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dezembro 30, 2011

"Here I go...

“...and I don’t know why”.
(Patti Smith)
 
Saí do banho com certa folga para as dez e meia – o filme só começava lá pelas onze e tantas da noite. Caminhei de um lado ao outro do quarto, indecisa quanto ao que usar. Só de cueca e com o cabelo ainda molhado. Sem decidir nada, voltei seminua para o banheiro para secá-lo. Ao passar pelo corredor, olhei para a porta fechada do quarto do Fer – ele e a Mia já estavam trancados ali há algum tempo.
 
Liguei o secador e, no meio do barulho e daquele ar quente todo, ouvi chegar uma mensagem no meu celular. Largado na pia. Entre os fios bagunçados no meu rosto, abaixei para ler – “oi, ñ sei se seu numero eh o msm. qria ter falado mais com vc hj. foi estranho te ver, fiquei pensando nisso dps... mas enfim, ñ vou falar por aqui. Hj vou com um amigo ai perto, na hot hot. tô indo pra lá daqui a pouco. Se ñ for fazer nd, te devo uma? ;-) Bjs, clara”.
 
Fiquei parada por um instante, sem reação. Precisava de um tempo para processar. Aquilo e todos os acontecimentos daquele dia. Li mais uma vez, em silêncio. E então coloquei o telefone de volta na pia. Sem a responder. De algum jeito, as suas palavras me inquietavam. Me sentia cutucada – só não tinha certeza em que sentido. Não vou fazer isso, pensei. Não ia revirar aquilo dentro de mim, não ia me desgastar respondendo.
 
Liguei de novo o secador, tentando não me distrair do meu objetivo ali, que era só secar o cabelo e voltar para a porra do quarto. Observei os meus olhos no espelho, quase por inércia, enquanto o ar passava pelos fios na minha cabeça. Mas uma inquietude continuava lá. Em algum lugar. Baguncei o cabelo para um lado, mexendo-o sob o ar quente. Pouco tempo depois, não o suficiente para já estar seco, baguncei pro outro lado. E então ao oposto, o mesmo de antes, mais uma vez. E aí virei de novo – merda.
 
Senti a ansiedade crescer.
 
Dane-se. Joguei todo o cabelo para a frente, abaixando a cabeça e ignorando o sentimento. Comecei pela nuca, aí desci para a franja e a lateral esquerda, a diagonal da frente. A de trás. A direita. A outra diagonal. A mesma de antes. A nuca. O lado esquerdo. A franja. Não importava quanto bagunçava meu cabelo, aquela porcaria não secava. Deixei o ar correr em cima dos fios por um tempo, depois joguei-os para trás e tornei a secá-los normalmente, mas não ia. Parecia que eu estava ali há horas – provavelmente nem 5 minutos. Droga.
 
Peguei o celular e li mais uma vez a mensagem. Apoiei ambos os antebraços na borda da pia, com o telefone em mãos, olhando para a tempestade em copo d’água que eu, de repente, estava fazendo. Considerei responder, mas, o que diabos vou dizer? “Já tenho planos”? Por algum motivo besta, não conseguia dispensá-la. Não totalmente. Passei a mão na nuca, encarando o teto e respirando fundo, me livrando mentalmente daquela situação ridícula. Engoli todas as minhas idiotices e devolvi o telefone à pia, pegando novamente o secador e ligando-o na última potência.
 
Fechei os olhos e dei início à maior barulheira, contínua, bagunçando os fios de um lado para o outro com as mãos. Sem pensar. 1... 2... 3... 19... 20... Chega. Larguei o secador sobre a pia do banheiro e apoiei ambas as mãos na superfície fria, irritada. Respirei fundo. Isso não tá certo, briguei comigo mesma, não com a Patti. Me forçaria àquilo, a ir na porcaria do cinema e foda-se a merda da Clara.
 
Retornei ao quarto, determinada. Vesti a primeira regata branca que vi, dessas que ficam soltas no corpo, quase indecente de tão larga. E enfiei as pernas numa calça jeans. Peguei o meu maço e isqueiro, já pronta para sair. Sentia como se não pudesse parar um segundo ou faria, de certo, uma merda muito grande. Saí do quarto e fui para a sala atrás da minha carteira. O Fer estava na cozinha agora, de samba-canção e descalço. Caminhou até a porta do corredor, apoiando-se de lado na parede e me olhando enquanto comia um lanche improvisado. Achei a carteira. Alcancei-a, esmagada no vão do sofá, provavelmente ali desde que voltei do estúdio. Separei apenas o documento e o dinheiro, colocando-os no bolso junto ao maço e largando a carteira de volta no sofá.
 
_Humm... – o Fer disse, então, me olhando de cima a baixo – ...bom encontro com a namoradinha, hein?!
 
Revirei os olhos, sem dar ouvidos. Ela não é minha nam..., interrompi o pensamento antes que saísse pela minha boca, argh. Deixa pra lá. Me movi em direção à porta, sem intenção alguma de desacelerar, e apanhei a chave na saída. Andei pelo corredor em linha reta, chamei e o elevador chegou. Já no térreo, atravessei a entrada do prédio e desci para a rua. O shopping Center 3 era a uns dez minutos andando, já quase na Paulista. Acendi um cigarro e comecei a caminhar. No escuro e agora perigosamente sozinha, todavia, me sentia estranha – com um sentimento conhecido no estômago.
 
Merda.
 
Segui em frente, ignorando a mim mesma. Passei pela banca, por outros prédios e atravessei a primeira rua, a segunda. Aí passei a Peixoto, o bar da Aloka. Os jovens bêbados circulavam pela calçada da Frei, escandalosos – podia ouvi-los conversar aos gritos. Caminhei os últimos quarteirões olhando os meus tênis contra o cimento, tentando me distrair, e quando já estava quase lá, por um descuido encarei o escuro à minha frente. Então parei. Inferno. Me virei, a cinco metros de um ponto de táxi, tomada por uma curiosidade masoquista que não deveria me permitir. A última coisa que eu queria era provar o Fer certo em toda a sua análise psicológica barata de mim. Olhei no celular e já estava atrasada, droga. Dei dois passos e hesitei ao encostar na porta do carro, querendo voltar para o lado que estava indo – porra. O motorista me encarava confuso, do lado de dentro de um Palio com a luz acesa. E eu entrei.
 
_Sabe onde é a Hot Hot, amigo?
_Sei. Lá na Santo Antônio, não?
_É... – afundei contra o encosto do táxi, já me odiando.

dezembro 28, 2011

Irredutível

_Mas e aí, afinal, o que rolou hoje?
 
O Fer perguntou, ao meu lado no sofá. Curioso.
 
_Não, nada – desdenhei – A gente só... se cumprimentou na rua e aí, sei lá... eu disse que tinha ido tatuar lá perto e tal, mas não rolou nada.
_E cê ficou de boa?
_Ah, fiquei... não sei. Foi estranho. Num esperava encontrar ela, acho que me pegou meio de surpresa – bebi mais um pouco da cerveja – Fazia tempo que eu não pensava nela...
_Hum, sei...
_E meu, e-ela... – passei a mão no rosto, afundada entre as almofadas – ...tava... bonita.
_Ihhh... – o Fer começou rir.
 
A Mia subiu novamente os olhos para mim, com dificuldade de esconder o desgosto.
 
_Quê?! Que foi?
_Vai começar já...
_Vai começar o quê, meu?! – me indignei com o deboche do Fernando.
_Você aí... – ele fez graça, acendendo um cigarro – ...já vai se interessar pela menina de novo.
_Vou nada...
_Ah, vai, sim. É a sua cara, mano... É só cê tomar um fora que cê fica obcecada! – tragou, soltando a fumaça em seguida, e a Mia ficou observando a conversa – Essa Clara mesmo, meu! Quanto tempo cê ficou com ela antes?! E depois já tava lá, toda mal, sofrendo. Puta bad e vocês nem tinham namorado...
_E daí?! Num posso achar ruim?? – resmunguei – Eu gostava dela, porra! Cê nunca sentiu nada assim por ninguém que saiu só umas vezes? Ah, vá Fernando!
_Não. Não é isso, é que você não resiste a um pé na bunda! – riu – Se for trocada por outra, então... NOOOSSA! Aí é que você entra em surto até conseguir a mina de volta... Faça sol, faça chuva, que se dane, cê dá um jeito!
_Cala boca, mano. Nada a ver! – me revoltei – E eu não vou sair com ela, tá, não é nada disso. Tô só te contando o que rolou, porra... Por isso que não te falo mais as coisas, caralho, cê só me enche o saco! Não tem nada a ver, nada a ver... – enfatizei – ...eu tô em outra, meu.
_“Tá bom”... – riu e encostou de volta no sofá, irônico – ...vai ser igual aquela lá, a do colegial. A... a Nana!
_O que tem a ver, cacete?!
_Ela não te deu um fora depois que vocês se pegaram no meio do primeiro ano e cê ficou toda obcecada até conseguir voltar com ela no meio do segundo e aí foi uma grande merda eterna por sei lá quanto tempo?!
_Não foi uma grande merda... – murmurei, contrariada.
_Velho, cê tem até tatuagem pra mina!
 
A dona do infinito.
 
_Ai, como cê é mala, Fernando... – o empurrei – ...e nada a ver, meu. Eu tô saindo com outra mina agora... e ela é ótima, mano. A Clara nã...
_Ah, é! – me interrompeu, rindo – Porque isso sempre te impediu!
_Não, babaca, eu quis dizer que tô saindo pra valer...
_Quem, aquela lá do Vegas? A que cê conhece faz três dias?
_É, a Patti.
 
A Mia virou o rosto e voltou a encarar a TV, cada vez mais desconfortável.
 
Qual é, garota?
 
Sem se dar conta da movimentação, o Fer começou a me tirar de apaixonadinha e eu fiz questão de retribuir os seus comentários com alguns socos de leve. Acabamos nos enrolando numa pancadaria amigável no sofá, aos risos, o que só piorou o humor da sua namoradinha – de cara feia, ali, sentada no chão. Que seja.   

À toa

De volta ao apartamento, lá pelas 8 da noite, passei pela porta de entrada e encontrei com o Fer e a Mia sentados na sala. Em meio a uma marofa descomunal. Uma travessa de bolo de chocolate parcialmente comida estava sobre a mesa de centro – o clichê do clichê da larica.  Assim que me viu, o Fer quis checar a tatuagem nova. Me acomodei ao seu lado no sofá, roubando um gole da sua cerveja, e puxei a lateral da camiseta para que visse o desenho. Um tigre em traços old school. Os restos de tinta e um pouco de sangue tiravam um tanto da visibilidade por trás do plástico, então o Fer o esticou com os dedos para ver melhor – tentando não me machucar. Minha pele estava inchada e dolorida.
 
Sentada no chão ao seu lado, mais adiante, a Mia levantou os olhos discretamente e observou o desenho por um segundo. Depois tornou a olhar para frente, para a televisão. Fiquei algum tempo lá, afundada no sofá, comentando sobre a ida ao estúdio com o Fer. Já com a blusa devidamente abaixada e um dos pés sobre a mesinha de centro, segurando a cerveja em mãos.
 
_Come um pedaço aí... – o Fer sugeriu, levantando a travessa de bolo – ...a Mia que fez agora à tarde.
_Não, tô de boa. Acabei de tatuar, nem posso comer chocolate...
_Ah tá, e cerveja pode?!
_Ah, sei lá, né... – ri.
_Nada a ver, mano! Não dá nada! Eu nunca faço essas merdas e todas as minhas tão de boa, meu...
 
Tem razão. Olhei para a travessa, coberta com uma calda grossa de chocolate, daquelas visivelmente deliciosas, e aí, claro, mudei de ideia, me esticando para pegar o que chamei de “tá, vai, só um pedacinho”. O Fer riu.
 
_Pô, ficou gostoso mesmo, hein... – comentei, de boca cheia, surpresa que a Mia tivesse de fato acertado uma receita – Mandou bem!
 
Mas ela não sorriu, nem agradeceu. Apenas me olhou. E num raciocínio não muito complexo, concluí que ainda me ressentia pela noite do Vegas. Fala sério. Eu é que devia tá irritada, pensei. Aposto que nem são tão amigas. Me afundei no sofá com desdém. E me preparei para matar o tempo ali mesmo. Não tinha nada para fazer mais tarde – quando ia na última sessão do cinema com a Patti. Na TV, estava passando um filme qualquer do Stallone.
 
O dia começava a escurecer e a perder aquele calor todo das horas anteriores, tornando-se ligeiramente mais agradável. Ainda assim, o ar entrava abafado pela janela aberta. Quis poder arrancar as calças, que me incomodavam desde que entrei em casa, mas a presença da Mia me inibia. Ela mesma estava nuns shorts ultracurtos jeans e sem blusa, com um sutiã preto, fumando um baseado. O Fer também estava sem camiseta numa bermuda velha.
 
Só eu com esse pano todo, argh.
 
Tentei compensar com a cerveja gelada, com preguiça de me mover até o quarto e me trocar. Mandei uma mensagem para a Patti entre um gole e outro, submersa entre as almofadas, e combinamos de nos encontrar na frente da bilheteria do Center 3 – umas quadras para cima do apê. Depois de acertar os pormenores, larguei o celular e fiquei assistindo o filme. Mas a minha cabeça logo se encheu de outros pensamentos.
 
_Ei... – o Fer me cutucou com as costas da mão – ...que cê tá brisando aí, meu?
_Nada, pensando só... – tomei mais um gole da minha cerveja – ...sei lá, rolou uma parada hoje.
_O quê?
_Ah, nada demais, encontrei uma... – suspirei, meio desconfortável – ...u-uma mina aí, não sei se cê lembra dela? A Clara.
 
Assim que o seu nome saiu da minha boca, os olhos da Mia se voltaram a mim. Na mesma hora. Num descuido que ela logo percebeu e abaixou a cabeça para acobertar, fingindo não prestar atenção. O Fer riu – me zombando que, sim, como poderia esquecer depois de todo o escândalo que eu fiz, enfatizou, no dia que peguei a Clara com outra no Vegas e saí chutando tudo pela sala. Aí desembestou a falar sobre a festa que demos para “curar a minha fossa” – a mesma em que eu me tranquei no banheiro com a Mia, quando demos uns amassos pela primeira vez.
 
Mas, é, desse detalhe ele não lembrava sabia.

dezembro 27, 2011

Björk

Me puxou pela mão, entre as pessoas. E sorriu por me encontrar, ali no meio – os arredores da Calixto estavam no caos dos sábados. Arqueei as sobrancelhas, surpresa, sem saber direito como reagir, e tirei o cigarro da boca. O segurando para baixo por um momento, entre o polegar e o indicador. A Clara estava com uma regata preta e sem sutiã, o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça. Me olhou de cima a baixo, me deixando sem jeito. E me cumprimentou como se o tempo não tivesse passado. Estava bonita – as pintinhas no rosto e os olhos levemente puxados, com seus ares de boliviana-argentina.
 
_Nossa, o que... – ela sorriu com o acaso – ...cê tá fazendo pra esses lados?
_E-eu tô com umas amigas aí... – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê e a Thaís foram, me sentindo levemente desconfortável – ...a gente t-tava...
_Cês vieram pra feirinha?!
 
Ela me interrompeu, interessada.
 
Agia como uma boa conhecida, não sei bem. Apoiou uma das mãos na curva entre o seu ombro e o seu pescoço, num gesto sutil, daqueles que a tornavam realmente sexy, filha-da-mãe. O calor, aquela gente ao redor e a situação toda começaram a me incomodar – mas, por qualquer motivo imbecil, não caí fora na mesma hora.
 
_N-não, eu... e-eu vim tatuar lá no, n-no... sabe, aqui embaixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco, estranhamente confusa – ...o que v-você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma pouco articulada, aí eu lembrei – ...ah, é! Você... v-você trabalha aqui, não?!
_Sim – riu.
 
E foi só então que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava e onde eu a viera buscá-la alguns meses antes, uma vez. Na ocasião em que me encharquei toda de chuva e em que fui arrastada até o Glória, como esquecer. Então tudo me voltou de uma só vez, as recordações da Clara, o jeito como terminamos, de repente, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante, senti um embrulho no estômago – e ela percebeu.
 
_Faz tempo, não faz?
_Faz. Olha, e-eu preciso ir, minhas amigas já tão lá na frente... – disse, dando sinais com o corpo de que ia vazar; a sua presença me emaranhava – ...eu, a, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então...
 
O meu desconforto cresceu, merda. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada – depois de algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram por um momento.
 
_Tá bem... – a Clara sorriu e encostou uma das mãos no meu braço – ...a gente se fala, espero.
 
Murmurei um “aham” meio grosseiro, concordando com a cabeça, e coloquei o cigarro de volta entre os lábios, me virando para descer e sair logo dali. Não dei bola – ou tentei, ao menos. A Clara ficou me observando ainda, a menos de um metro na mesma calçada, e eu procurei não pensar muito. Desci a rua até encontrar a Lê e a Thaís, já do outro lado da feira, me perguntando quem diabos era aquela.
 
_Ah, uma garota aí...
 
Não sabia por que me sentia tão estranha. A Lê insistiu mais um pouco, curiosa, e eu mudei de assunto – preferia não falar a respeito. Voltamos ao estúdio, onde eu ficaria pelas próximas horas, vendo a Lê pagar pelo tanto que me zombou. Sã e salva.

dezembro 26, 2011

Pain lovers

Já tinha esquecido de quanto aquilo puta merda filha-da-puta do caralho doía. Argh. Minha costela ia se rasgando pouco a pouco. E a açougueira da Thaís ainda achava graça no meu sofrimento, me chamando de “dramática” durante o processo. Meu cu – aquele era o pior lugar para se tatuar. A pele na costela é fina e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade, é o equivalente moderno à tortura medieval. Nenhuma outra minha tinha doído tanto. Juro. Quase desisti quando acabou o contorno. Mas a Thaís logo emendou o preenchimento e eu decidi encarar.
 
_PUTA QUE PARIU! – a xinguei – CÊ TÁ PESANDO A MÃO, CARALHO, NÃO É POSSÍVEL!
_Para de reclamar, mano! – a Thaís ria, debochando – Nem dói tudo isso...
_AH, NÃO! IMAGINA! SUAVE!!
_Pois merece, ninguém mandou atrasar... – a Lê me zombou também – ...agora aguenta!
_TOMAR NO CU, LETÍCIA, EU ATRASEI 20 MINUTOS, PORRA!
_Mano, na boa... – reclamou – QUE MERDA cê tava fazendo que cê não consegue chegar às 10:30 NUM SÁBADO?!
_QUE CÊ ACHA QUE EU TAVA FAZENDO?!
 
Resmunguei, tentando engolir a dor.
 
_Tava piranhando por aí, essa desgraça... – a Thaís riu, mergulhando a agulha na tinta antes de continuar – ...num tava, cachorra?
_TAVA, CARALHO... – travei os dentes, sentindo a maquininha cortar a minha costela – TAVA!
_Hummm, com quem?
_A-aquela, aquela mina lá do Vegas... – suei frio – ...PUTA MERDA, MANO!
_E valeu a pena, pelo menos?! – a Lê continuou, ignorando minha dor.
_Foi legal.
_Ih. Num senti firmeza...
_Não é, foi bom. É só que a mina... – respirei fundo, suportando a agonia que tomava o meu torso inteiro – ...a mina, n-não sei. Foi a primeira vez dela com mulher, sabe?
_Sei – a Lê riu – Então cê fez o serviço todo e agora tá subindo pelas paredes? É isso?
_Cala a boca, mano.
_Uai. Achei que já tava acostumada... – a Thaís fez graça – ...depois de todo o rolo lá com a Mia.
_Velho, não. A Mia... – me segurei, sem querer entrar no mérito do quanto a Mia, cacete, me desgraçava a cabeça, de como a gente fodia sem qualquer inibição – ...a, a Mia e-era diferente.
_Vixi. Deu uma saudadezinha? – a Lê me provocou.
_Claro que não, mano!
_Ó! – a Thaís alertou – Vou continuar aqui. Para de se mexer!
 
Assim que a agulha recomeçou, senti a dor reverberar pelos meus ossos como se dilacerasse meu peito por dentro. Ô inferno. Mais dez minutos daquela tortura e eu tava prestes a matar a Thaís. Que dor desgraçada, mano. Quando enfim terminou, ela limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor. E eu me levantei para ver no espelho. Do caralho, sorri recompensada, como se tivesse vencido uma maratona.
 
Foda-se a dor – sempre valia a pena.
 
Me plastifiquei inteira. E agora, era a vez da Lê de sofrer nas mãos da nossa amiga. Mas já eram mais de três da tarde, então saímos para “almoçar” antes. Tínhamos menos de meia hora, o que mal me dava tempo de passar na Calixto para olhar as câmeras na feirinha. O sol estava de rachar – subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer na esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entretive por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids, mas, como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade ali.
 
Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e de instrumentos musicais, até a ruazinha da Choque Cultural, onde trabalhava uma amiga da Thaís. Batemos papo por algum tempo, entretidas, mas aí já era hora de voltar. Conforme fomos descendo a rua, me empenhei em acender um cigarro no meio daquela gente toda, um tanto distraída – e foi quando dei de cara com a Clara.

dezembro 23, 2011

Mancadas clássicas

_Hum... – murmurei, enfiada no travesseiro – ...que horas são?
 
Tinha apagado. A Patti estava em pé, apoiada na janela com um cigarro na mão. E nua, como se aquela madrugada a tivesse libertado de si mesma. Observei uma faixa de sol iluminar a âncora tatuada em sua coxa, me espreguiçando por cima do travesseiro. Repeti então a pergunta e ela sorriu de volta para mim, arqueando as costas para olhar o relógio da parede.
 
_Dez e vinte.
_Não. TÁ BRINCANDO?! – dei um pulo na mesma hora, alcançando a boxer no chão – ...merda, merda... – a vesti rapidamente e comecei a procurar pelas minhas roupas – ...mil vezes merda!
_O que foi? – a Patti se assustou – Cê tem que ir??
_Eu vou tatuar, tá marcado às 10 e meia... – coloquei o jeans, sem abotoar, e fui calçando de qualquer jeito os meus All Stars – ...que merda, cara, puta que pariu. Minhas amigas vão me matar!
_Calma, eu te levo! Onde é? É perto?
_Não, meu. Fica aí! Não precisa se vestir, sair correndo... – coloquei a minha camiseta amarrotada, fechando as calças em seguida – ...deixa que eu me viro. Vai dar tempo!
 
Ah, mas não vai mesmo.
 
Beijei-a rapidamente, um selinho apressado. E corri escada abaixo para pegar o primeiro táxi que aparecesse – burra. Como eu sou burra. Na minha cabeça, podia ouvir a Lê me xingando de todos os nomes possíveis. Eu era uma mulher morta. Morta. Droga! Não vai dar. Olhei meu celular, já no banco de trás de um táxi, enquanto passava as direções do caminho, e só então me dei conta da minha grosseria. Inferno. Fechei os olhos, apertando-os em arrependimento, conforme o taxista descia a Arcoverde. Primeira noite da garota com uma mina e eu largo ela lá, qual é o meu problema?
 
Por um segundo, temi que a Patti pensasse mal de todas as lésbicas do mundo – e pior, ficasse com um pé atrás comigo. Abri um SMS e digitei às pressas: “Dsclp sair correndo assim... eh q minha amiga vai me matar msm!! Posso te compensar + tarde? ;)”. Assim que enviei, olhei para frente pela janela e notei a porra do trânsito em que estávamos. Um pouco mais abaixo, a Arcoverde estava completamente parada por causa da feirinha na Calixto. Dez pras onze em pleno sábado, revirei os olhos, me sentindo uma tonta, é óbvio que vai tá tudo parado.
 
_Deixa, amigo... vou a pé daqui! – toquei no ombro do motorista, já tirando o dinheiro da carteira – Quanto deu?
 
Bati a porta do táxi, descendo a rua entre os carros, com pressa. Já tinha subido na calçada quando a Patti me respondeu – “relaxa, vms sim! <3, ufa. Segui descendo e digitando, atrapalhada, dividindo minha atenção entre a rua esburacada e o visor do celular. Perguntei o que ela queria fazer e, para o infortuno dos meus extintos anos de estudante, ela escolheu ir num cinema de shopping. Ê programinha de hétero, hein? Achei graça, mas não discuti. Aceitaria qualquer coisa que ela falasse.
 
Atravessei a Henrique Schaumann com certa impaciência – o semáforo da avenida não fechava nunca, caralho –, a poucas quadras do estúdio onde a Thaís trabalhava. Tinha em mãos o primeiro cigarro do dia, já pela metade. Sabia que teria que entrar direto assim que chegasse e me preocupava o meu estômago vazio. Andei mais duas quadras e logo avistei a Lê, parada em frente ao estúdio. Estava apoiada contra um poste, de óculos escuros e bermuda, daquelas bem sapatão, porque decidiu de última hora que tatuaria a panturrilha. Fumava impacientemente, com cara de quem ia mesmo me matar. Atravessei a rua e me aproximei, já receosa com a bronca que viria.
 
_Mano, tomar no cu você e essa merda da sua pontualidade, cara! – a Lê tirou os óculos e jogou o cigarro na calçada, me segurando pelo braço como uma criança e arrastando para dentro do estúdio.

dezembro 05, 2011

Os minutos

Acordei. A posição era terrivelmente incômoda – sentada no chão, a nuca apoiada desconfortavelmente na beirada da cama. Dei um suspiro repentino, saindo daquele estado semiacordado. E esfreguei a mão no rosto, cacete. Lá fora ainda estava escuro. Eram 3:08. Olhei o relógio na parede e então virei o rosto, checando o colchão atrás de mim. A Patti dormia na sua cama, completamente capotada. Tinha os pés descalços e as pernas nuns shorts de ficar em casa. A coxa tatuada dobrada ao redor de uma almofada. Ah é, vestia ainda uma camisa vermelha de flanela que zombei assim que pisei no seu apartamento – “fala a verdade, você se fantasiou de sapatão pro nosso encontro?”.
 
Ela revirou os olhos, rindo, e descemos juntas para a rua.
 
A acompanhei até o mercado na sua esquina, fazendo graça o tempo todo enquanto a gente comprava cerveja. Fui andando pelos corredores e a chamando de “amor” a cada vez que alguém passava perto, erguendo um produto aleatório e perguntando se tava precisando “lá em casa”. A Patti respondia me chamando de “benzinho” e me pedindo para ir buscar sabão em pó ou algo coisa do tipo – acho que nunca tirei e pus tanta coisa que não ia levar no cesto. Quando voltamos para o seu apartamento, só com cerveja nas sacolas, conversamos por uma eternidade na sacada.
 
Ela morava num predinho pequeno em Perdizes com mais duas amigas. Dividimos mais cigarros e cervejas do que podíamos contar. O seu jeito despreocupado me divertia, falando sobre o seu trabalho, as suas ilustrações, tirando sarro da minha determinação no Vegas. Lá pelas dez, uma das suas colegas pediu pizza e comemos todas juntas, sentadas no tapete da sala ao som de uma banda indie qualquer que a Patti gostava. Kasabian, Kaiser Chiefs, uma dessas com K no nome, não sei. Lá pelas tantas, fomos para o quarto ver o filme. E sem planejar, em algum momento capotamos.
 
Não a beijei a noite toda.
 
Agora desperta, mas ainda sonolenta, arranquei os meus tênis. E apenas com as meias nos pés, engatinhei cama acima, passando por cima dos seus joelhos até o outro lado no maior silêncio que consegui. Sem a acordar. Ufa. Me acomodei no pequeno espaço de colchão entre a Patti e a parede – o quarto estava um gelo, e ali não. Assim que ajeitei a cabeça ao seu lado, ela se mexeu um pouco. Sem realmente despertar. Tive vontade de colocar o meu braço ao seu redor, mas hesitei. Melhor não. Com receio de ultrapassar algum limite. Me limitei a dobrar o braço debaixo do travesseiro e fechei os olhos. Só que o sono não veio. 3:10. 3:15. 3:20. 3:25. 3:30. 3:35 e nada. Argh. Virei o corpo, inquieta, deitando a barriga contra o colchão. E então a Patti acordou.
 
_Desculpa.
_Não... t-tudo bem... – ela sorriu de volta, com sono – ...acho q-que a gente... acabou meio q-que...
_É...
 
Uma calma silenciosa preencheu o quarto. Ela se espreguiçou, achando graça, e se aproximou do meu corpo. Aninhando-se para se esquentar. Hum. Afundei os dedos na sua flanela, a abraçando pela cintura. E ela apoiou a cabeça no meu ombro. Me senti bem ali com ela, me trazia certa nostalgia. Deixei meus dedos passearem lentamente sobre as linhas da sua blusa, já quase pegando no sono novamente. E aí foi ela que se moveu. Ajeitou o corpo e eu abaixei meus olhos até os dela.
 
_Me diz – ela sussurrou – Tá sendo o pior encontro da sua vida, né?
 
Eu ri – “não, nem perto disso”. “Sei”, ela murmurou incrédula, “amanhã cê vai dizer pras suas amigas que nem um beijo te dei”. Neguei com a cabeça, achando graça. Mas ainda dá tempo se quiser, garota. Algo nela me desconcertava. Sem pensar muito, levei a mão suavemente até o seu rosto e deslizei os dedos pelas suas bochechas, o seu queixo... a sua boca. Até que, num impulso, a Patti percorreu os poucos centímetros entre nós. Foi ela, não eu. Os seus lábios que buscaram os meus. E eu a beijei de volta no breu. Primeiro uns selinhos curtos. E lentos. Um após o outro. Então os meus lábios tocaram o canto da sua boca e os seus se entreabriram, tornando-se pouco a pouco num beijo de verdade. Meus dedos se embrenharam nos fios escuros do seu cabelo. E ela subiu em cima de mim, escorregando uma perna de cada lado do meu corpo.
 
3:40. 3:45. 3:50. 3:55. 4:00. 4:05. 4:10. 4:20? 4:20. 5:20. 6:20. 7:20. 

novembro 24, 2011

Hipótese infundada

E ainda assim, a ideia não saía da minha cabeça.
 
Ah, não. Eu não ia enlouquecer por culpa daqueles dois mal-amados. Me recusava, que se fodam. Eles e as suas teorias de merda. É. Ainda assim, passei parte da noite que se seguiu angustiada, atormentada pela quantidade de vezes que a Marina acertara sobre a minha vida amorosa no passado. Joguei um pouco de videogame com o Fernando para me distrair, me convencendo entre uma pista e outra de Mario Kart de que a Mia não tinha influência alguma em quem eu queria ou deixava de querer. Isso é ridículo, eu revirava os olhos, refletindo.
 
Lá pelas duas, o Fer foi dormir para conseguir trabalhar direito no dia seguinte e eu segui ali sozinha. Essas eram, afinal, as minhas primeiras “férias” em muito tempo. Quer dizer, se não contar os três dias que eu simplesmente não apareci no trabalho lá pra meados de dezembro porque estava a 100 km de São Paulo fodendo a Dani na casa dos pais dela em Campinas – um pequeno deslize na pior fase da minha fossa, esta, sim, impulsionada pelo meu coração partido pela Mia na época.
 
Mas agora eu já tinha superado.
 
Acordei pouco depois das 14h no dia seguinte com a cara amassada no sofá. E saí correndo para conseguir chegar a tempo pro exame admissional nas redondezas da praça da Sé, às 15h. Merda. O calor abafado que impregnava o ar paulistano me deu dor de cabeça, enquanto eu balançava naquele metrô suado – mas cheguei, intacta e a tempo. Ufa. De lá, fui direto ao meu antigo trampo, resgatar a carteira de trabalho que tinha deixado para assinarem.
 
A Patti me enviou uma mensagem enquanto eu estava na linha verde e eu só li uns quarenta minutos depois, quando terminei de assinar toda papelada e saí do estúdio. Por algum motivo, agora, eu não conseguia a responder. Argh. Filhos-da-puta. O Fer e a Marina estavam fodendo com a minha cabeça. Caminhei pelas ruas estreitas da Vila Madalena e o calor começou a me irritar, baixando minha pressão. Minha mente dava voltas na Patti. Num bloqueio emocional estúpido. Comecei a pensar que estragaria tudo e senti a respiração apertar o meu peito.
 
Não sabia por que gostava assim dela, com tanta facilidade – mas a verdade é que, sim, gostava. Com Mia ou sem Mia. Peguei então o celular e disquei para ela. Poucos instantes depois, ela atendeu e eu sorri. Parecia feliz em me ouvir, ali, competindo com o tráfego de ônibus e carros barulhentos que se enfileiravam na hora do rush.
 
_E aí, já desistiu do nosso encontro hoje?
_Olha, estranhamente não... – a Patti riu, do outro lado da linha.

novembro 23, 2011

Hush! Hush!

Estiquei os pés sobre o apoio lateral do sofá e traguei mais uma vez. Então olhei a mensagem dela, já pela terceira vez – “vc me deixa meio boba... como pode?”. Sorri. Dei uma bola e segurei o haxixe no pulmão por alguns instantes, com o corpo largado contra as almofadas. Aí deixei que a fumaça saísse. O sol começava a se pôr do lado de fora da Frei Caneca, aos poucos preenchendo o cômodo todo com um tom alaranjado. Ia tingindo os contornos da fumaça no ar. Era quinta. E eu não ia ter que trabalhar até segunda. Já tinha pedido demissão e passara o resto da tarde ali, conversando com a Patti, que agora fazia brotar um sorriso no canto da minha boca.
 
Peguei o celular de novo e abri o campo para uma nova mensagem, digitando o número do celular da Marina – decorado uns anos antes. “Qdo vc ñ consegue parar de ler uma msg, eh pq ta meio apaixonadinha, neh?”, escrevi. E hesitei. Argh, não. Por mais que a Marina fosse adorar receber esse tipo de fofoca, eu não podia mandar aquilo assim. Deletei tudo de uma só vez e recomecei: “mano, ñ consigo parar de olhar a msg de uma mina”. Pronto. Mandei. E a Marina, claro, respondeu no mesmo instante, antes que desse tempo de eu levar o baseado mais uma vez à boca.
 
QUE GAROTA????? :) :) :)”, perguntou, assim, em letras maiúsculas e exageradas. Comecei a rir sozinha. Mas cê se empolga, hein. Ainda não tinha contado direito sobre a Patti para ela, só mandei uma mensagem bêbada do Vegas, falando que consegui o emprego e que estava comemorando aos beijos com uma mina na balada. Sem muitos detalhes. Dei mais um trago e escrevi de volta, respondendo quem era. “Ah. Mas essa ñ é a q vc conhece faz, tipo, um dia?”, ela me questionou. “E?”, soltei a fumaça no ar, despreocupadamente.
 
O meu cabelo começava a bagunçar depois de tanto tempo largada ali no sofá. Me curvei sobre a mesinha de centro e deslizei suavemente uma das pontas do baseado na parede do cinzeiro, fazendo com que as poucas cinzas formadas caíssem. Ainda estava com o celular em mãos, mas a Marina não me respondia. Larguei-o sobre a mesa. Aí traguei mais uma vez e decidi parar naquela – haxixe batia mais forte. Mais um pouco e eu ficaria realmente chapada. É. Soprei a fumaça para o lado e o apaguei no cinzeiro, apoiando-o na borda. O celular vibrou sobre a mesa – “vc ñ acha q ta projetando um pouco, linda? :-/”.
 
Projetando o quê, mano?!
 
Me ofendi. Bufei e afundei o corpo contra o sofá, olhando a tela do celular. Não precisava desse tipo de comentário, não vindo da Marina. Achei que ia ficar animada, porra. Neste mesmo instante, o Fer entrou no apartamento com as roupas do trabalho, carregando umas sacolas de mercado nas mãos. Me cumprimentou de longe e deixou as chaves sobre a mesa ali ao lado, atravessando então para a cozinha. Pouco depois, voltou pra sala. Começou a falar e eu me virei para olhá-lo, ali em pé, atrás do sofá, tentando abrir um pacote com os dentes.
 
_E aí... – me perguntou, quase indecifravelmente, com a boca ocupada – ...pediu demissão?
_Pedi.
_E foi de boa?
_Ah, mais ou menos. Meu chefe ficou puto, falou que eu tava largando ele na mão, e depois veio com um papo de que já tava pensando em me cortar mesmo. Foi um babaca.
 
Notei mais uma mensagem da Marina chegar no meu celular, largado sobre a mesa, mas não peguei para ler. Não quero saber. O Fer finalmente conseguiu abrir o seu pacote e se sentou na poltrona, ao lado do sofá, olhando para o meu celular aceso.
 
_Hum... – o indicou com a cabeça – ...num vai responder?
_Ah, não, é a Marina me dando bronca...
_Ê laiá – ele riu, comendo uma bolacha – Quê que cê fez agora?!
_Eu? Nada! Ela tá achando ruim só porque tô gostando de alguém...
_Quem?
_Ah... – me espreguicei, enquanto falava, esticando o corpo contra o encosto – ...uma mina aí.
_Não, jura?! E cê resolveu inovar também em... sei lá... outras áreas da sua vida?
_Babaca – eu comecei a rir.
 
E peguei o celular para ler. “Flor, ñ se chateia. Eu só acho q vc devia ir com calma e ver se... se é isso msm, sabe?”, a Marina escreveu. Argh. Fechei o celular e o larguei na mesinha de centro, de novo.
 
_Mas conta aí... Que mina?
_Ah, aquela lá do Vegas... A Patti.
_Nossa, mano, mas cê tá gostando dela?
 
Estranhou, arregalando os olhos por um instante. Quê?! Aí levantou as sobrancelhas, dando de ombros – como se dissesse um “então tá” conformado. Não entendia a porra da reação das pessoas à minha volta. Qual é agora?! Não era como se eu nunca tivesse me interessado por ninguém, na minha vida toda. Ainda que, ... eu só conhecesse ela há um dia. Mas, e daí? Me deixa, porra. Finjam menos surpresa, menos relutância, me emburrei, afundada no sofá. Sejam educados, caralho.
 
Balancei a cabeça e parei de olhar na direção do Fer, desviando o olhar pro chão. Isso é ridículo. Quem são vocês pra ficar me julgando? Aliás, quem é a Marina pra ficar supondo teorias a meu respeito? Sobre o que eu sinto ou não por uma garota? Eu tô bem, porra. E tô bem há meses, resmunguei mentalmente para mim mesma. Agora não posso me interessar por ninguém? É isso?! Vai se foder. O que tem? Eu gosto de falar com a Patti. Gosto. E isso não quer dizer nada. Absolutamente nada. Não é c-como se, como se a garota estivesse substituindo a porcaria da Mia na minha vida, no meu coração. Inferno.

novembro 22, 2011

SMS

“E se eu te chamasse pra sair um dia desses”, comecei a digitar, “vc subiria?”. Apoiei as costas entre duas paredes do elevador do prédio, com os pés cruzados em frente ao corpo. “Te dei a resposta pra essa pergunta umas mil vezes ontem”, a Patti me respondeu. “Sem segundas intenções, juro”. “Aham”. “Sem tequila?”, desci do elevador para a rua e segui a pé para o metrô. Logo após alguns minutos, chegou mais um SMS dela. “Mas oq a gnt ia fazer sóbria juntas?”. Como assim?, me ofendi. “Entao c acha q ñ pode se divertir cmg sem tequila?”. “Talvez precise esquecer 1 pouquinho q vc eh menina, rs”. Comecei a rir, indignada, e virei a esquina com o celular em mãos – “mas essa eh a melhor parte, garota... ;-)”. Bati ritmadamente com os dedos no visor do celular, ansiosa, à espera da próxima mensagem. “Eh.. Talvez seja :3”. Sorri na mesma hora. “Sai cmg, vai?”, pedi. “Mas oq a gnt iria fazer afinal?”. “Oq vc quiser, ñ sei”, acendi um cigarro. Já estava na entrada do metrô, mas enrolava um pouco, esperando a conversa terminar para tomar a linha verde e ir pedir demissão no estúdio. Poucos segundos após minha última mensagem, a Patti respondeu: “ok. mas preciso de um plano... ñ posso simplesmente ir aí pra ficar c/ 1 garota! ;-x”. Sorri com o canto da boca, achando graça no bloqueio todo – “ñ precisa vir aqui. eu vou aí, rs”. Retruquei e me pus a pensar por um instante, sem muitas ideias. Aí abri o navegador no meu celular, tragando mais uma vez enquanto buscava qualquer desculpa para nos vermos. “”, digitei segundos depois, “vi aqui q vai passar O Iluminado amanhã na tv, serve?”. “Ñ da mto medo?”. “Dá, rs”. “Mas e se eu ñ conseguir dormir dps?. “Te faço cia, uai”. “Hummm... talvez”. “Prometo me comportar”. “Promete?”. “Sim, rs”. Levei o cigarro mais uma vez à boca, tragando uma última vez antes de o apagar e entrar na estação. E assim que pisei na escada rolante da Consolação, a sua resposta piscou na tela – “combinado!”.

outubro 23, 2011

Sequelas

“Gostei de te conhecer ;) E dsclp por ñ ter subido, rs” – o meu celular apitou nos meus ouvidos, ultrassensíveis por causa da ressaca que me assolava naquela manhã, e os meus olhos cansados se esforçaram para ler a mensagem da Patti. Eram 8:15 e eu não tinha dormido nem três horas. Argh. Com o raciocínio consideravelmente prejudicado, tentei conciliar aquelas poucas palavras com o que me restava de memória da noite anterior. O que não era lá muita coisa – tinha um buraco na minha mente. Lembrava de ter voltado para a pista com a Patti e de termos dançado agarradas uma na outra – mas depois disso, nada. Zero.
 
Não. Espera...
 
Uma lembrança meio confusa me veio à mente, da Patti encostada numa parede suja da Augusta, como um flash rápido. Nossos corpos pressionados um no outro, nos beijando. Uns dois segundos de memória não era o suficiente para eu me lembrar do contexto. Subimos a Augusta juntas? Reli a mensagem, agora mais desperta, e tentei encaixar as peças soltas, mas o desfecho daquela noite permanecia vago. Por que ela não ficou? Sentia como se estivesse esquecendo algum fato importante, mas... n-não vou lembrar, sem chance.
 
O importante é que a parte que eu, sim, lembrava me fazia sorrir.
 
Apesar da ressaca, o meu humor estava sensacional. Queria responder logo para a Patti, mas precisava urgentemente esvaziar cada shot consumido no Vegas da minha pobre e pequena bexiga. Levantei da cama, com a mesma regata amassada da noite anterior, e fui apertando as pernas até o banheiro. Virei a maçaneta e, bam, porta trancada! Ahh, filho-da-mãe... Bati na porta, pedindo pro Fer sair.
 
O problema é que, assim que percebeu que estava nas redondezas da privada, o meu corpo se deixou levar pela empolgação. Eu estava prestes a fazer xixi ali mesmo. Tentei mais uma vez a maçaneta, já pulando de um lado para o outro em pleno corredor, e nada. Aquela merda continuava trancada. Inferno. Ouvi então a descarga e pensei, agora vai. Mas não. Nada, de novo. Um minuto se passou e nem sinal daquela maçaneta girar. Soquei então a porta com a lateral da mão, numa tentativa de apressar o meu colega de quarto.
 
_VAI LOGO, PORRA! – gritei apertada, me apoiando no batente – TENHO QUE MIJAR!!
 
Uns segundos depois, quando a porta se abriu, dei de cara com a Mia.
 
Claro. Me movi para passar, mas ela não se mexeu, bloqueando a droga da porta com o corpo. Estava com cara de poucas ideias e vestida apenas num camisetão cinza desbotado. Só me faltava essa agora. A encarei, sem paciência, e aí tentei passar mais uma vez, agora pelo outro lado. Ela continuou imóvel. Ótimo, vou mijar na calça, suspirei, ainda que não tivesse usando nenhuma. A encarei, impaciente com aquele seu joguinho, e ela me encarou de volta, como se eu lhe devesse alguma coisa. A desgraçada estava fazendo de propósito. Numa afronta silenciosa de você-sabe-que-o-que-você-fez-ontem-foi-inaceitável.
 
Argh. Minha bexiga estava prestes a explodir.
 
_Licença, eu preciso mesmo usar... – disse, grosseiramente, me forçando banheiro adentro pelo espaço estreito entre ela e o batente da porta.
 
Abaixei a cueca e sentei no vaso o mais rápido que pude. Ia levar quatro segundos, no máximo, tamanha a urgência que eu tava. A Mia ficou ali, por um instante, parada na porta, me olhando feio. Quer assistir? Fica à vontade, a encarei de volta. Sem um pingo de remorso. Até ela sair por fim, me deixando sozinha no banheiro. Vai lá, vai, pros braços do Fer, revirei os olhos, com certa implicância.
 
Dei a descarga e então segui com meu dia – que envolvia procurar minha Carteira de Trabalho, sair de casa de estômago vazio para não dividir a cozinha com o casalzinho-lixo e ir na produtora para pedir demissão. Bora.

outubro 15, 2011

Sozinhas, enfim

_“Patti” – sentei ao lado dela, no degrau do lado de fora do Vegas – Sabe, eu gosto desse nome...
_Gosta? – ela me deu uma olhada rápida de canto de olho, sorrindo, com um cigarro aceso nas mãos – Hum, engraçado, te vi conversando com outra “Patti” lá dentro...
_Eu?! Onde?
_No bar...
_Ah... – ri, observando-a tragar – ...ela é só uma amiga.
 
A Patti me olhou como se não acreditasse e balançou a cabeça, rindo.
 
_Quê?! – me justifiquei – É só que fazia... um tempo que a gente não se via.
_Tá bom... – achou graça, desconfiada – ...e então quer dizer que cê gosta de Pattis?
_Gosto. Me lembra a Patti Smith...
_Ah, não! – ela riu, soltando a fumaça para o lado – A Patti Smith, mano?! Ela é horrorosa!
_Ah, qual é... Mano, a mulher é um gênio!
_Tá... e horrorosa.
 
Parei e a encarei por um segundo, indignada com a afirmação.
 
_Então, é assim? Uns amassos sapatão e, de repente, cê é expert em quem é gata ou não? – a zombei.
_Não precisa ser sapatão para saber que a Patti Smith não é bonita...
_Mano... – me revoltei – ...EU TE COMPARO COM UMA DAS MULHERES MAIS FODAS QUE JÁ EXISTIRAM E CÊ FICA OFENDIDA PORQUE NUM ACHA ELA BONITA?! – roubei o seu cigarro, rindo – Chega. Parei. Já deu pra mim, cê tá muito louca...
 
Balancei a cabeça e dei um trago, olhando para o movimento na rua Augusta à nossa frente, desacreditada.
 
_Hum, então... o que cê tá me dizendo é que iria pra cama com a Patti Smith?
_Nossa, mas COM CERTEZA! NA HORA!
_Do jeito que ela é hoje?!
_Mano, sim... – a contrariei, entregando o cigarro de volta – ...de qualquer jeito. De todos os jeitos. Se aquela mulher me desse bola, eu podia morrer feliz...
_Ah, mas cê tá falando isso só porque admira ela, não vale!
_Como não vale?! Tesão é tesão. É isso. Vem de muitas formas, meu...
_Tá. Mas falando só fisicamente... – me provocou – ...eu ou a Patti Smith?
_Ela.
_Fisicamente!
_A Patti Smith, porra.
_Ah, não! Duvido!
_O quê?! – a observei dar um último trago, ao meu lado, apagando o cigarro na calçada – Você acha mesmo que não?!
_Meu, eu tenho certeza que não!
_Nossa, dormia com ela fácil! Fácil!
_Ela? – me olhou, sem acreditar – Ao invés de mim?!
 
Ri mais uma vez, achando graça na sua indignação, e apoiei a mão nos joelhos para levantar do degrau, ficando em pé na calçada.
 
_Não tô dizendo que não te acho gata, meu. Mas ela também é e tem muito mais pra se gostar numa mulher além disso, porra... – estiquei a mão para ela, que a usou para se erguer também – ...quê?! Tá surpresa?!
_De certa forma... – sorriu – ...assim, depois da sua cachorrada lá dentro, não te tomaria exatamente pelo tipo “profunda”.
_Que cachorrada, mano?! – a encarei, subindo o degrau para voltar pro Vegas – Do que cê tá falando?!
 
Ela revirou os olhos, sem paciência com a minha cafajestice.
 
_Quê, meu?! – eu ri, atravessando a porta da balada, e brinquei – É que eu tenho um interesse meio efusivo...
_Ah, cala a boca!
 
Ela achou graça e eu a encostei contra a parede, na maior cara de pau. “Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi...”, ela resmungou. “Olha...”, murmurei, já perto da sua boca, “...te garanto que o meu interesse tá todo aqui agora”. “Sei”, ela riu. E numa reconciliação improvável e bêbada, do nosso namorico de balada, nos beijamos ali no escuro, cercadas pelas cortinas pesadas e vermelhas do Vegas.

outubro 11, 2011

Mea culpa

O meu coração ganhou força – sentia aquele músculo pulsar dentro de mim, tão forte quanto as batidas que saíam de cada um dos amplificadores ali conforme eu entrava na pista. Entre todas aquelas pessoas e com só uma na cabeça. Maldita. Determinação é mesmo algo poderoso, não é? Me enfiei na multidão à procura da maior confusão que eu pudesse encontrar. Qualquer uma que fosse. Tinha dificuldade em discernir as pessoas movendo-se à minha volta, já bêbada demais. Fui trombando com corpos desconhecidos, buscando pela Patti ou por qualquer péssima ideia.
 
E foi quando dei de cara com a pior delas.
 
Andei mais uns dois ou três metros, em pequenas curvas, ultrapassando os outros à minha frente até chegar onde ela estava dançando. Sem qualquer remorso, que se foda. Encostei suavemente a minha mão em seu braço, conforme lhe cumprimentava, e ela disse um “oi” hesitante, me olhando de volta, confusa.
 
_Você não lembra de mim, né?
_Não, desculpa... – ela riu, lamentando, então olhou por mais alguns segundos para a minha cara e de repente, arregalou os olhos – ...não, espera! Você, cara... v-você tava no aniversário da Mia! Não tava?!
_Sim... – sorri e encostei em seu ouvido, explicando – ...eu moro com o Fer. Tava ali de longe e te vi aqui, meu. Pô, que legal. Muito legal te encontrar! Eu lembro de você daquele dia, na festa...
_Nossa, mas isso faz uma eternidade! – achou graça, já quase se apoiando em mim – Como cê ainda lembra de mim?! A gente mal se falou!
_Ah, sei lá... – dei de ombros e ri também – ...só lembro. Acho que cê ficou na minha cabeça...
_Como assim? – sorriu – Por quê?!
 
Olhei para ela por uns dois segundos, absolutamente consciente do que estava fazendo. E aí abaixei a cabeça, sorrindo:
 
_Não, nada. Não é nada...
_O quê?! – ela me cutucou, curiosa.
_Nada, meu... – retruquei, rindo – ...escuta, posso te pagar uma bebida?
_Quando?! Agora?
_É.
 
E ela me observou por um instante, intrigada. Em meio ao atordoamento da pista. Então sorriu, concordando. Levei-a de volta até o balcão, através da multidão. E sendo bem sincera, a minha cota de héteros já estava estourando pela noite. Em condições normais, eu já não teria mais paciência, mas ela estava praticamente fazendo todo o trabalho para mim – e em menos de vinte minutos de conversa fiada, tava totalmente na minha.
 
Os beijos foram apenas consequência. Assim como os olhares dos amigos dela, a poucos metros de nós – e não muito tempo depois, os do meu melhor amigo, próximo a uma das paredes da balada. Era questão de segundos agora até o Fer comunicar a Mia ao seu lado. Provavelmente rindo do fato de eu estar pegando uma das suas amigas. Então, fechei os olhos – e deixei cada célula filha-da-puta restante em mim fazer aquilo direito. Uma vez que ela tivesse visto e eu provado qualquer que fosse meu ponto ali, aí poderia largar daquela garota e voltar atracar meu barco em outra... âncora.
 
E assim foi. De uma só vez. Assim que abri os meus olhos novamente, depois de um beijo bem dado, demorado, procurei a Mia no canto que dividia minutos antes ao lado do Fer e não encontrei nenhum dos dois – soltei da garota na mesma hora.

outubro 05, 2011

Shitlist

When I get mad
And I get pissed
I grab my pen
And I write out a list
Of all the assholes
That won't be missed
 
You've made my... 
Shitlist!
 
(L7)
 

outubro 02, 2011

Rancor meu, seu

_VOCÊ SABE MUITO BEM! – a Mia reclamou alto na minha direção, competindo com a música.
_Ah, sei?!
_V-você, meu... – ela passou as mãos no rosto, irritada – ...VOCÊ É INACREDITÁVEL!!
_Mano... CÊ TÁ LOUCA, PORRA?! DO QUE DIABOS CÊ TÁ FALANDO?!?
 
Me incomodei com a sua atitude. Mas ela só cruzou os braços, me encarando como se fosse óbvio. Ah, não me vem com essa.
 
_DIZ! DIZ, MIA! – a provoquei, brigando de volta no meio da multidão – DIZ O QUE CÊ QUER DIZER! FALA QUAL É O PROBLEMA!
_O MEU PROBLEMA É VOCÊ!
_EU?! Olha, Mia, até onde eu sei essa noite é minha, cara... – balancei a cabeça, sem paciência para suas meias palavras – ...e eu posso fazer o que eu quiser.
_FODA-SE QUE A NOITE É SUA! FODA-SE! O problema... – ela se aproximou do meu ouvido, me pegando de novo pelo braço – ...é que cê tá fazendo de propósito... – me segurou com força e aquilo começou a me incomodar – ...e VOCÊ SABE!
_TÔ FAZENDO DE PROPÓSITO, MEU?! – questionei de volta no seu ouvido, já puta da cara, aí afastei o rosto e a encarei, indignada – ESCUTA, MEU MUNDO NÃO GIRA MAIS EM TORNO DE VOCÊ, SABIA GAROTA?!?
 
Por um segundo. Por um segundo, vi os seus olhos se perderem.
 
_E QUEM DISSE QUE É ISSO QUE EU QUERO?! – rebateu, gritando de volta.
 
“Quem disse...”, comecei a rir, nervosa, sem disposição pra engolir uma só mentira que saía da sua boca. Não depois de assistir os seus olhos me seguirem desconfortáveis por toda aquela porra daquela balada, a cada droga de boca que eu beijava, a cada garota que eu segurava, a cada maldito segundo, a merda da noite inteira. Agora vinha com esse discursinho dissimulado para cima de mim. “Quem disse”.
 
_Não quer, né? – a encarei e ri, irônica – Tá bom, então.
_Você não sabe NADA da minha vida! – rebateu.
_É e você obviamente não entendeu PORRA NENHUMA DA MINHA TAMBÉM! – pistolei, sem acreditar na cara de pau dela, puta merda, perigosamente afogada em doses e mais doses de tequila – NÃO PARA VIR AQUI E SE ACHAR NO DIREITO DE FALAR A MERDA QUE QUISER PRA MIM! NÃO ENCHE! VAI ACHAR O SEU NAMORADO, VAI LÁ!
_VAI SE FODER!
 
Berrou mais uma vez, antes de dar as costas para mim e se enfiar na multidão. Perdi de vez a cabeça. Ah, mano, VAI TOMAR NO CU! Desviei de um grupo de meninas que dançava à minha direita, seguindo em direção ao bar. Aí trombei com o Fer, a menos de três metros de onde estávamos. Desavisado, ele vinha com duas bebidas nas mãos e me olhou como se ainda tentasse entender por que diabos nós duas tínhamos acabado de discutir e agora saíamos cada uma para um lado.
 
_O que aconteceu?!?!
_NADA! – resmunguei, rancorosa, esbarrando nele para passar.
 
O Fer ficou parado ali, com os copos em mãos, me observando ir para o outro lado. Não te devo satisfação. Trombei com mais pessoas do que gostaria no caminho até o bar, deixando atrás de mim um rastro de má educação. Meses, cara... Meses! E a porra dessa mina ainda me tira do sério, me indignei. Não conseguia me conformar com como seguia me deixando afetar por ela, tomada por um ódio desmedido. Primeiro me dá um fora e agora vem com essa merda?!
 
Vê-la virar as costas para mim, se achando a certa na droga da história, fez subir todo o sangue que eu sequer sabia que tinha à cabeça. Sem acreditar na cara de pau da Mia de vir tirar satisfação comigo, puta merda, aquilo me encheu duma raiva tremenda, perigosamente afogada em doses e mais doses de tequila. Ah, você perdeu esse direito, garota, resmungava dentro de mim, fervendo de ódio, conforme pedia a quinta ou sexta dose da noite. Virei o shot numa tacada só. Então fiquei de costas contra o balcão, apoiando os antebraços na madeira atrás de mim. Respirei fundo, tentando recuperar a calma. Um, dois, três, quatro... dez. E olhei para a pista movimentada, de novo.
 
Agora eu vou fazer de propósito, sua desgraçada.