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janeiro 16, 2010

O que acontece em Vegas...

Quarta-feira: o meio da semana é sempre o pior.

Meu tédio mortal se prolongava pelo mais lento de todos os dias de trabalho. Lá estava eu, fingindo me concentrar numa seleção de fotos de casamento, apoiando o rosto nas mãos e quase caindo da cadeira. Qual é a dos héteros e dessas cerimônias de merda?, eu me indagava, olhando para as fotos e ignorando meu real dever para com elas.

Eles todos parecem integrar uma grande piada institucional, eu refletia, amarga. Meus pensamentos heterofóbicos me distraíam improdutivamente da minha função. E o pior é que eles sabem, continuei mentalmente. Indignada com o conceito de matrimônio.

Achava até certa graça naquele tipo de trabalho fotográfico. Eram sempre iguais e pareciam me dizer muito sobre as pessoas: ficava horas observando os sorrisos posados e os olhares bêbados de fim de festa, procurando qualquer descuido do noivo ou da noiva. Aquilo me entretinha, era como procurar indícios de uma conspiração mundial.

Estava absolutamente compenetrada na minha viagem sociocrítica, quando meu celular tocou – me despertando de volta para a realidade. Do outro lado da linha, a voz afeminada e fabulosa de um dos meus melhores amigos tagarelava qualquer coisa sobre acompanhá-lo ao Vegas e escandalizar na pista a noite toda. Ah, o Guilherme é a minha salvação.

_Você não tem desculpa, são dois minutos da tua casa... você vai!
_Lógico que vou, Gui – eu ri – Quando foi que eu perdi a chance de sair com você?
_Melhor eu não responder essa, vagabunda traidora.
_Ok, ok... – eu ri, de novo, consciente do meu desempenho vergonhoso como amiga nos últimos meses – ...mas juro que dessa vez vou.
_Não ouse furar comigo! – ele me advertiu, gritando histericamente no telefone, enquanto eu continuava rindo – Hoje é diversão ga-ran-ti-da! Você sabe, o que acontece em Vegas...
_...fica no Vegas. Eu sei. Eu vou estar lá, não se preocupe.

Desliguei o celular feliz, com uma perspectiva melhor para o restante do meu dia, inesperadamente salva por um telefonema. No caminho de volta para casa, algumas horas depois, fumei menos cigarros do que o usual. Não tive vontade. Entrei em casa e nem falei com a Mia, porque também não havia necessidade. Fui direto para o meu quarto e comecei a seleção de roupas para uma noite digna de Las Vegas. Ou pelo menos, a versão gay disso.

Balada! Balada! Balada!

Combinamos de nos encontrar na porta às 23h e, sem atrasar quase nada, eu apareci... vestindo o mesmo shortinhos do Glória e uma blusa larga do L7. O Gui era um moreno alto de olhos claros, o mesmo para quem liguei e confessei meu amor pela Mia uns meses antes. E ele apareceu mais gato do que nunca. Ia encontrar um novo pretendente, um cara agendado para discotecar no Vegas naquela noite, que ele me jurou incansavelmente ao telefone que era “lindo de morrer”. Quero só ver, pensei ao entrar na balada, após enfrentar uma pequena fila.

A pista estava consideravelmente cheia. Isto é, para uma quarta-feira. O ambiente era dominado por um som pesado, a atmosfera toda me agradava. No meio do escuro, meu olhar vagava de um lado para o outro à procura do DJ misterioso, enquanto o Gui vomitava descrições empolgadas sobre o tal cara e como eles se conheceram num aplicativo babadeiro.

Mal havíamos passado da porta, quando meus olhos se depararam com um rosto familiar. Um que eu não esperava encontrar. Num canto junto ao palco, se amassando com uma babaca alternativa de merda, estava a Clara. Fiquei parada observando as duas, sem conseguir dar um passo a mais.


Filha-da-puta.

6 comentários:

Mikaylla disse...

xiiiii :/

Noelly Castro disse...

tá, né.. "filha da puta".. uhn.. olha quem fala..

Quanto pior, melhor!! (6)

;**

Ru disse...

agora ela vai ficar triste e Mia vai dar um pouco de colo :D

Mugi Choco disse...

Quanto pior, melhor!! (6) [2]


muuuuito bom \õ/

Gehh Santos disse...

Então quer dizer que você pode pegar todo mundo e as suas peguetes só podem pegar você? Hahahahhahaha
Igualdade para todas õ/

M disse...

Adoreiiii...Eu já tava começando a gostar muito da Clara.