   
 
Anônimas, as pessoas passavam por detrás de nós duas, trombando vez ou outra na gente, na escuridão daquela pista de cima da Sarajevo. Os braços da Mia subiam agarrados pelas minhas costas e eu a apertava mais ainda, a cada mínimo empurrão de corpos alheios – como se não quiséssemos nos perder uma da outra. Uma massa indistinguível de pessoas dançava ao nosso redor. E a boca da Mia percorria a lateral do meu rosto, descendo pela minha pele até o meu pescoço. Senti vontade de lamber o seu corpo inteiro, as suas pernas, de colocá-la de vez contra a parede. Meu coração estava saltando pela minha boca, entalado na minha garganta. Subi as mãos pelas suas costas descobertas e encostei o meu rosto no seu, apoiando a boca em seu ouvido:
 
_“Baby, you make my heart beat faster” – sussurrei a letra da música que roubei – “I know”.
 
As mãos da Mia me puxaram mais ainda para si. E os nossos beijos se tornaram mais intensos, sua boca voltou para a minha e minhas pernas, metidas entre as dela, já quase sustentavam o seu corpo contra a parede. Minhas mãos a seguravam firme, levantando-a no meu colo. Que vontade de te levar para a cama, garota.

outubro 25, 2010

"She wants revenge!"

_Me vê um cigarro... – pedi.
 
O meu tinha acabado. A menos de um metro uma da outra, nos apoiamos em paredes opostas daquele corredor estreito no fundo da escadinha. Frente a frente. A Mia pegou um no maço, já com outro aceso em sua mão. E sorriu, me encarando.
 
_Me diz... – brincou com o filtro entre os dedos, sem me entregar o cigarro – ...quem é “Marina”?
 
Arqueei as sobrancelhas, achando graça.
 
_Eu disse, minha ex-namorada.
_“Ex”? – perguntou, como se não acreditasse.
_É. Ex.
_Que tipo de ex? – continuou.
_Do tipo que não é mais minha – olhei para o cigarro, inquieta.
_Hum. Não sei como funciona... – a Mia retrucou, com um leve sorriso no canto da boca – ...com vocês, lésbicas, né... – o filtro girava entre seus dois dedos e ela prosseguia, sem qualquer intenção de me entregá-lo tão cedo – ...mas pro resto do mundo, sabe, não se dorme em casa de ex.
 
Ahh, Fernando, seu filho de uma égua.
 
_Olha, eu só falo tanto da Marina pro seu namorado... – tirei o cigarro das suas mãos, pondo fim ao seu joguinho – ...para não falar de você, Mia.
 
Os seus olhos encontraram os meus. Era isso que você queria ouvir, não é, encarei-a de volta. E a Mia não conseguiu esconder um breve sorriso, desta vez sincero. Acendi o meu cigarro e ela me observou dar a primeira tragada, depois soltar a fumaça para o lado. Não queria dar muita corda, preocupada com a quantidade de álcool que já circulava dentro de mim, mas logo não aguentei.
 
_Tava vendo você dançar lá em cima...
 
Traguei mais uma vez, conforme meus olhos percorriam a sua silhueta, parada a poucos centímetros de mim. E senti toda a minha imprestabilidade subir até a garganta, sentindo o seu gosto na minha boca. Puta que pariu, mulher.
 
_E? – ela perguntou, com o cigarro aceso nas mãos.
_E nada. Só achei bonito.
_“Bonito”? – ela riu.
_Você e as suas amigas... – continuei, encarando-a com vontade contida no olhar, nitidamente querendo me referir a qualquer outra coisa que não aquilo.
_A gente, o quê?
_Dançando juntas.
_Hum. Prefiro dançar com você...
_Você tá bêbada... – desdenhei.
_Não – ela se aproximou do meu lado da parede, perdendo um pouco a noção do perigo – Eu tô tentando te dizer, pela terceira vez hoje, o quanto gostei que você veio.
_É? E de que adianta?! – ergui o queixo, a encarando – Não é comigo que cê vai ficar hoje, garota.
 
Traguei mais uma vez, agora amarga. Sentia o álcool começar a afetar o nosso diálogo. A Mia encostou na parede oposta, de novo, ainda me olhando.
 
_E mesmo assim... – deixou escapar um sorriso – Você veio.
_É. Vim.
 
Eu vou para qualquer lugar que você me chamar, garota.
 
Respirei fundo. Então dei um passo para frente, chegando realmente perto – o suficiente para causar um problema sério caso alguém conhecido resolvesse passar pelo alto da escada e dar uma olhada ali para baixo. A Mia permaneceu encostada na parede. Mas os seus lábios se entreabriram, se insinuando dum jeito desgraçado. Como incitasse uma atitude minha. Seus olhos ainda fixos sobre mim. A iminência do beijo era implícita – e eu me aproximei. Mais perto ainda. Quis sentir o gosto da sua boca, desesperadamente.
 
Mas me contive – sabia do risco.
 
Dei um passo de volta. E só a encarei por mais alguns segundos, em silêncio. O frio, vindo da porta ao nosso lado, começava a se fazer sentir. Que porra eu vim fazer aqui, traguei mais uma vez. E soltei a fumaça lentamente, inquieta com a minha dificuldade de ficar perto dela. Nisso, a voz da Brody Dalle invadiu o som da balada:
 
“This is not a love song”.
 
Os olhos da Mia brilharam automaticamente, numa felicidade de bêbado, conforme os alto-falantes nos ensurdeciam com o começo de “Beat your heart out” dos Distillers. Jogamos os cigarros no chão quase ao mesmo tempo, pisando na brasa o mais rápido possível e subimos apressadas pelos degraus. Ao chegar em cima, todavia, a segurei pela mão e a puxei para o lado oposto da pista, na direção da outra escada. Ouvi-a reclamar qualquer coisa, e ignorei, arrastando-a à força junto comigo até a pista escura do segundo andar, onde uma massa não-identificável de pessoas dançava ao som de um hip hop qualquer. Em meio ao escuro absoluto, encostei-a na primeira parede que minhas mãos encontraram, perdidas entre as batidas graves que saíam dos amplificadores.
 
_O QUE DIABOS CÊ TÁ FAZENDO?! – ela gritou comigo, revoltada.
 
Busquei-a com as mãos no escuro e segurei o seu rosto perto do meu, aproximando a boca do seu ouvido.
 
_Estou roubando sua música favorita.

Heterofobia alcoólica

Entre um gole e outro de whisky, eu observava – os selinhos e as pernas, as coxas entrelaçadas, os cochichos no ouvido e os sorrisos despreocupados; os antebraços de uma apoiados nos ombros de outra, os quadris e os movimentos imersos na música, as mãos em qualquer lugar, em todo lugar, na cintura de quem quer que estivesse à frente, ao lado, atrás. O suor e o calor fazendo com que prendessem o cabelo, improvisando coques mal presos; e as flores da Mia se revelavam pelas suas costas, descobertas numa frente única preta, puta merda, mais linda do que jamais a vi. Enquanto ela dançava e sorria.
 
E eu lá, a poucos metros, babando.
 
_Não é justo – reclamei para a Lê, ao meu lado.
_O que não é? – ela perguntou, virando mais um gole da sua segunda cerveja.
_Olha aquilo, meu... Não, sério, olha aquilo!
_Que tem? – a Lê riu, acompanhando meus olhos até o meio da pista, onde a Mia e as suas amigas dançavam, alheias à nossa atenção.
_Como o “que tem”? Tem que não é justo, porra! Por que eu não posso ir lá dançar também?
_Mas você po...
 
A Lê pôs-se a responder o óbvio, mas eu a cortei logo em seguida e continuei com a minha análise antropológica, completamente embriagada.
 
_Eu tenho certeza, certeza, que se fosse eu lá com elas, o Fer ia me olhar torto dali... – fiz um sinal com os olhos, indicando o meu melhor amigo, que conversava numa rodinha a poucos metros das garotas – Quer dizer... Eu não, né? Eu não posso. Porque se você é sapatão, bi ou o caralho, cê vira uma porra de uma ameaça ambulante. Sabe, isso é discriminação!
_Do que cê tá falando?!
_Dessas minas aí... “héteros”... – fingi aspas com os dedos, irônica, e a Lê riu de novo, antes de dar mais um gole na cerveja – ...que ficam aí, sabe, se pegando na frente de todo mundo e ninguém fala merda nenhuma. É mão para cá, mão para lá, gracinha gratuita, selinho numa, selinho na outra... Vai se foder!
_Acho que cê já bebeu demais, cara...
_Não. Eu acho assim... – fiz uma breve pausa, construindo um pensamento amargurado já com o meu terceiro whisky em mãos – Ou você é sapatão ou não é. Entendeu? Não tem essa de ficar se esfregando na balada, agarrando a coleguinha, se insinuando para Deus e o mundo, e depois ir lá pros machos delas.
_Deixa as minas, meu. Foda-se!
_Não. Não! – discordei, séria, e dei outro gole – Se vai ser “das amigas” na balada, tem que ser “das amigas” na cama. Isso é ridículo!
_Que é? Cê tá interessada, quer dormir com alguma delas?
_Quê?! Não! – me indignei – Eu só não acho que é coerente...
_Tá bom, Nietzsche.
_Vai me dizer que cê não fica puta?!
_O mundo é injusto mesmo, amiga... – a Lê concordou, com os olhos nas meninas e a boca novamente na garrafa.
_Muito. E enquanto isso, a gente, as minas que curtem mesmo a parada, nós somos obrigadas a ficar aqui, encostadas na parede, dando uma de cabeça fria e fingindo que não estamos nem aí. Olhando pro outro lado, sabe, enquanto meia ala feminina “se pega” de mentirinha!
_Bom, a gente não tá exatamente olhando pro outro lado, né...
_Que seja – virei o restante do meu copo, já perigosamente imune à bebida.
_Hum, e por falar em hétero... Olha aquela ali...
_Quem?
_Aquela ali, de branco.
_Não tô vendo – disse bêbada, meio confusa – Quem, aquela?
_Não. Mais para lá, a ruiva. Do lado do cara de jaqueta.
_Ahn... sei.
_Que cê acha? Sapatão?
_Ah, sei lá, cara... tenta, ué.
 
E simples assim, perdi minha companhia.
 
Para uma paulistana metida à hippie, vestida com uma blusinha básica e calça de algodão, aqueles ares sáficos de quem cursa Ciências Sociais em universidade pública. Não deu nem cinco minutos e a minha amiga – tentando bater o recorde de bocas por noite – já se encontrava atracada com ela num canto qualquer.
 
O calor da Sarajevo tinha fervido todo o álcool em excesso no meu sangue. Eu estava bêbada demais, começando a tropeçar nas minhas próprias palavras e provavelmente sendo uma companhia bem menos agradável do que a tal garota pela qual fui trocada. Argh, povinho alternativo de merda, resmunguei mentalmente, encostando-me na parede com certa amargura. A verdade é que eu mesma integrava o rolê alternativo-de-merda – mas andava azeda e de saco cheio de todo mundo. Olhei novamente para a pista, voltando à realidade, e me deparei com a Mia vindo na minha direção.
 
Opa.
 
Ajeitei o cabelo e ela sorriu para mim, a poucos metros de onde eu estava, fazendo um sinal com a cabeça para que eu a seguisse. Apoiei o copo vazio no chão e a alcancei a caminho da saída de fumantes, que ficava ao pé de uma escadinha estreita. Ela foi na frente e eu dei uma olhada, sem querer, para a sua bunda naquele jeans justo. Eu preciso parar de beber, porra, imediatamente sofri com a minha impotência naquele lugar. A rua ficava um nível abaixo da pista de dança, após uma “cortina” grossa feita de tiras largas dum plástico transparente, como esses de frigorífico, deixando o frio entrar pelos primeiros dois ou três metros do corredor. Paramos a alguns passos da saída, ainda do lado de dentro.
 
Enfim, a sós.

outubro 21, 2010

Quadras pra cima

Meus dedos dedilharam, leves e entorpecidos, passeando pelo contorno dos pôsteres e grafittis que compunham as paredes daquele submundo cool que era a Sarajevo. Entrar ali era como se desligar do resto do planeta – não que eu realmente precisasse de uma forcinha a mais além da minha conta majoritariamente alcoólica de R$ 38 do Vitrine, claro. O contraste repentino do frio na rua com o calor abafado de corpos amontoados sobre cervejas e vibes alternativas e papos intelectuais, misturados em samba e punk rock, me enfiou ainda mais numa ultra percepção de tudo ao meu redor. Vontade de fumar um, pensei logo que entrei. E a Lê quis parar no bar da entrada, me puxando pela mão.
 
_Vamos no de baixo... – disse no seu ouvido, segurando sua cabeça perto da minha boca e competindo com o som ambiente – Vou pegar um whisky.
 
Era sexta-feira e, assim como qualquer outro beco apertado da Augusta, o lugar estava lotado. Muito além da sua capacidade. Nos esprememos pelo meio dos que dançavam qualquer batucada underground na pista em frente ao palco e alcançamos o corredor, onde trombei com um conhecido meu e possivelmente do Fer também. Veio pro aniversário?, olhei bem para ele. Sei lá. Preciso de whisky, concluí e caí fora poucos segundos depois. E gelo – eu precisava era de gelo. Aquela balada era a própria definição de aquecimento global e eu estava derretendo, tão logo pisei lá dentro.
 
Apoiei o corpo sobre meus antebraços, debruçando-me no balcão do bar escada abaixo. Estava tocando alguma coisa do Planet Hemp nas caixas de som. Dezenas de pessoas circulavam atrás de mim e ao meu lado, indo e vindo até o bar, num vai-e-vem caótico, parando para conversar em pequenas rodinhas que se misturavam entre si. A Lê – mais prudente – pediu uma long neck e eu, já com meu whisky em mãos, ria da cara dela sendo cantada pelo barman. Se recusando a lhe entregar a garrafa, fazendo graça, ele disse qualquer coisa no seu ouvido e os olhos dela arregalaram-se indignados na minha direção. Como o cara olha pra uma caminhão dessas e acha que tem chance, meu? Comecei a rir de novo e balancei a cabeça, tomando mais um gole e me apoiando novamente no balcão.
 
_Você veio! – escutei por trás, de repente, e senti dois braços me abraçando por cima dos meus ombros.
 
Virei então, me recuperando do breve susto, e vi a Mia. Nitidamente feliz com a minha presença no meio daquele monte de gente. Olhei bem para ela e, puta que pariu – o meu pulmão procurou desesperadamente por um pouco de ar, imediatamente sem fôlego. Tentei sorrir, para disfarçar a minha cara de apaixonada, desajeitadamente.
 
Assim que ficamos frente a frente uma para a outra, no pouco espaço que a superlotação nos permitia, ela me abraçou mais uma vez e eu comecei a rir do excesso de cumprimentos, mas mantive minhas mãos bem longe do seu corpo – olhando para o Fer, que estava parado logo atrás, achando graça na embriaguez boba-alegre da sua namorada.
 
_Vem, eu quero te apresentar pro pessoal que tá aí... – a Mia me puxou pela mão, animada.
_Não, n-não, espera... – eu ri, segurando-a momentaneamente para trás – Deixa eu te apresentar primeiro. Essa é a Lê e, Lê, essa é a aniversariante. Evidentemente.
 
A Mia sorriu para ela, sendo simpática – sem dar-se conta da analisada de cima a baixo que tomou da minha amiga que sabia demais sobre nós. Ao fim das cerimônias, me puxou de novo pela mão e eu mal tive tempo de alcançar o meu copo no balcão. Furamos o amontoado de gente – com minha mão na dela e um olho no whisky balançando dentro do copo – pedindo para ser derrubado ali no tromba-tromba. O Fer ficou para trás, puxando qualquer assunto com a Letícia em frente ao bar.
 
_Meu, eu tô tão feliz que cê veio! – a Mia segurou minha mão com ambas as suas, com carinho, em meio à multidão.
_Cê já tá bêbada, não tá?!
_Nossa. Sim! – ela arqueou uma das sobrancelhas, fazendo graça, e eu ri – Mas tô feliz, de verdade. Não é só porque voc...
 
Nisso, ela me soltou subitamente. E o Fer chegou, atrás de mim, trazendo dois copos diferentes na mão. Um baixinho de whisky, como o meu, e um outro mais alto que parecia ser de algum drink escuro com destilado. Cuba Libre talvez, tentei adivinhar, mas poderia muito bem ser um Long Island Ice Tea.
 
_Amor, olha... – ele entregou o copo maior para a Mia, como se ela o tivesse pedido momentos antes.
_A Lê ficou no bar? – perguntei, curiosa.
_Ela foi no banheiro, eu acho. E você, hein? Só nos flashbacks aí... – o Fer zombou – É Marina numa semana, Letícia na outra.
_Nada a ver, mano... – contestei, já meio bêbada também – Eu nunca peguei a Lê!
_Quem é Marina? – a Mia nos interrompeu.
_Minha ex...
_"Ex"... – o Fer continuou rindo – ...nas últimas semanas é um tal de ligar pra Marina, ir ver a Marina, dormir na Marina. Tá boa a coisa, viu...
 
Isso, babaca, dei um soco no seu braço para que fechasse a matraca. Me empata nos primeiros cinco minutos.