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dezembro 13, 2009

Muffins e cavalos

O Fernando saiu para fazer a segunda via de um dos seus documentos, enquanto eu morria deitada de calcinha e camiseta na sala, torturada pelos meus pensamentos. Algum tempo depois  não sei quanto  a Mia saiu do quarto e apareceu atrás do sofá com o mesmo vestido da noite anterior, mas de cabelos soltos e bagunçados. Era sábado, quase onze horas, o dia estava tranqüilo.

_O que você está assistindo?  ela riu, levemente indignada. Olhei para a televisão e vi um monte de cavalos correndo com homenzinhos grotescos montados em cima deles.
_Nossa – estranhei – não sei. Quer dizer, à TV Jockey, aparentemente. O que não sei é por que está aí...
_Você não estava assistindo?  ela riu, de novo.
_Não, estava pensando.
_Ah, é? Sobre o que?

Ela pulou o sofá e sentou ao lado dos meus pés, aguardando a resposta. Lá estava aquele olhar de novo. Sobre você, pensei. Ela me olhava intrigada. Ela era linda – ela é linda –, do tipo que pára o trânsito com seus longos cabelos castanhos e sua boca maravilhosa. Linda e inaceitavelmente hétero. Tamanho absurdo simplesmente não entrava na minha cabeça. O silêncio na sala começou a crescer até ficar desconfortável.

_Nada – respondi –, estava pensando em... ah, nada de importante.

Mentira.

Ela sorriu e eu levantei um pouco o corpo, me apoiando nos cotovelos. Ela tinha flores de cerejeira tatuadas ao longo do corpo, acompanhando suas curvas. Eram delicadas e bonitas. Observei os traços, distraída, e ela pareceu se constranger. Eu sorri e perguntei se não queria alguma coisa da cozinha, disse que ia pegar algo para comer.

_Não, mas te acompanho – ela respondeu –, acho que o Fê vai demorar.
_Acho que sim, o Poupa Tempo é na puta que pariu e não poupa tempo nenhum, tá sempre lotada aquela merda.

Ela concordou revirando os olhos, como se já tivesse passado por isso, e nos dirigimos até a geladeira. Esquentei um resto de lasanha no microondas e conversamos enquanto eu comia. Contei a ela minha teoria sobre como todos os grandes chefs de cozinha secretamente se acabam em enlatados, nachos e outras porcarias quando estão sozinhos em casa.

_Ninguém se enche de comida pretensiosa diariamente. Refeições industrializadas foram cientificamente projetadas para serem mais gostosas, nada consegue superar uma porra dum miojo.

A Mia riu durante toda a conversa e logo iniciamos um papo saudosista e empolgado sobre as tranqueiras que comíamos quando éramos crianças. Fiquei olhando, encantada, enquanto ouvia ela falar de bolachas e muffins e balas coloridas.

4 comentários:

Thi disse...

toh adorando ... muito atenta a tudo ela neeem precisa de muito pra ver que a miaa tah com mil e um modos diferentes.....

toh ficando apaixonado a leitura e de otimo gosto ... parabens a escritora :D

Lu disse...

Se vc tá aqui... continua... fiz um flashback saudoso só pra lembrar do começo! É muito bom, vai por mim! :)

Ianca' disse...

Tô relendo pela 3ª vez, dá uma saudade e eu vejo alguns pontos que nem tinha dado devida importância, muito lindo!
Estou a quase um ano acompanhando o Blog, vale realmente a pena!
Parabéns mais uma vez Mel

Flora disse...

engraçado voltar pro começo...