Os semáforos já haviam parado de funcionar, piscando inertes em
meio à madrugada. Aquela luz amarela se acendia, toda cheia, num contorno
redondo, e depois se apagava. Aí piscava de novo, forte. De repente, sabe.
Diante dos meus olhos, incansável, a observava indo e vindo. Fechava as
pálpebras, sentada confortável no banco de trás, e sentia que o mundo cintilava
ali de fora para dentro de mim. Encostada na porta, o rosto no vidro frio,
sonhando acordada com os detalhes daquela noite com a Mia. Um segundo, e eu
estava de novo contra a parede do banheiro; os ladrilhos de um lado e ela do outro. O meu corpo latejava
junto com o sinal; as luzes amarelas, piscando. Numa memória sensorial.
O carro andou, mas meu pensamento não se movia. Sempre que saía da
casa da Mia parecia que a minha mente não queria deixá-la – ficava voltando. Podia
vê-la agora, descendo na minha frente, se curvando no fundo da minha
imaginação. Viramos a esquina e os lábios dela encostaram na minha barriga.
Senti um arrepio. Abri os olhos e vi a cidade se mover do outro lado do vidro; de
repente, mais um beijo.
Podia senti-la como se estivesse ali, comigo – mas continuava sozinha.
O táxi seguia pelas ruas escuras de São Paulo, nenhum ruído lá fora ou aqui; os nossos sons contra as
paredes do banheiro enchiam os meus ouvidos, a minha cabeça. E eu divagava.
Mais uma esquina, mais um beijo; a língua dela corria do meu umbigo até mais...
mais embaixo. Suspirei, com a ponta do dedo entre os lábios. E me ajeitei no
banco, desconsertada. Os olhos da Mia me observavam entre as minhas pernas... me abaixei e a beijei; o seu gosto
voltou à minha boca. Mais uma esquina, mais um beijo.
As suas mãos seguravam o meu rosto perto do seu; sentia os meus
joelhos contra o piso frio, abri os olhos. Reconheci a Augusta. Estamos chegando. Os meus dedos
escorregavam por entre as coxas dela; ainda a quarteirões de casa. Minha mão percorreu
meu pescoço até uma mancha escondida na lateral – a tocando, quase podia sentir
a Mia me machucando. Mais um semáforo e minhas pernas se apertavam entre si,
com saudade da sua boca. Dos seus dentes, da sua língua na minha pele. A rua
continuava cinza, desabitada. E eu sorri. Lembrando de cada palavra, cada
movimento, por menor que fosse. Cada segundo. Eu queria mais. Desesperadamente
mais – daquilo, de noites como aquela, de tudo. Dela. Era sempre ela. Logo, no entanto, se acabaram as esquinas – e
se acabaram, também, os beijos.
_Pode encostar aqui, vou descer ali perto do... – pedi ao taxista, apontando um bar cujo nome não me recordava, desistindo de dizê-lo.
Contei os reais no meu bolso e enfiei o troco atrás da calça ao
sair. Entrei no boteco e pedi um maço de cigarros para o dia seguinte – tinha esvaziado
o meu com a Mia, horas antes. Por que
sexo é diretamente proporcional à nicotina? Saí novamente na calçada, puxando
um dos cigarros para fora do maço, e esperei para atravessar a rua. Coloquei o
filtro na boca, conforme passava pela linha desenhada no asfalto, entre as duas
faixas. Um carro vinha, bem ao longe, sem riscos.
Cheguei ao outro lado já acendendo o cigarro e guardei o isqueiro
mais uma vez no bolso, enquanto caminhava em direção à Frei Caneca. A noite
estava nublada, mas agradável, de um jeito bem paulistano. Um bêbado qualquer
mexeu comigo – alguma cantada cretina – e eu o ignorei. Segui andando. Virei a
esquina em direção ao meu prédio, sem vontade alguma de que aquela noite
acabasse, ainda que já estivesse caindo de sono.
Quando entrei no apartamento já eram mais de quatro da
manhã. E assim que me enfiei na cama, exausta, senti uma vontade imediata de
falar com a Mia. Antes que percebesse, os toques sucessivos da chamada ao telefone
começaram a cortar o silêncio do meu quarto – ecoando como vibrações
indiferentes na minha mente vazia, que sequer se deu conta do que estava
fazendo. Acompanhava lentamente a borda da cama com a ponta do dedo, sentindo a
textura do lençol. E não me dei conta de que a Mia poderia, de fato, atender.
_Alô?! – sua voz sonolenta surgiu do outro lado da linha.
_... – arregalei os olhos, caindo na real, tentando atrapalhadamente entender que eu realmente tinha ligado para ela.
_Alô?! Você... – a Mia insistiu, baixinho – ...tá aí?
_Ahm. Oi?
_Hum... – ela pareceu respirar fundo, como se já estivesse quase dormindo – ...oi.
_Oi – repeti e apertei os olhos imediatamente, arrependida, assim que percebi que aquele era o terceiro “oi” de uma conversa de cinco segundos.
_Tá tudo bem? – perguntou, lenta e feliz – Aconteceu alguma coisa?
_Tá... não... e-eu só... – me enrolei para me justificar – e-eu... não sei, na verdade. Desculpa, não pensei direito... – ri, brevemente – ...não sei por que liguei.
_Ahm... – ouvia ela rir do outro lado – ...sei.
_Muito ridículo dizer que eu já tava pensando em você?
_Um pouco... – ela riu, de novo.
Sorri, sem lhe dizer nada.
_Onde cê tá?
_Em casa já... – continuei, com a cabeça apoiada no travesseiro e falando tranquila – ...sabe, você me deve um maço.
_Devo? – ela achou graça.
_Sim. Com juros.
_Hmm... – a ouvia, como se ela fosse adormecer a qualquer momento – ...p-pode deixar que vou pagar.
_Oi? – perguntei, sem entender a última parte.
_Oi...
_Oi – eu ri.
_Pode encostar aqui, vou descer ali perto do... – pedi ao taxista, apontando um bar cujo nome não me recordava, desistindo de dizê-lo.
_... – arregalei os olhos, caindo na real, tentando atrapalhadamente entender que eu realmente tinha ligado para ela.
_Alô?! Você... – a Mia insistiu, baixinho – ...tá aí?
_Ahm. Oi?
_Hum... – ela pareceu respirar fundo, como se já estivesse quase dormindo – ...oi.
_Oi – repeti e apertei os olhos imediatamente, arrependida, assim que percebi que aquele era o terceiro “oi” de uma conversa de cinco segundos.
_Tá tudo bem? – perguntou, lenta e feliz – Aconteceu alguma coisa?
_Tá... não... e-eu só... – me enrolei para me justificar – e-eu... não sei, na verdade. Desculpa, não pensei direito... – ri, brevemente – ...não sei por que liguei.
_Ahm... – ouvia ela rir do outro lado – ...sei.
_Muito ridículo dizer que eu já tava pensando em você?
_Um pouco... – ela riu, de novo.
_Em casa já... – continuei, com a cabeça apoiada no travesseiro e falando tranquila – ...sabe, você me deve um maço.
_Devo? – ela achou graça.
_Sim. Com juros.
_Hmm... – a ouvia, como se ela fosse adormecer a qualquer momento – ...p-pode deixar que vou pagar.
_Oi? – perguntei, sem entender a última parte.
_Oi...
_Oi – eu ri.
37 comentários:
Esse blog é viciante,quero sempre mais..rss
ai, meu deus..
essa hora, esse calor... essas coisas.
"Porque o sexo é diretamente proporcional à nicotina?" - isso que eu sempre me perguntei usahusah'
pra variar, mais um post genial. sério, ainda vou surtar lendo o que tu escreve Mel *-*
Pra mim é proporcional as unhas.. Pqp não consigo parar de roer :(
Bom..bom o post!
Gosteeei ! Vai ter mais? :) porfavoooor
Fico todo dia na espera de mais, mais e mais, viciei ! *--* Amo esse blog! (:
Vai, siiim... Provavelmente amanhã! ♥ Muito obrigada pelos comentários e pela paciência, lindas(os)!
Eu que agradeço pelo post, lindaa !
Tem gnt bisbilhotando a vida dos outros pra escrever seus post né?! Mel querida ficou ótimo o post de hoje. Esse jeito q vc escreve meio sensual não ao ponto de ser erótico, mas o que o erotismo fica só na nossa cabeça, fascina qualquer um. Parabéns
Acho fantástica a maneira como tu descreves os sentimentos da FM e eu queria muito um postzinho especial onde a Mia narrasse pra que pudéssemos ver a história com o ponto de vista dela.
Elas são duas lindas, mas felicidade assim nunca dura tanto, né? Vamo ver...
=*
Adoro quando o post vem assim, cheio de detalhes *.*
PARABÉNS pelo post, talento, criatividade...
Bj
Com tanta frase linda fica dificil escolher qual eu vou tatuar
nossa, delícia, q detalhes...
amei..
Adoooro!!!
Nuss...
Que feio, jogando lixo no chão.
FM é minimamente responsável pelos alagamentos paulistanos.
=P
Ca-ra-lho!
a Cogumela falou o que eu ia falar!a FM SEMPRE joga cigarros ou o plastiquinho no chão. feio, feio. sabemos que ela tem como desculpa uma quase-licença-poética, mas continua sendo feio. mas, de qualquer forma, post delicioso. até daqui a pouco ;*
Mel, seu sobrenome é perfeição!
Poxa Mel... a cada "episódio" isso se torna mais viciante...
o Fucking Mia deveria virar um seriado... #FIKDIK...
ai gente, preciso parar de atualizar isso aqui toda hora, fico nervosa
hahahahaha
ta demais, mel, sério!
beijo
Ontem fui no show do D2 e eu lembrei da nossa autora hahaha. Só eu e uma amiga sabíamos cantar ELA DISSE, aeae \o/. Balanço de amor é assim... ;)
Só uma coisa: Apaixonada por 'Flashbacks Urbanos'.
Fim.
Valeu a pena esperar. =)
não entendo pq vc não coloca comentários no Oh baby. ou tem e eu não sei? :O whatever, entendi tudo agora. não precisa agradecer, viu? a piscina já foi o suficiente, hahahahaha! brincadeira. MESMO! imensamente lindo o post do beijo, meu. tão perfeito quanto o vídeo, cada qual na sua perfeita inocência.
besos e até qualquer dia ;*
Não tem, flor! :(
E não coloco por um motivo meio infantil: não tem muitos acessos no "Oh Baby, Coffee!" e acho desmotivante a falta de comentários em blogs.
Portanto, prefiro postar lá como se estivesse escrevendo só para mim mesma ou para as pessoas a quem se referem os posts...
Mas claro que preciso te agradecer, meu!! hahahaha Tirando eu e a dona musa inspiradora, você foi a maior colaboradora desse último! O que eu faria sem você? ♥ hahaha
Buenas... Considere o post de lá comentado (aqui). Obrigada, fofa! Até amanhã!!
Beijos!
;*
ps. E, PESSOAL, AGUARDEM UM POST AQUI NO FUCKING MIA AINDA HOJE... TÔ ESCREVENDO. ;)
apologia a drogas, cigarro e bebida, bem bonito :P
E sexo, né... que absurdo. ;)
e promiscuidade... como pude eskecer hahaha
alguem enganou a gente dizendo q postaria hoje Oo
Sem esquecer os palavrões e a homossexualidade, claro. ;) hahahahaha
E não enganei, eu bem tentei! Ontem, até bem de noitinha, mas não estava fluindo de jeito nenhum... retomei o post agora, vamos ver se sai! ;*
eiii.. homossexualidade e palavrões são assuntos liberados pq m envolvem (H)
a intenção foi boa, mas eu não dormi esperando por ele =/
#pegadinhadomalandro, eu ñ dormi, pq ñ dormi, mas fikei esperando
Os posts viraram semanais, quinzenais ou mensais? Quanta demora em postar.
Ai ai realmente não podemos esquecer do sexo e homossexualidade *-* HAHAHAH
Marina, nesse caso... Preciso justificar que acho a liberdade de fumar, beber, consumir e dormir com quem quiser tão bonita quanto a homossexualidade e palavrões. Apesar de não fazer muitas das coisas que aparecem no blog, coloco todas essas categorias no mesmo nível, porque acho lindo mesmo o livre-arbítrio. E porque o que o conceito do que é um modo de vida "correto" me incomoda um pouco :)
Aiiin, desculpa se te deixei esperando :( o post novo acaba de entrar, espero que goste! :) :)
E, anônimo, a freqüência das postagens sempre foi de acordo com a minha inspiração e disponibilidade para escrever. Não leve a mal... please. :)
Obrigada a todos que leram/comentaram ♥
( the girl fucking Mia ) levo a mal não. É que ficar determinado tempo sem ler tua história se torna um martírio p/ mim. Afinal, é foda!
Mas de boa, valeu. Vou tentar ser mais paciente. ;)
Aww, que fofa(o)! ♥
Vou tentar postar mais também... sorry :/
Ihhhhhhhhhh eu jah vi essa história, janeiro no ano passado vc postou 30epokos posts em janeiro (se ñ m engano). Deixei acumular, passei um tepinho lendo td =P
( the girl fucking Mia ) é fofa tá.
Façamos o que dissemos então, eu tento ser paciente e tu postar mais. Quites!
Beijão..
Postar um comentário