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janeiro 23, 2010

A Festa 3

Tranquei a porta do banheiro atrás de nós e o barulho da festa se tornou abafado. Estava escuro ali dentro. As luzes do lado de fora passavam por uma frestinha no batente e a Mia encostou numa das paredes, me olhando atentamente. Caralho, senti o meu coração subindo pela garganta, é agora. As minhas mãos tremiam e ela não tirava os olhos de mim, meu deus. Estava nervosa, ela também. Conscientes demais do que estava prestes a acontecer. Suspirei e dei um passo em sua direção, ela hesitou:
 
_S-só porque eu te falei aquilo, n-não quer dizer que...
 
Me aproximei do seu corpo, a interrompendo.
 
_É só você me pedir, Mia... – encostei a testa suavemente na sua, fechando os olhos – ...que eu paro.
 
Podia sentir a sua respiração, a milímetros de distância de mim. O meu braço tocou o seu sutilmente, deslizando os dedos sobre a sua pele. E senti a minha ansiedade sumir, aos poucos. Todas as dúvidas e as nossas conversas e as brigas e a Clara e a festa, de repente, sumiram. Abri os meus olhos e os dela me olhavam de volta, aqueles olhos castanhos grandes. Tão perto que bastou um movimento na sua direção.
 
A beijei.
 
Contra a parede – puta que pariu.
 
Aquele, sim, era um beijo bem diferente do nosso primeiro. Era o beijo com o qual eu tinha sonhado um milhão de vezes. Nos encaixamos. A sua língua encostou na minha e eu perdi a força no corpo inteiro, numa vontade desnorteante de não desgrudar minha boca da sua até a festa acabar do lado de fora. Meu deus, essa garota. Agora fazia sentido. Todas as babaquices românticas que passei a vida ridicularizando, de repente, faziam sentido. Nunca nada foi assim, tão gostoso. Tão nosso. Mas eu sabia que tinha que ir com calma – as mãos dela não se moviam, coladas contra os ladrilhos. Soltei a sua boca, como quem volta à superfície para respirar. Dei um passo para trás, tentando recuperar o fôlego a cabeça os batimentos cardíacos. E a Mia tirou a franja do rosto, a segurando em cima da cabeça por um instante.
 
“Caralho”, sussurrou.
 
E nos contemplamos por um breve momento. Ela mordia a boca, processando o que acabara de acontecer, mas sem desviar o olhar do meu. Senti meu estômago congelar, em que merda estamos nos metendo, garota? E foi quando um sorriso escapou, escondido, no canto da sua boca. Movi na sua direção, na mesma hora – colocando o braço ao redor da sua cintura, a puxando para mim. A pressionei na parede e a Mia segurou o meu rosto com ambas as mãos, me beijando de volta. E aí, sim, os beijos de verdade começaram.
 
Que se foda o autocontrole. Desci as mãos para as suas coxas, afundando os dedos na sua pele. A Mia me segurava pela nuca, me trazendo para perto dela, entrelaçando os dedos no meu cabelo nuns amassos, assim, de foder a cabeça. Meu deus. Acho que nunca segurei uma mulher com tanta vontade. 

janeiro 22, 2010

A Festa 2

Horas depois e a festa estava sendo um sucesso – no sentido mais depreciativo e imoral da palavra. Toda alma paulistana que não estivesse bebendo, conversando, fodendo ou dançando no nosso apartamento naquele sábado à noite estava, com certeza, arrependida. E todos os meus vizinhos encontravam-se declaradamente furiosos. Que se foda. Eu estava me divertindo, por fim, e a multa certamente não ultrapassaria o limite do impagável – eu e o Fernando tínhamos um fundo mensal reservado só para as advertências do prédio.
 
As duas doses iniciais de tequilas passaram por mim quase despercebidas e o rum não fez nem cócegas. Foi só quando eu cheguei no whisky que a minha cabeça começou a me enviar sinais reais, latejantes, de que eu ia ficar muito louca. Não era minha culpa: algum santo trouxe Jameson para a festa e eu simplesmente não podia resistir àquela garrafinha verde. God bless the irish. Sentamos, eu e o irlandês, num canto espremido do sofá. Ao meu lado, estava o Gui e mais umas dez pessoas amontoadas.
 
Lá fiquei por um tempo, entre um gole e outro, escutando o meu amigo incalável discursar sobre a noite em que o deixei sozinho no Vegas e todas as suas peripécias sexuais com o DJ misterioso. Eu não queria saber metade. Tudo me soava extremamente exagerado e fora de proporção, mas assim era o Guilherme.
 
_...ai, enfim, tô apaixonado.
_Ah, jura? – eu levantei a sobrancelha e comecei a rir.
 
O Gui era um romântico incurável com um problema de foco. E de fidelidade – diga-se de passagem. Raramente tinha o seu coração partido, era sempre o primeiro do casal a cair de amores por um outro cara qualquer e seguir a sua nova “paixão verdadeira” até a cama. Os seus novos sentimentos o mantinham entretido e os seus exs, coitados, acabavam sozinhos. Sempre um passo atrás dele.
 
No auge dos meus 20 e poucos, eu poderia facilmente me identificar com o Gui. Exceto pela parte de me apaixonar tão efusivamente – desde que me conheço por gente, insisto em reservar o meu coração para raras e muito mal escolhidas ocasiões. Sendo assim, lances como o que rolou entre a Clara e eu eram muito mais comuns na situação inversa. E isso divertia o Gui:
 
_Agora você saaaaabe como toda a sua hortinha se seeeente quando você resolve ir regar outra florziiiiinha mais interessante... – debochou, quase cantarolando.
_Cala a boca. Ela não era mais interessante!
_Ui. Alguém está bravinha...
_Não tô nada! – contestei, já consideravelmente bêbada, levantando o indicador na direção do Gui – E a Clara é uma idiota. Todas são – esbravejei, amarga – Não tem nada que preste em porra de horta nenhuma nessa cidade e eu já tô de saco cheio de comer sempre a, a mesma...
_Planta?
_É.
 
O Gui se divertia com o meu azedume alcoolizado. Eu estava completamente fora de mim.
 
_E o que você vai fazer então? Passar fome? – me zombou.
_Ah, não mesmo...
 
Respondi, olhando fixamente para a Mia. Ela conversava em pé a alguns metros do sofá, absolutamente maravilhosa. O Gui olhou na direção dela e depois para mim, rapidamente dando-se conta das minhas intenções.
 
_Cê não pode realmente tá pensando nisso!
_Ah, tô...
_Cê tá muito louca, bicha – o Gui questionou, ao perceber o que se passava pela minha cabeça – PERDEU O JUÍZO?!
_Não, não perdi... Aí que cê se engana! – argumentei, afundada no sofá – As coisas finalmente começaram a se encaixar, gato... Tudo o que eu sentia por ela, toda aquela confusão, de repente faz sentido.
_Mas isso é... v-você não... você... v-você olha lá, meu, presta atenção, porque...
_Não quero nem saber – prossegui, bebendo mais um pouco do whisky já quase esquecido na minha mão, e olhei para o Gui, confiante – Hoje, ela é minha.
_Amada! – ele se indignou e riu, como se eu estivesse prestes a cometer uma loucura – Essa é justamente a questão: ela NÃO é sua. E VOCÊ SABE DISSO!
_Ah, mas vai ser... – garanti, sem tirar os olhos da Mia, e me levantei do sofá.
_Pelo amor de deus, senta!
 
Ignorei-o. Aquela conversa havia deixado muito claro para mim o que precisava ser feito – o exato oposto do que o Gui disse. Estava decidida a botar o meu plano em prática. Então, sem pensar duas vezes, andei em direção à Mia – me aproximando por trás dela.
 
_Vem comigo – pedi, a pegando pela mão.
 
E ela me seguiu.

janeiro 21, 2010

A Festa 1

“Laaast niiiiiight, she saaaaid… 
Ohh, baby, don’t feel so dooown!”
 
Os gritos do Casablancas no rádio atravessavam a porta e o meu quarto inteiro, enquanto eu corria enlouquecida de um lado ao outro. Todos os meus amigos indiscretos e barulhentos anunciavam aos berros a sua chegada ao meu apartamento – um por um – e eu ainda não havia colocado uma maldita roupa.
 
Todo o meu plano de “tô nem aí pro que vou vestir” havia ido por água abaixo graças à recente confissão da Mia. Ainda não havia processado direito a informação a mim sussurrada, explodindo de felicidade e medo e ansiedade e nervosismo e alegria e impaciência e... enfim. Estava surtando. O Fer batia na porta de cinco em cinco minutos, avisando que a festa estava começando sem mim – como se não fosse possível ouvi-los a cinco quadras dali – e eu garantia repetidamente que já estava saindo.
 
Inferno, inferno, inferno. A esta altura, ele provavelmente estava pensando que a minha demora era alguma forma de sabotagem – mas não era. Não desta vez. O fato é que eu continuava seminua e mergulhada no meu armário, sem saber o que vestir. Num estado catatônico demais para pensar. Diabos. Após incontáveis surtos e quarenta minutos depois, finalmente eu estava pronta. E a minha saída do quarto agravou mais ainda o volume da festa.
 
Aquilo era o caos absoluto – percorri o nosso modesto apartamento, tropeçando pelas latinhas vazias que se acumulavam no chão, cumprimentando quase todo mundo que via. Imersa numa marofa desgraçada. Os meus ouvidos estavam estourando de tão alta que estava a música. Só depois de algum tempo encontrei a Mia, em meio à confusão na cozinha, conversando com um amigo do Fer. Tentei chegar perto assim que a avistei, mas fui interrompida por 1.57m de águas passadas bloqueando o meu caminho – era a Aninha. Quem foi o imbecil que convidou ela?
 
Eu vou matar o Fernando.
 
_Nossa, parece que a gente não se vê há anos... Você sumiu! – ela se jogou na minha direção, mentindo descaradamente; foi ela quem desapareceu um ano antes para voltar com a ex, mas tá.
_Pois é... – respondi, sem tirar os olhos da Mia e tentando escapar dali.
_E você não vai me cumprimentar, não?
 
Voltei meus olhos para ela e a vi ali, parada na minha frente à espera de alguma atitude minha. Que saco. Suspirei, sem paciência, e lhe dei um beijo amigável no rosto. Querendo sair o quanto antes da sua vista e do alcance das suas mãos. Assim que desgrudei do seu rosto, ela me olhou desapontada. E eu a ignorei, desviando dela para seguir o meu caminho.
 
_Olha... – ela me puxou pela mão, sugestiva, e eu me virei novamente em sua direção – Se você quiser, mais tarde talvez a gente podia...
_Claro – respondi com indiferença, a interrompendo.
 
Tornei a olhar para onde a Mia estava, mas ela havia deixado o amigo do Fer sozinho. Comecei xingar a droga da Ana Luiza na minha cabeça e o resto do mundo todo. Caralho, viu. Então me dirigi à geladeira – uma dose era a minha segunda melhor opção ali, calculei. Uma vez que a primeira passou pela porta atrás de mim sem que eu sequer percebesse.

janeiro 19, 2010

Como é?

Foi tudo muito rápido – antes que eu conseguisse formular qualquer resposta, o Fer a chamou novamente, já irritado. Ela olhou para o corredor e depois para mim, mas eu ainda não conseguia me mover, pega de surpresa. Todas as palavras sumiram da minha boca. “D-desculpa”, ela murmurou então e saiu, às pressas. Fiquei olhando para a porta, sem reação. Pude ouvi-los deixando o apartamento e em seguida veio o silêncio. Deitei o corpo novamente no colchão e passei as mãos no rosto.
 
Meu deus, suspirei.

janeiro 18, 2010

Segredos cochichados

Contra a minha vontade, o sábado chegou. Podia ouvir meu estimado colega de apartamento arrastando móveis de uma ponta a outra da nossa humilde residência. Aquilo me irritava, claro, já que eu andava bancando a intratável.
 
Permaneci a manhã toda enfurnada no meu quarto, deitada de barriga para cima na cama por tempo suficiente para ser capaz de listar cada rachadura mínima existente na minha parede. Estava me comportando como um vegetal na fossa amorosa. Era patético. A ideia da festa até começava a me agradar, mas meu orgulho me impedia de mover um músculo sequer para ajudar nos preparativos. Insistentemente, o Fer ia e vinha no meu quarto, na tentativa de me fazer levantar.
 
_Não, tô bem aqui – respondia – Tô pensando no que vou usar à noite.
 
Mentira. Não tava nem aí para o que ia vestir na festa. Só queria me divertir – coisa que não fazia há dias –, só não queria ter que admitir isso para o Fer. Então continuava ali, toda ridícula, deitada sozinha. E foi quando a Mia abriu a porta. Do nada, após uma breve batida, receosa, como se esperasse me encontrar dormindo. Olhei para ela e ela disse que “o Fê falou pra avisar” que estavam indo no supermercado comprar bebida pra festa – o que me soou como um telefone sem fio desnecessário. Acenei sem prestar muita atenção, murmurando qualquer coisa, e voltei a encostar a cabeça no colchão.
 
Só que...
 
Não ouvi a porta batendo.
 
Subi novamente o olhar e a Mia continuava lá, apoiada no batente.
 
_E-eu preciso... – ela falou, baixinho – ...te d-dizer uma coisa.
 
Nisso, o Fer a chamou da sala. A acelerava para saírem logo. A Mia gritou de volta, pedindo que esperasse, que já estava indo. Ele respondeu qualquer coisa – que não consegui identificar – e ela se virou de novo na minha direção. Hesitou.
 
_E-eu... – fez uma pausa – ...t-também menti para você.
_Como assim?
_Sobre o, o beijo, e-eu... – murmurou e eu levantei um pouco o corpo, procurando entender o que tava querendo dizer – ...eu quis que você me beijasse.

Ah não, festa

A sexta-feira foi estranha. Não ruim em si, como foram todos os outros dias, mas... estranha. Não sei. Na volta do trabalho, a noite caiu quente e tediosa. Decidi ficar em casa. E lá pelas tantas, o Fer interrompeu uma tentativa quase suicida de me afogar em rum na cozinha, plantada pateticamente em pé ao lado da geladeira, para fazer um anúncio. Vejam bem, não foi uma proposta – foi um anúncio.
 
_Vamos dar uma festa aqui amanhã.
 
Quase engasguei. Ah, mas não mesmo, o olhei com desprezo, indignada. Confiante de que minha expressão facial transmitiria a minha absoluta desaprovação da ideia. Mas ele começou a rir. E no instante seguinte, a Mia entrou, se pondo a ouvir a nossa conversa.
 
_Não adianta fazer essa cara, ô Pequeno Raio de Sol, já chamei todo mundo... – o Fer fez graça – Vamos dar a festa, sim. É por uma boa causa...
_Ah, é? Qual?! Acabar com todo o nosso dinheiro?
_Não – riu – Acabar com a sua agonia.
 
Em outras palavras, me forçar ao entretenimento. Que inferno. Eu não queria me divertir. Mas nem a pau, estava conformada na minha infelicidade momentânea. Por que ele não pode só aceitar isso? Fora que eu não tinha vontade alguma de ver... argh... outras pessoas. Merda. Me voltei para a Mia em busca de qualquer ajuda, mas ela olhava para o Fer com um leve sorriso no rosto.
 
Você também tá metida nessa, aposto.
 
_Vocês dois tão tramando contra mim – reclamei – Eu não quero festa nenhuma, só quero que me deixem em paz.
_Olha, você pode até não querer, mas não tem muita escolha. Você vai ter que se animar e vai ter que ser até amanhã à noite ou sérias providências serão tomadas... – o inconveniente do meu amigo se divertiu – Porque morar com você desse jeito é impossível.
_Deus do céu... Mas essa é a sua solução?? – indaguei – Você não podia simplesmente... sei lá... t-ter me arranjado... tipo... Valium?
_Não, senhora. Contente-se com a sua festa.
 
Não, obrigada, revirei os olhos. E uma vez dado o recado, o Fer deixou a cozinha, provavelmente sorrindo de satisfação a caminho do seu quarto. Mas a Mia ficou. Esperei por alguns segundos, certa de que ela sairia atrás dele, só que ela não se moveu – e aí que ficou estranho. Voltei meus olhos na direção dos seus, sem entender o que ela ainda estava fazendo ali. E nada. Ficou parada ali, me olhando, mexendo numa mecha do seu cabelo.
 
_Cê tá bem? – perguntei, baixinho.
 
Não respondeu. Apenas olhou para o chão por um instante e, depois, voltou a me encarar. A tensão no ar parecia prolongar o tempo. Ficamos um tempo nos olhando em silêncio. Às vezes, ela chegava a abrir a boca, como se estivesse prestes a falar, mas logo desistia. E não dizia nada. Comecei a ficar impaciente.
 
_Cê quer me dizer alguma coisa? – dei mais um gole do rum – Que foi, meu?!
_Nada.
 
Retrucou irritada e saiu. Simplesmente se virou e saiu da cozinha, aquilo me deixou louca.
 
Era só o que me faltava.

Desagradável, sempre

“Pq vc ñ me responde, gata?”.
 
Fiquei olhando para a mensagem por minutos a fio. Não queria mais a Clara na minha vida. E então não respondia – não queria ter que lidar com aquilo, com ela, com nada. Desaparece, por favor, só desaparece. Mas quando reabri os olhos, as suas palavras continuavam na minha frente, me incomodando. Argh.
 
A Clara vinha tentando falar comigo a semana toda, inadvertidamente. E eu ignorando. Por pura falta de respeito – tinha perdido o meu por ela. É. Parte de mim talvez esperasse que fosse se cansar e simplesmente parar de me ligar. Não queria começar uma briga, me desgastar, enfrentar o quanto gostava dela, me irritar de novo. Só queria que sumisse. Mas não te dei motivo, não é, garota?, raciocinei. E após quase uma hora de hesitação, decidi enfrentar o que há várias madrugadas eu procurava evitar – “fui no vegas quarta passada e te vi la, perdi o interesse”, digitei.
 
Não via motivo para me estender. E talvez a Clara lotasse minha caixa de entrada com justificativas, mas eu não ligava mais. Deleto tudo amanhã de manhã, decidi, com pressa de a cortar da minha vida. Não queria ouvir. A Clara tinha perdido esse direito. Desliguei o som do celular e afundei a cabeça no travesseiro, me virando para dormir. Chega.
 
Na manhã seguinte, levantei atrasada. Depois de uma noite inquieta, mal dormida. Era quinta-feira – o que me soava como uma grande merda. Coloquei qualquer regata no corpo, subi meu jeans surrado pelas pernas e saí do quarto. O mau-humor em pessoa. A real é que, por mais que eu me forçasse a não me importar com aquele rolo todo e com a Clara, ela continuava na minha cabeça. No meu subconsciente, me machucando. Inferno, eu gostava mesmo de você, garota, eu engolia em silêncio, mais solitária do que era capaz de admitir.
 
A minha angústia já se arrastava por dias. E eu vinha tornando minha infelicidade grosseiramente perceptível a todos que ousavam falar comigo ou sequer cruzar o meu caminho. Estava insuportável. Assim que coloquei meus pés na cozinha, dei de cara com a Mia e o Fer sentados à mesa, aproveitando todo o resto do cereal que eu pretendia comer. Fala sério. Amaldiçoei-os mentalmente e agarrei a caixa de um cereal-não-tão-gostoso que havia sobrado na prateleira. Aí me sentei grosseiramente para comer, deixando bem claro a miséria à qual meu café da manhã havia sido reduzido graças a eles. Os dois me olharam, sem entender.
 
Havia certa pena na forma como o Fer andava me observando nos últimos dias, mas ele nem tentava mais me animar. Eu estava intragável. Indesejavelmente, a presença da Mia naquela casa me distraía e a minha raiva era substituída por um desconforto tremendo. Ela sabia que eu gostava dela há dias e, desde então, não disse mais nada na minha direção – num silêncio bizarro entre nós. De novo. Me sentia duplamente idiota. Pra quê fui falar?
 
O café da manhã foi um martírio. Eu olhava para a Mia e ela fingia não me ver, então voltava a encarar o meu prato, o Fer me observava, piedoso, eu percebia e ele desviava o olhar rapidamente, eu olhava para ele e depois para a Mia, ah... Mia, a admirava por um tempo até que ela, enfim, me olhava de volta, aí eu forçava um sorriso discreto e desajeitado e ela imediatamente disfarçava, procurando outra coisa para olhar, droga. Numa dança silenciosa, fadada ao desastre.

janeiro 16, 2010

Fora de controle

_SAI DA MINHA FRENTE, CARALHO!
 
Subi a Rua Augusta transpirando ciúmes por todos os meus poros, trombando em todos os idiotas que ocupavam a calçada. Não conseguia acender um cigarro sequer, estava tão irritada que era capaz de começar uma briga por motivo nenhum. Devia ter falado alguma coisa, e-eu... eu devia ter ido até lá e, e... argh. Inferno. Não conseguia pensar direito, minha cabeça estava cheia. E a imagem da Clara se agarrando com outra insistia em voltar à minha mente.
 
Desgraçada.
 
Eu gostava dela. Realmente gostava. E não conseguia evitar toda aquela, a-aquela angústia entalada na garganta. Vai se foder, mano, resmungava mentalmente a cada passo que dava, me sentindo traída. Como eu sou idiota, uma porra de uma idiota. Aqui, achando que tava tudo bem entre a gente, que ela gostava mesmo de mim. E tá, talvez eu também não tivesse sido exatamente sincera sobre meus sentimentos com a Clara. Ou melhor, até disse a verdade – só omiti o que dizia respeito à Mia. E sabia o quão hipócrita era a minha raiva, mas vê-la com outra garota ali, depois dela passar meia hora reclamando que tinha que arrumar a casa naquela noite, me tirou do sério.
 
Cheguei de volta ao meu prédio nem meia hora depois de sair, num acesso de raiva, me sentindo burra, batendo a porta do apartamento e chutando uma mochila que estava largada em frente à entrada. O Casal 20 estava sentado no sofá, testemunhando o meu comportamento infantil e destrutivo de camarote. O Fer se levantou na mesma hora, nervoso, perguntando por que diabos eu estava chutando tudo e, pelo bem do nosso inevitável convívio, resolvi não responder. Atravessei a sala bufando, ignorando a pergunta.
 
_Mano. QUE PORRA É ESSA??
 
Ele insistiu – e aquilo me irritou ainda mais.
 
_NÃO É DA SUA CONTA, CARALHO!!
_É da minha conta se você vai destruir o nosso apartamento!!
_Quer saber?! Quer saber mesmo??? – eu me virei, prestes a me descontrolar – EU ACABEI DE PEGAR A CLARA PRATICAMENTE DANDO PRA OUTRA MINA NA BALADA! FOI ISSO QUE ACONTECEU, INFERNO!
_E precisa agir que nem criança, velho?! A mina nem era sua namorada!
_FODA-SE! FODA-SE, FERNANDO! NÃO SOU OBRIGADA A GOSTAR!!
_TÁ! MAS TAMBÉM NÃO PRECISA SAIR DESCONTANDO NAS MINHAS COISAS, PORRA!!
_AH, VAI SE FODER, MANO!
 
Entrei no meu quarto, batendo a porta ainda mais forte. E andei de um lado pro outro, impaciente. Filha da puta. Não sabia o que fazer comigo mesma – então sentei na cadeira perto da janela e procurei me acalmar, acendendo um cigarro. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela – repeti para mim mesma, como um mantra. Tentando evitar um barraco. A Clara não é nada. NADA! Ela não é nada!! Eu não preciso dela, não preciso de ninguém. Eu não tenho nada para falar, nada. Dei um trago, nervosa. E soltei a fumaça no ar. Que se foda. Que se foda a Clara. E-eu, eu posso arranjar alguém melhor que ela. Eu não preciso disso. Não preciso que mintam pra mim, não preciso dessa merda. Que se foda! Ela e aquela balada inteira! Que se foda todo mundo!
 
Por mais que eu tentasse me convencer, todavia, de que era melhor estar passando por isso agora do que dali uns meses, mais eu pensava na Clara. E na possibilidade de “meses”. Porra. Por que você foi fazer isso logo agora, garota?
 
A verdade é que eu conseguia perdoar muita coisa, mas não uma mentira tão deslavada assim. Ah, isso não. Na minha cara, porra. Ela podia ter dito que não dava, que não queria, sei lá, que já tinha outros planos. E talvez eu entendesse. Quer dizer, não que fosse gostar – porque a porra da lembrança da sua boca em outra ainda me doía, misturada com todas as coisas que dizíamos uma para outra quando estávamos juntas, enfurnadas no seu quarto, no meu, cacete –, mas entenderia. Entenderia que eu não era a única nos seus planos. Mas aquilo...
 
Não.
 
Não daquele jeito, não assim. Pega de surpresa, feita de trouxa. Isso, não. Minha cabeça repassava todas as vezes em que não estávamos juntas, todas as vezes em que disse que estava ocupada, todas as vezes em poderia ter mentido para mim como agora. E me sentia um nada. Inferno. Foi quando, de repente, a minha confusão foi interrompida pela Mia – que bateu sutilmente na porta.
 
_Vim só ver se você tá bem... – ela disse, baixinho.
_Não quero falar – a cortei.
 
E a Mia ficou quieta ali, me olhando. O silêncio dominou todo o quarto. Parecia genuinamente querer ajudar, mas só a ideia de ter uma conversa dessas com ela como se fôssemos “amigas” agravava mil vezes a situação. Então só continuei fumando sem olhá-la de volta, encarando o chão. Nem um ruído, nada. Absorvida pelos meus pensamentos. Como fui me meter nessa? Mas que merda, senti o meu coração disparar no meu peito. E então sem saber bem o porquê, abri a boca:
 
_Eu menti para você.
_Pra mim? – a Mia estranhou – Sobre o quê??
_Sobre o beijo. Eu sei por que eu fiz aquilo.
_A gente n-não devia falar disso a-agora...
 
Se inquietou – a porta continuava aberta e o Fer estava logo ali na sala, no fim do corredor.
 
_A verdade é que eu quis te beijar, Mia – as palavras simplesmente escaparam da minha boca – A... a Clara não significava porra nenhuma.
_Você só tá falando isso p-porque tá brava com ela – argumentou, confusa.
_Não – a interrompi – Eu gosto de você, porra, e-eu... – continuei, a olhando nos olhos e a forçando a acreditar em mim – ...eu gosto mais do que devia gostar, Mia.
 
Ela deu um passo para trás, hesitante – mas não havia volta. Ela sabia.

O que acontece no Vegas...

Combinamos de nos encontrar na porta às 23h e, sem atrasar quase nada, eu apareci. De bermuda, jaqueta jeans e com uma blusa larga do L7 por baixo, já que ia tocar anos 90 no Vegas. Eu e o Gui juntos éramos quase uma Parada do Orgulho fora de época – ele dava tanta pinta quanto eu. Era alto, com olhos cor-de-mel e o cabelo bem curto, enroladinho. O sotaque pernambucano causava entre os boys do teatro com quem ele costumava sair. Era aspirante a ator e um dos meus maiores confidentes – o mesmo para quem confessei meu amor pela Mia uns meses antes.
 
Naquela noite, o Gui apareceu mais gato do que nunca. Ia encontrar um cara agendado para discotecar no Vegas e que ele me jurou incansavelmente ao telefone que era “tão bonito que podia morrer feliz” depois. Duvido muito, pensei ao entrar na balada, após enfrentar uma pequena fila. Mas ok. A pista estava consideravelmente cheia para uma quarta-feira. No escuro, sob as batidas ensurdecedoras do som, o meu olhar vagou de um lado para o outro à procura do tal DJ misterioso, enquanto o Gui vomitava descrições empolgadas e possivelmente exageradas sobre o cara e como eles se conheceram e tudo mais.
 
Mal havíamos passado da porta, no entanto, quando meus olhos se depararam com um rosto familiar em meio à multidão. Um que eu não esperava encontrar. E sem conseguir dar um passo a mais, fiquei parada encarando – num canto junto ao palco, se amassando com uma babaca alternativa de merda, a Clara.
 
Filha-da-puta.

Quarta-feira

Por que o meio da semana é sempre o pior?
 
Argh. Um tédio mortal se prolongava pelo mais lento de todos os dias de trabalho. Lá estava eu, fingindo me concentrar numa seleção de fotos de casamento, apoiando o rosto nas mãos e quase caindo da cadeira. Qual é a dos héteros e essas cerimônias de merda?, me indaguei, amarga, olhando para as fotos no computador e ignorando o meu dever em editá-las. Isso é uma grande piada, refleti, e eles sabem. Todo mundo sabe. Fui passando foto por foto, sem paciência para a cultura do matrimônio. Não é possível que alguém leve isso a sério.
 
De certa forma, meus pensamentos heterofóbicos – e rancorosos – me distraíam. A verdade é que eu achava até certa graça naquele tipo de trabalho. As fotos eram sempre iguais e pareciam me dizer muito sobre as pessoas. Ficava horas observando os sorrisos posados e os olhares bêbados de fim de festa, procurando qualquer descuido do noivo ou da noiva – aquilo me entretinha. Era como procurar indícios de uma conspiração, sinais escondidos de que ninguém ali realmente se gostava, de que era tudo só para manter as aparências.
 
Estava absolutamente compenetrada na minha viagem sociocrítica quando o meu celular tocou, me despertando de volta para a realidade. Atendi. E do outro lado da linha, a voz afeminada de um dos meus melhores amigos começou a tagarelar quase imediatamente qualquer coisa sobre o Vegas e... blá blá blá... que ele precisava de companhia e que ia encontrar um bofe e que a gente tinha que encher a cara e dançar e que ele não ia aceitar não e que da última vez sei-lá-o-quê, entre muitos comentários vomitados de uma só vez. 
 
Ah, o Gui é a minha salvação.
 
_Cê não tem desculpa, são dois minutos da tua casa: você VAI!
_Lógico que vou, Gui – eu ri – Quando foi que eu deixei de sair com você, meu?
_Melhor eu não responder essa, né, sua vagabunda...
_Ok, tá... – eu ri, de novo, consciente do meu desempenho vergonhoso como amiga naqueles últimos meses – ...mas juro, desta vez eu vou.
_Vai mesmo! CÊ NÃO OUSE FURAR! – me advertiu, aos gritos no telefone, enquanto eu me afundava na cadeira, me divertindo com a bronca – Sério. Quero muito te ver, tô com saudade!
_Não vou furar, mano.
 
Desliguei o celular, feliz e com uma perspectiva melhor para o restante daquele dia. Salva por um telefonema. É – o Gui era a companhia ideal para distrair a cabeça. Era exatamente o que eu precisava depois daquele fim de semana. No caminho de volta para casa, ao fim do expediente, fumei menos do que vinha fumando naqueles dias todos. Não tive vontade. Em vez disso, quando saí da estação de metrô, digitei para a Clara – “oq vai fazer hj?”. E assim que entrei em casa, chegou a sua resposta.
 
Faxina, 01 porre! :/”.
 
Ninguém merece. Mas não desanimei. Atravessei a sala sem falar com a Mia, que não saía mais da minha casa e estava ali, bolando um baseado sobre a mesinha de centro consertada. Fui direto para o meu quarto e comecei a vasculhar o meu armário atrás de alguma roupa que prestasse – pronta para uma noite digna de Las Vegas. Ou a versão paulistana disso.