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janeiro 02, 2011

Contemplação

Conforme se inclinava, as mechas do seu cabelo deslizavam pela blusa, caindo no espaço vazio frente ao seu colo, suspensas no ar. O vento estava leve, nós estávamos alto o bastante. Os fios escorregavam em contraste pela lateral do seu rosto pálido, delicado, as bochechas rosadas. Os seus olhos vagavam pelo céu nublado de São Paulo, imersos numa noite quase fria. Castanhos e amendoados. Ah, eu gostava de olhá-la. De admirar. E talvez tenha me acostumado com tal condição – essa passividade minha perante a Mia (vez forçada, vez não) esteve presente desde que nos conhecemos. Eram as nossas eternas preliminares, sempre deliciosamente insuportáveis; alimento constante para a minha imaginação. Hum. 

Ela havia passado com o táxi na Vila Madalena – na volta da casa do seu irmão –, me buscado pouco depois das 18h no trabalho, e agora dividíamos a companhia uma da outra na varanda do seu apartamento, em silêncio. Eu, sentada no chão, encostada em uma das laterais; e ela, apoiada na beirada, em pé a menos de um metro de mim. Ninguém em casa além de nós – por enquanto, pelo menos. E os únicos sons que chegavam até a altura que estávamos da rua eram as falas irrelevantes de uma novela qualquer que passava na televisão da sala e os ruídos mais altos da cidade. Segundo ela, cinco minutos mal-aproveitados não contavam como ver-me; então pedira mais.

No caminho até lá, sentadas no banco de trás do táxi, eu lhe contei todo o rolo da Marina – após ser questionada, claro, por que diabos eu estava dormindo quando recebi a sua mensagem, lá pelas 19h, no dia anterior. Fiz questão, então, de mencionar a tal da Beatriz antes que “é que passei a noite de domingo em claro na casa da minha ex-namorada” transformasse uma piadinha interna infeliz iniciada pelo fernando-maria-do-bairro em ciúme mais do que justificado. Com os dedos da mão esquerda entrelaçados nos meus da direita, a Mia ouviu, intrigada, enquanto eu falava do meu namoro com a Marina – e omitia o número exato de traições –, perguntando sempre mais a respeito a cada vez que eu tentava voltar o foco para o relacionamento dela com a Bia.

Desde que chegamos lá na varanda, contudo, ela parecia pensar mais do que realmente querer falar e eu não me opunha, gostava de vê-la assim, perto. Acendi um cigarro, calmamente, e traguei duas ou três vezes, colocando o maço e o isqueiro empilhados no chão, ao meu lado. Ainda com os cotovelos apoiados sobre a beirada, a Mia retirou um elástico preto preso no seu pulso direito e começou a rodá-lo entre dois dedos opostos, brincando distraída. Do nada, porém, pouco tempo depois, começou a falar e a sua voz se misturou suavemente com o resto da noite.

_Falei com o Fê hoje, depois que te vi... – ela seguiu, sem me olhar, observando o elástico nos seus dedos – ...acho que, no final, você estava certa.
_Sobre o que?
_Tudo. Que ele tinha razão e a gente, não. Que ele gosta de verdade... de mim. A gente conversou hoje; quer dizer, só um pouco, não muito. Eu... eu gosto dele também, sabe. Gosto mesmo. Não sei... – ela piscou demoradamente, depois reabriu os olhos e continuou observando as suas mãos com o elástico – ...a gente vai se ver amanhã, conversar direito, sei lá.
_Hum... – traguei o cigarro mais uma vez, incomodada, fingindo não me importar.

Ela não me olhou, nem por um segundo. Ficamos em silêncio, de novo, pelos minutos seguintes. Assim como antes, contudo eu já não a olhava mais. Minha mente se esvaziou por um momento e eu observava, agora, a fumaça que saía da brasa de tons vermelho-alaranjados, queimando diante dos meus olhos. Então, num gesto menos fluido que os anteriores – suficiente para re-atrair minha atenção –, a Mia colocou o elástico novamente ao redor do pulso e virou-se de costas para a beirada. Deu um passo e sentou-se ao meu lado, também apoiando as costas nas grades da sacada, sem me dizer nada. Depois roubou o cigarro da minha mão e tragou-o, enquanto eu a encarava.

_Mia...

Eu a chamei, quase sem querer, discretamente. E ela ficou quieta, numa pausa de segundos, que pareceu durar uma eternidade. Depois deslizou inesperadamente a mão livre, enquanto a outra se ocupava com o cigarro, e segurou a minha. Aí as observou, conforme acariciava as costas da minha mão com o seu polegar. O que você está pensando aí, hein? Mas ela não me respondia, compenetrada. Por um breve instante, não sei, pareceu se entristecer. Ei, garota... relaxa, vai dar tudo certo. Então piscou, como se acordasse de si mesma, e só aí deu uma segunda tragada, me passando o cigarro de volta enquanto soltava a fumaça para cima.

_Você está com fome? – perguntou, de repente, me olhando.
_Sempre, né... – eu ri, achando graça nela.

24 comentários:

francielli# disse...

esse silêncio aii tá querendo mais ação rsrsrsr

cigarrosdebaunilha disse...

E o prêmio de coisa mais fofa do mundo vai para: MIA

Nhac, que vontade de morder.

'duuda disse...

meel, sério, ficou lindo demais esse post *---*
e a mia confusa com o fer e a FM, aiin tadinha ><

tomara que o proximo venha logo, essa história é muito viciante, nossa!

beijo!

Monica disse...

fikey triste...

jah passei por isso.

=/

Anônimo disse...

Muito bom o post !
fernando-maria-do-bairro HAHAHAHAHAAHAHAH

R. disse...

Espero que a mia nao esteja pensando em fazer oq eu acho q ela ta :/

Eu nao quero nem que o fer, nem que a FM sofram (apesar de saber que isso é impossivel eu continuo nao querendo :p)

E a praia è maldosa comigo, nao consigo ser a primeira a comentar, mas assim q eu voltar pra cidade gde veremos haha.
Bjs Mel.

Deee disse...

Mel, consegui colocar a leitura em dia... ufaaaa. Os posts estão lindos, mto bons mesmo, a história tá se desenrolando daquele jeito goxxxxtoso de sempre e trazendo elementos novos mto bacanas como o possível remember entre Marina e FM; que será ótimo; pra alimentar a insegurança da Mia pois ela tá numa situação confortável demais por saber que a FM a ama e tals... me identifico mto com esse drama q elas vivem de ñ poderem ficar juntas pro causa do Fer, é tão difícl amar alguém, esse amor ser recíproco e tu ñ poder ficar definitivamente com a pessoa q tu ama por um motivo qlqr q seja... é bom estar junto, aproveitar, viver e tornar inesquecíveis todos os momentos juntos, mas a despedida é tão angustiante, difícil, doída e um pouco destruídora... faz teu ❤ em pedaços meeeeesmo. Que em 2011 as pessoas abram a cabeça, percebam que preconteito é uma chaga social que só trará ao mundo infelicidade e que todas as pessoas que se amam possam ficar juntas definitivamente. Mel, Nonô... feliz ano novo pra vcs, tudo de bom, saúde, amor, trabalho, sucesso, $$, girls e vida longa ao blog.

Jamile disse...

fernando-maria-do-bairro UEAHUHUHHEHEHUEHUAHUHUEHUHE ri muito.

aaai e esses silêncios que dizem tudo heim

'duuda disse...

e, realmente, não posso deixar de manifestar que o 'fernando-maria-do-bairro' foi simplesmente demais!
HAHAHAHAHAHAHAHA

Anônimo disse...

Será que a Mia tá qrendo pular foraaa ?! õ.Ô

Clara disse...

Ai, lindas! Adorei o post, viajei bastante nas descrições... Na verdade é sempre assim, né.

Ma disse...

Gente. MORRO♥. Olha esse primeiro parágrafo! AI. *-*
Meu. Muito foda! Parabéns, parabéns! (:

Dea disse...

eu ficaria trinta e oito dias seguidos lendo esses posts, Mel... ai ai *suspira*

vamos nos ver essa semana? tenho muita coisa pra escutar! ou esses papos só rolam pelo Skype? hahaha!

besos ;*

Anônimo disse...

Sou team Marina, mas acho a Mia uma fofa! *-*

noticias disse...

Como sempre esses posts me fazendo viajar sempre. Foda demais *.*

Carime disse...

aah não.. assim até eu fico louca.. essa Mia!

Anônimo disse...

So qro saber onde o Fer passou a noite? Se ele chegar contando pra FM q traiu a Mia "vamos supor" a FM vai contar pra Mia? Ficou um misterio no ar sobre o Fer,TA Muiiitooo bommm bjosss ASS Mélori

Gabriela disse...

Momentos assim,em que a gente só fica olhando e pega não sabe?!
São os momentos que a gente guarda mais.
Suave.

Pathy disse...

Ô Coisa Boa, a Mia Lindonah Voltou p/ os posts!! hauhuahua
Tem dias que eu amo a mia tem dias que eu a acho uma filha-da-puta do caralho!! Não sei onde vai parar esse meu romance de amor e ódio!! ahauhauahuah
TeamMiaeFM!! ♥
Ela precisava ter mencionado o Fer?! hauhauhauha
Deixa rolar Bebe!! ;)

Bee disse...

ai ai (suspiro)... adoro ler essa história... como já te disse no twitter (e acho que não se lembra), sou sua fã, Mel! =)
esperando pela "comida" (ui) das duas, haha!
=*

Loop. disse...

Cara, descobri o FM um dia desse, e ja botei a leitura em dia :D
Muito bom o jeito como tu escreve, Mel.PARABÉNS, serio msm!

Isa Gratão disse...

Mel uma sugestão: Porteiro do predio da Mia sempre ver a protagonista nesse entra e sai. E ele podia saber q o Fer é o namorado da Mia. Acho q poderia meio que uma 'confissão' da parte do porteiro pro Fer. Entende o q eu quero dizer?

Andrea de Lima disse...

gostei da idéia da Isa Gratão!

Anônimo disse...

ah mto bom pra começar o ano =)

espero que a praia te inspire