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janeiro 15, 2011

A estrela dourada

Minha mão tremia mais do que volante de carro velho. Com a agulha a dois centímetros da pele da Mia e um medo desgraçado de fazer besteira, enquanto ela me explicava como inclinar meus dedos. Tá. Primeiro furo. E mais um, o meu sangue gelou. A Mia ria do meu nervosismo – o piorando consideravelmente com comentários como “não vai cagar na minha perna, hein”. Obrigada pelo incentivo, eu arqueava as sobrancelhas e ria junto.
 
Fui pegando o jeito aos poucos. O processo do handpoke ia mais devagar do que com a maquininha, os ponteiros do relógio rodavam madrugada adentro. Nos tatuávamos sentadas no chão do seu quarto, de frente e sem as calças, uma com a perna em cima da coxa da outra. Quase numa tesoura, é – mas eu estava tensa demais para fazer um comentário engraçadinho. Sentia a agulha entrar na minha pele, pouco acima do meu joelho, conforme a tatuava do outro lado. Não tinha a menor ideia do que a Mia estava fazendo em mim. Combinamos de não mostrar até terminar, nos marcando sem estêncil e, no meu caso, sem experiência também.
 
Nuns papos à toa, entre pernas e papéis-toalha sujos de tinta, ela me contou sobre a primeira vez que se tatuou, me mostrando o desenho – uma luazinha com linhas tortas, a tinta já estourada pelo tempo – que fez no tornozelo quando tinha 14 anos. Passamos a hora seguinte falando sobre outras primeiras vezes nossas, do primeiro show – ela CPM, eu Planet Hemp – ao primeiro beijo – ela na escada do prédio, aos 13; eu na quadra de trás da escola, aos 10. E lá pelas tantas, quando o assunto caiu na primeira vez mesmo, a nossa situação se inverteu.
 
_É diferente quando cê não quer dormir com caras... – molhei a agulha na tinta duas vezes, rapidamente.
 
Eu tinha quase 17 – a Mia, 14. E ela não conseguia acreditar que eu tinha começado tão depois dela. “Mas você gostou?”. Eu ri, “gostei”. “Eu odiei”, revirou os olhos, “os moleques nessa idade são uns idiotas”. “Só nessa idade?!”, questionei e ela me empurrou, rindo. Os contextos eram completamente diferentes. A sua tinha sido com um amigo do seu irmão numa festa, na primeira e única vez que ficaram; a minha foi numa tarde depois da aula na casa da Nana, quando ninguém estava em casa e a gente já namorava.
 
_Tá. Essa foi sua primeira mina, mas qual foi a melhor? 
_Por quê? – fiz graça – Cê quer o telefone dela?
_Não, né, só quero saber... – me olhou, curiosa.
_Você.
_Para! Tô falando sério, meu.
_Eu também.
_Mano, claro que não, eu não sei nem o que tô fazendo metade do tempo... – apertou os olhos na minha direção, como se eu estivesse mentindo – Vai. Fala a verdade.
_Mas eu tô falando... – insisti e ela balançou a cabeça, indignada – ...o quê? Cê quer saber quem tinha mais “habilidade”, é isso? – ri, mais uma vez, enquanto riscava mais uma sequência na sua pele – Eu posso citar um milhão de minas, a minha resposta ainda ia ser a mesma.
_Eu não quero o nome de um milhão delas, só um.
_Que diferença faz?
_Só escolhe uma, porra.
_Você.
_Meu deus, como cê é! – revirou os olhos – Por que cê não pode me dizer? Foi a Clara?
_A Clara?!
_Sei lá, meu. A Dani, a tal da Marina...
_Mia... – ri – ...você foi a melhor da minha vida.
_Cê sabe o que eu quero dizer!
_Sei, sim... – insisti – ...é você que não tá entendendo.
 
O que eu quero dizer, garota, a encarei por um instante, mergulhando a agulha na tinta mais uma vez, tentando decifrar se aquele papo era curiosidade ou insegurança, é que tem umas minas que entram na sua cabeça tão violentamente que estouram todos os limites da sua existência, do seu coração. Destroem a sua razão. É outra parada, achei graça no quanto a Mia parecia não saber o estrago que causava em mim, você nem sabe nem o que está fazendo, não pensa em porra nenhuma, não calcula, só faz e vocês vão, vão se movendo, juntas, atropelando tudo, quebrando todas as regras, como se fosse a sua própria natureza, como se o seu corpo inteiro soubesse, porra, o que quer e como conseguir – é disso que eu estou falando, entende? E é – é sobre você.

9 comentários:

Letícia disse...

Muito bom, ameei, salvou meu sabado! s2

Anônimo disse...

Salvou meu sábado! [2]
Post perfeito!

Looop disse...

Que post mais LINDO!!É de ler com o sorriso no canto da boca, mais, safadeza tua terminar assim , né?
[Salvou a noite antes perdida...]

Dê disse...

Perfeitoooooo! Tbm acho que o sexo entre mulheres é algo q ñ existe comparação... é mto mais do q só desejo, pra mim a palavra q define é sinergia. Ainda tô oO com esse post, alguns pontos de vista da FM são mto parecidos com o q eu penso...bjo, Mel.

Jamile disse...

ri muito do "pinto, argh" huhauehauehuah. Mel como vc consegue fazer a gente sentir todas as emoções só lendo esses posts? voce é foda =)

R. disse...

gold star lesbian haha
a mia ter certos gostos deve complicar um pouco a vida da FM, mas em ultimo caso ela sempre pode apelar pra certas coisas hehe
e desculpa o atraso pra comentar :(

saudades de vc e da noelly (e vice-versa dependendo de quem estiver aceitando os comentarios)

Ianca' disse...

aaaaaaaaaaaah Mia, quem me dera ser a melhor da Devassa *-*
Cara, essas minas, não tem como eu não amar elas, e esse lance do pinto, aaah é que ela aprendeu assim, e realmente nem sei viu'

Catarina disse...

Puta que pariu, Mel!
Porra, não sei nem o que dizer... Amei esses dois últimos posts. Lindos, sério.

Monica disse...

kkkkkkkkkkkkk

papo sérioo

elas realmentee taum na viibe do amor...pq isso vira briga em qqer discussäo racionaal