Minha mão tremia mais do que volante de carro velho. Com a agulha
a dois centímetros da pele da Mia e um medo desgraçado de fazer besteira, enquanto
ela me explicava como inclinar meus dedos. Tá. Primeiro furo. E mais um,
o meu sangue gelou. A Mia ria do meu nervosismo – o piorando consideravelmente com
comentários como “não vai cagar na minha perna, hein”. Obrigada pelo incentivo,
eu ria junto.
Fui pegando o jeito aos poucos. O processo todo do handpoke
ia mais devagar do que seria com a maquininha. Os ponteiros do relógio rodavam
madrugada adentro. Nos tatuávamos sentadas no chão do seu quarto, de frente e sem
as calças, uma com a perna em cima da coxa da outra. Quase numa tesoura, é
– mas eu estava tensa demais para fazer um comentário engraçadinho. Sentia a
agulha entrar na minha pele, pouco acima do meu joelho, conforme a tatuava do
outro lado. Não tinha a menor ideia do que a Mia estava fazendo em mim. Combinamos
de não mostrar até terminar, nos marcando sem traçado ou estêncil e, no meu
caso, sem experiência também.
E nuns papos à toa, entre pernas e papéis-toalha sujos de tinta, ela
foi me contando sobre a primeira vez que fez aquilo, me mostrando o desenho –
uma luazinha com linhas tortas, a tinta já estourada pelo tempo – que fez no
tornozelo quando tinha 14 anos. Passamos a hora seguinte falando sobre outras
primeiras vezes, do primeiro show que fomos – ela CPM 22, eu Planet Hemp e
Raimundos – ao primeiro beijo – ela na escada do prédio aos 13, eu na quadra de
trás da escola com 10. E lá pelas tantas, quando o assunto caiu na nossa
primeira vez, a situação se inverteu.
_É diferente se cê não quer dormir com caras... – molhei a agulha
na tinta rapidamente, duas vezes.
Eu tinha 15. Já quase 16 – a Mia, 14. Ela não conseguia acreditar
que eu tinha começado depois dela. “Mas você gostou?”. Eu ri, “gostei”. “Eu
odiei”, revirou os olhos, “os moleques nessa idade são uns idiotas”. “Só nessa
idade?!”, questionei e ela me empurrou, rindo. A sua tinha sido com um amigo do
seu irmão numa festa, a minha numa tarde depois da aula na casa da Nana.
_Tá. Essa foi a primeira, mas qual foi a melhor mina que cê já
dormiu?
_A melhor de cama?
_É.
_Por quê? – fiz graça – Cê quer o telefone dela?
_Não, né, só quero saber... – me olhou, curiosa.
_Foi você.
_Para! Tô falando sério, meu.
_Eu também.
_Mano, claro que não, eu não sei nem o que tô fazendo metade do tempo... – apertou os olhos na minha direção, como se eu estivesse mentindo – Vai. Fala a verdade.
_Mas eu tô falando... – insisti e ela balançou a cabeça, indignada – ...o quê? Cê quer saber quem tinha mais “habilidade”, é isso? – ri, mais uma vez, enquanto riscava mais uma sequência na sua pele – Olha, eu posso te dizer um milhão delas, a minha resposta real ainda ia ser a mesma.
_Eu não quero o nome de um milhão delas, só um.
_Que diferença faz?
_Só escolhe uma, porra.
_Você.
_Meu deus, como cê é! – revirou os olhos – Por que cê não pode me dizer? Foi a Clara?
_A Clara?!
_Sei lá, meu. A Dani, a tal da Marina...
_Mia... – ri – ...você foi a melhor da minha vida.
_Cê sabe o que eu quero dizer!
_Sei... – insisti – ...é você que não tá entendendo.
A encarei por um instante, mergulhando a agulha na tinta mais uma
vez, incerta se aquele papo era curiosidade ou insegurança – achando certa
graça no quanto a Mia parecia não saber o estrago que causava em mim. O que
eu quero dizer, garota, é que tem umas minas que entram na sua cabeça tão
violentamente que estouram todos os limites da sua existência, do seu coração.
Destroem toda a sua razão. É outro lance – você não pensa em porra nenhuma, não
calcula, não sabe nem o que está fazendo, só faz e vocês vão se movendo, juntas,
atropelam tudo, quebram todas as regras, como se fosse a sua própria natureza,
como se o seu corpo inteiro soubesse. É disso que eu estou falando, porra,
entende? E é – é sobre você.
_A melhor de cama?
_É.
_Por quê? – fiz graça – Cê quer o telefone dela?
_Não, né, só quero saber... – me olhou, curiosa.
_Foi você.
_Para! Tô falando sério, meu.
_Eu também.
_Mano, claro que não, eu não sei nem o que tô fazendo metade do tempo... – apertou os olhos na minha direção, como se eu estivesse mentindo – Vai. Fala a verdade.
_Mas eu tô falando... – insisti e ela balançou a cabeça, indignada – ...o quê? Cê quer saber quem tinha mais “habilidade”, é isso? – ri, mais uma vez, enquanto riscava mais uma sequência na sua pele – Olha, eu posso te dizer um milhão delas, a minha resposta real ainda ia ser a mesma.
_Eu não quero o nome de um milhão delas, só um.
_Que diferença faz?
_Só escolhe uma, porra.
_Você.
_Meu deus, como cê é! – revirou os olhos – Por que cê não pode me dizer? Foi a Clara?
_A Clara?!
_Sei lá, meu. A Dani, a tal da Marina...
_Mia... – ri – ...você foi a melhor da minha vida.
_Cê sabe o que eu quero dizer!
_Sei... – insisti – ...é você que não tá entendendo.
9 comentários:
Muito bom, ameei, salvou meu sabado! s2
Salvou meu sábado! [2]
Post perfeito!
Que post mais LINDO!!É de ler com o sorriso no canto da boca, mais, safadeza tua terminar assim , né?
[Salvou a noite antes perdida...]
Perfeitoooooo! Tbm acho que o sexo entre mulheres é algo q ñ existe comparação... é mto mais do q só desejo, pra mim a palavra q define é sinergia. Ainda tô oO com esse post, alguns pontos de vista da FM são mto parecidos com o q eu penso...bjo, Mel.
ri muito do "pinto, argh" huhauehauehuah. Mel como vc consegue fazer a gente sentir todas as emoções só lendo esses posts? voce é foda =)
gold star lesbian haha
a mia ter certos gostos deve complicar um pouco a vida da FM, mas em ultimo caso ela sempre pode apelar pra certas coisas hehe
e desculpa o atraso pra comentar :(
saudades de vc e da noelly (e vice-versa dependendo de quem estiver aceitando os comentarios)
aaaaaaaaaaaah Mia, quem me dera ser a melhor da Devassa *-*
Cara, essas minas, não tem como eu não amar elas, e esse lance do pinto, aaah é que ela aprendeu assim, e realmente nem sei viu'
Puta que pariu, Mel!
Porra, não sei nem o que dizer... Amei esses dois últimos posts. Lindos, sério.
kkkkkkkkkkkkk
papo sérioo
elas realmentee taum na viibe do amor...pq isso vira briga em qqer discussäo racionaal
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