A porta da frente mal havia batido quando abri a do meu quarto, saindo
para o corredor. Estava furiosa – comigo mesma, com o Fernando, com a droga da
situação toda. Batendo o recorde de estrondos dentro do apartamento naquele sábado,
uma porta atrás da outra. Que se foda
tudo. O Fernando se recuperava da discussão na sala, fumando um baseado que
o denunciou ali antes mesmo de eu poder vê-lo. Estava sentado na poltrona perto
do sofá e eu, perdendo a cabeça, indignada por saber que a Mia tinha acabado de
sair dali, machucada.
Marchei até ele, engolindo o meu próprio amor por ela:
_VAI RESOLVER! – ordenei com raiva, apontando para a porta – VAI
RESOLVER ESSA MERDA!
_Quê?! Não tenho nada pra resolver!! – se indignou – Quem tem que se
resolver é ELA!!
_NÃO INTERESSA!! Vai resolver... e-essa... – senti meus olhos se
encherem de água, de repente, sem entender bem o porquê – ...ESSA... DROGA!
_QUE DIFERENÇA FAZ PRA VOCÊ, CARALHO?! SE ELA QUER IR EMBORA,
ÓTIMO!! – deu um trago, fingindo indiferença – EU NÃO QUERO ELA AQUI! POR MIM,
ELA NÃO PRECISA MAIS APARECER NESSA PORRA DESSE APARTAMENTO! NUNCA MAIS!
FODA-SE!!
_Escuta aqui... – eu mal conseguia escutar ele falar, sentindo me
doer o peito – ...a Mia... a Mia saiu do meu quarto chorando a... a merda do
coração pra fora... e sabe por quê?! SABE POR QUÊ, CARALHO?!? – o encarei, ofegante
– Porque por... por algum motivo estúpido e... e... bizarro, ela… ela te ama.
ELA AINDA TE AMA, SEU BABACA! Ela te ama e não consegue viver com o que ela fez!
Agora, cê me escuta... – o ameacei, amarga – ...se essa garota sair daqui hoje
se sentindo assim... se achando menos... do que você... como se não merecesse
estar nessa porcaria desse namoro, Fernando... se ela... se ela pisar pra fora
desse prédio acreditando em uma só palavra do que cê disse pra ela hoje... eu
tô falando sério, Fernando, eu não olho mais na sua cara. Eu não vou te perdoar!
– levantei a voz – VOCÊ LEVANTA DESSA PORRA DESSA CADEIRA AGORA E VAI LÁ RESOLVER
ESSA MERDA!!
_VAI FICAR DO LADO DELA, CARALHO?!? – ele gritou comigo, se
levantando na minha direção – SE VOCÊ QUER SABER, EU ACHO MESMO QUE ELA É, ACHO
QUE ELA É TUDO ISSO! TUDO! E SE ELA SAIR DAQUI SE SENTINDO UM NADA, POR MIM,
QUE SE DANE! EU É QUE NÃO VOU CORRER ATRÁS DELA!! JÁ DEU, CHEGA DESSA PORRA! EU
QUERO É QUE SE FODA!!
A meu respeito por ele morreu ali.
_Cara, cê realmente se acha melhor do que ela, né?! – o observei,
sem acreditar no que estava ouvindo – Cê vai mesmo deixar ela sair daqui se
odiando, não é, por uma merda qualquer... – meus olhos já estavam secos, revoltados
– ...achando que te magoou, que te feriu, que é uma porra duma filha-da-puta,
que fez uma coisa tão... tão imperdoável, não é?! – o enfrentei – Agora, me
diz, o quão “terrível”, o quão “imperdoável” e “filho-da-puta” você se sentiu
enquanto tava enfiado naquele quarto, meses atrás, COMENDO A DROGA DA SUA
EX-NAMORADA?! HEIN?! PORQUE, NA BOA, FERNANDO, SE A SUA MORAL TÁ TÃO OFENDIDA
AGORA, IMAGINO QUE CÊ NÃO DEVE TER CONSEGUIDO VIVER COM O QUE FEZ, NÃO É,
CARALHO?! DIZ, DIZ PRA MIM, A MIA SABE?? VOCÊ CONTOU PRA ELA O QUE VOCÊ FEZ OU
ISSO NÃO IMPORTA?!?
_Cala a boca...
_CONTOU OU NÃO CONTOU?!? ELA TÁ LÁ SE ODIANDO POR NADA, HEIN, FERNANDO?!
AÍ, DO OUTRO LADO DESSA PORTA... – briguei com ele – ...SE SENTINDO UMA MERDA ENQUANTO
VOCÊ FICA QUIETO AQUI, SE ACHANDO MUITO MELHOR DO QUE ELA!!
_Não é a mesma coisa... – resmungou.
_AH, NÃO É?! ME EXPLICA ENTÃO, PORRA, QUE PARTE É DIFERENTE?!? SEU
HIPÓCRITA DO CARALHO!!
_Mano, na boa... – ele passou por mim, puto, encerrando a conversa
e indo para o corredor – ...não se mete!
Covarde.
Vi ele fechar a porta do quarto, logo em seguida. Que se dane. Que se dane o Fernando,
que se dane a porra toda. Saí do apartamento, na esperança de ainda
encontrar a Mia ali. Não podia deixar
ela ir embora assim, chateada consigo e comigo. Não suportava a ideia de
ter a magoado, em meio à forma como o Fer a destratou, aquilo estava me
sufocando por dentro. Atravessei o corredor e virei, olhando para o elevador
sem esperanças de que a veria – mas lá estava ela.
Mia.
Com o rosto prensado contra uma das mãos, ela estava encostada na
parede oposta à do elevador, digitando no celular. Me apressei na sua direção e
ouvi o elevador chegar. Merda. A sua
cabeça se ergueu e ela me notou ali, mas virou o rosto, me ignorando.
_Mia, espera... Por favor, cê entendeu tudo errado!
_Cê não precisa fazer isso...
Ela desviou de mim, indo para o elevador.
_Preciso, sim! Preciso, porque eu não quero te magoar também,
porra! Por favor... – segurei sua mão – Por favor, me escuta! Eu juro que, q-que
não foi nada! Uma menina... me... m-me atacou enquanto eu… tava muito chapada...
na casa duns amigos, depois da balada, e... e eu mandei ela parar, não aconteceu
nada entre a gente. Meu, e-eu... eu não troquei um beijo sequer com ela!
_Na boa, não quero que você se explique...
Ela se soltou da minha mão e seguiu em direção ao elevador, seus
olhos ainda molhados.
_Não! Me escuta, porra... – me desesperei – E-eu sei que parece
que eu... tô sendo eu, como... como eu sempre sou... e fazendo merda, mas... eu
juro que não! Não dessa vez, Mia! E-eu... eu não fiquei com ninguém. Eu não
queria ficar com ninguém e eu... E-eu disse isso pra ela, porra, disse pra todo
mundo! Ainda tomei esporro do meu amigo! Sabe, eu...
_Você pode ficar com
quem quiser – ela segurou a porta do elevador, já do lado de dentro, e me olhou
com rancor – Eu não vou falar nada. E-eu... – abaixou a cabeça – ...eu acabei
de passar a noite com o Fê, não é. Eu não tenho direito de querer nada, não devia
ter falado merda nenhuma. Você não tem obrigação nenhuma comigo, nunca teve...
– as lágrimas escorriam pelo seu rosto – ...e eu preciso ver as coisas pelo que
elas são. Não é da minha conta o que você faz ou deixa de fazer na sua vida.
Muito menos agora. Então, faz o que cê quiser...
_Caralho, Mia... COMO CÊ É CABEÇA-DURA, PORRA! – segurei o
elevador do outro lado e fiquei de frente para ela – Me escuta, cacete! Eu não
quero!! Não quero ficar com ninguém. Ninguém que não seja você. Só você. Eu só
quero você, porra! E eu não ligo para o que quer que cê tenha feito... ontem,
hoje, sei lá quando, caralho! – a encarei, sentindo meu coração arregaçar meu
peito – Eu preciso que cê acredite em mim, que quando eu digo que eu quero que
você fique, é porque eu quero mesmo. E se eu disse que não fiquei com a droga
da menina, é porque eu não fiquei! Eu não tô mentindo para você. Eu não preciso
mentir pra você, cacete, mas que inferno! Eu não quero. Não quero mais isso! Não
quero mais me esconder! Não quero as mentiras, os beijos em segredo! – subi a
voz e os meus olhos marejaram, ardendo – E não quero que cê não se importe com
uma droga de um chupão no meu pescoço! Não quero que você me mande fazer o que
eu bem entender com a minha vida, porra! PORQUE EU NÃO VOU!! NÃO VOU, MIA! NÃO
MAIS... CÊ NÃO ENTENDE, CARALHO?! EU AMO VOCÊ!!
Isso.
Perfeito. Fala mesmo, sua idiota.
Eu e o meu timing de merda, argh. As palavras saíram da minha boca e entraram
no seu ouvido desavisado. Aquelas três malditas palavras. E a Mia ficou parada,
ali, me encarando, em choque dentro do elevador. Eu suspirei, abaixando a
cabeça:
_Eu sempre te amei, meu.