- »

janeiro 16, 2010

Fora de controle

Subia a Rua Augusta transpirando ódio por todos os meus poros, trombando em todos os tarados e idiotas que ocupavam a calçada. Sai da minha frente, porra. Não conseguia acender um cigarro sequer, estava tão irritada que era capaz de começar uma briga por motivo nenhum. Eu devia ter falado alguma coisa! Eu devia ter ido até lá e tirado aquela idiota de cima dela! Eu devia... argh! Não conseguia pensar direito, minha cabeça estava cheia e a imagem da Clara se agarrando com outra insistia em voltar à minha mente. Maldita. Vai se foder!

Eu sabia o quanto eu estava sendo hipócrita em odiá-la, mas não conseguia evitar toda aquela angústia, aquela frustração. Mais do que decepcionada, eu estava tomada por uma ira desproporcional. Me sentia traída. Como eu sou idiota, uma porra de uma idiota completa. Tudo bem: eu não havia sido exatamente sincera sobre meus sentimentos com a Clara. Ou melhor, havia dito a verdade – afinal, eu gostava mesmo dela –, mas omiti tudo o que dizia respeito à Mia. Mas vê-la com outra garota me tirou do sério. É. Eu me ferrei.

Cheguei no meu prédio num acesso de raiva, batendo a porta do apartamento e chutando uma mochila largada em frente à entrada. O “Casal 20” estava sentado no sofá, observando meu comportamento infantil e destrutivo. O Fer levantou-se, nervoso, perguntando por que diabos eu estava chutando tudo e tentando quebrar a nossa porta. Eu estava realmente sem paciência e aquilo me irritou ainda mais. Pelo bem do nosso inevitável convívio, resolvi não responder e atravessei a sala bufando, ignorando a pergunta.

_Mano – ele insistiu –, QUE PORRA É ESSA?
_NÃO É DA SUA CONTA, CARALHO!
_É da minha conta se você for destruir o nosso apartamento!
_QUER SABER MESMO? – eu me virei, prestes a me descontrolar – Eu acabei de pegar a Clara praticamente DANDO PRA OUTRA MINA NA BALADA! FOI ISSO QUE ACONTECEU.
_E você precisa agir que nem uma criança? A MINA NEM ERA SUA NAMORADA! Você acha que faz alguma diferença você ficar descontando nas minhas coisas?
_AH, VAI SE FODER, FERNANDO!

Entrei no meu quarto, enfurecida, batendo a porta ainda mais forte. Com vontade de gritar. Andava de um lado pro outro, impaciente. AQUELA IMBECIL. Sentei na cadeira que ficava embaixo da janela e procurei me acalmar. Acendi um cigarro. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela – repetia mentalmente. Numa tentativa de evitar um barraco. Ela não é nada. Não preciso dela. É só esquecer que essa porra aconteceu.

Dei um trago, nervosa. E soltei a fumaça no ar. Eu posso arranjar outras cem meninas se eu quiser. Que se foda a Clara. No entanto, por mais que eu tentasse me convencer de que era melhor ter passado por isso agora do que dali alguns meses, mais eu pensava nela. E na possibilidade de “meses”. Porra, Clara, mas que merda. Ela era divertida, era realmente ótima.

Subitamente, a minha confusão mental foi interrompida pela Mia, que bateu sutilmente na porta e pediu para entrar.

_Vim só ver se você está bem...
_Não quero falar – cortei a Mia, irritada.

Ela ficou quieta, me olhando, e o silêncio dominou todo o quarto. A última coisa que quero é falar sobre a Clara com você. A Mia parecia genuinamente querer ajudar, mas só a ideia de ter uma conversa dessas com ela como se fôssemos “amigas” só piorava a situação. Então continuei fumando, sem olhá-la de volta, e encarando o chão. Nem um ruído, nada. Absorvida nos meus pensamentos. Que bosta. E então, sem saber bem porquê, falei:

_Eu menti para você.
_Mentiu? – a Mia estranhou – Sobre o que?
_Sobre o nosso beijo. Eu sei porque eu fiz aquilo.
_A gente não devia falar disso agora...

A Mia se inquietou, a porta continuava aberta. E o Fer estava no apartamento.

_A verdade é que... – hesitei – ...eu sempre quis te beijar, Mia... – as palavras simplesmente continuavam escapando da minha boca – ...desde o primeiro dia em que te vi. Sempre. Tudo o que eu fazia com a Clara, tudo, absolutamente tudo, era só para te provocar.
_Você só está falando isso porque está brava com ela...

A Mia argumentou, confusa.

_Não! Eu gosto de você! – continuei, olhando-a nos olhos e forçando-a a acreditar em mim – Eu realmente gosto de você... Mais do que você imagina e muito mais do que eu deveria gostar.


Ela deu um passo para trás, hesitante, mas não havia mais volta. Ela finalmente sabia.

12 comentários:

Ru disse...

puta que pariu

Cris Ferreira disse...

puta que pariu 2

giovanna disse...

AMOOO! MAIS MAIS MAIS!!!

Juliana disse...

Minha nossa senhora da bicicletinha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!rs
Ainda me mata S2!!!!!!!Qdo leio seus posts é como estar vendo a cena acontecendo na vida real... vc escreve MUITO bem! Bju lindona!!!=D

Tatiana Pinheiro. disse...

Putz, esse drama com a Mia me lembra tanto um drama pessoal (tudo bem que era hetero, mas o ser em questao tb precisava sair do armario rs)

Tem muita coisa em comum mesmo hahaha

ansiosa pelo proximo post

=**

Noelly Castro disse...

ahh.. adorei.. mas, o que mais eu amo, é que, mesmo com prévias e tentando associar as coisas sempre me surpreendo e adoro as surpresas deste blog e da cabecinha da "gatita(mucho)" que escreve este blog..

sim, sim.. ansiosa pelo próximo post.

;**

Ety disse...

Uouuuu, o que era bom ficou ainda melhor!!!!!

Mais, mais, mais.... *__*

Lolita disse...

Como faz para conhecer a escritora por tras desta história?

Juliana disse...

Quando vai postar maissss?!!?!?!? =D

( the girl fucking Mia ) disse...

Daqui a pouquinhooo... ;)

Monnik disse...

A raiva é uma péssima conselheira...o que será que vem por aí?

Anônimo disse...

Quase três anos depois eu sei que esse post foi um dos melhores. Foda!