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abril 30, 2011

A vida sem ela

Os próximos dias se seguiram em silêncio. Ninguém naquele apartamento falava, não abríamos a boca, o telefone não tocava e as mensagens pelas quais ansiei por um domingo inteiro nunca vieram. Apenas os olhares se trocavam pelo corredor, desinteressados. E depois seguiam o seu caminho. Eu, o meu e ele, o dele.  Não mencionávamos o assunto, não interferíamos um na vida do outro. A garota voltou – a mesma daquela noite de sábado –, na quarta-feira, e ficou mais tempo dentro do quarto do Fer do que pela casa. Depois veio na sexta, mais uma vez. Conversavam por sussurros, pelos cantos, como se eu pudesse ouvir. Na cozinha, logo pela manhã, ou quando ele se despedia dela na porta de entrada. Eu observava, quieta, mas era como se não existisse no apartamento. O Fer não sorria, não com ela; e estava sempre com a aparência cansada, os olhos amargos e escuros.

Eu sabia que ele estava mal, podia vê-lo sem que precisasse me dizer. Convivência, quando é assim por anos, tem mesmo dessas.  Todavia, eu não conseguia me importar, não de início. Não sabia onde ele havia arrumado a garota e tão pouco ligava para isso. Não entendia também como ela não percebia o desprezo nos seus movimentos, a indiferença dele quando ela estava ali. Minha querida, você é só o step... eu a olhava, sentada na poltrona da sala, se despedindo do Fer na porta do nosso apartamento. Tinha cara daquelas estudantes de faculdade particular, que cursa Farmácia ou Nutrição, filhinha-de-papai e meio burrinha. Ele vai te jogar no lixo, meu, assim que isso acabar.

E, de fato, acabou.
Na semana seguinte, ela não voltou mais.

O estado surdomudo dos cômodos prosseguiu, contudo, cada vez pior. Parecia que uma vez estabelecido o silêncio, o tempo dificultava quebrá-lo e não conseguíamos mais voltar ao que era antes. Tampouco queríamos. Não estávamos com saco ou paciência um para o outro, não tínhamos mais disposição para os nossos respectivos erros estúpidos. Eu sabia que ele estava sofrendo por dentro, deixando criar rancor; e já ele, sequer se esforçava para reparar a dor que me corroia por dentro, escondida dos seus olhos e do mundo. Eu estava muda, apática. Andava pelo apartamento por mera necessidade de locomoção entre um cômodo e outro. Lia muito – terminei Inferno, da Eileen Myles – e via televisão aos montes para evitar a droga da internet e a minha propensão às péssimas decisões. Enchia a minha cabeça para não ocupá-la com pensamentos e parei de beber por um tempo.

Na noite de quarta, a mesma em que a garota veio, fiquei horas sem conseguir dormir, sozinha na cama e encarando o teto. Pensei na Mia. E só nela, um milhão de vezes, por todos os ângulos. No seu sorriso, nas curvas do seu corpo, nela deitada comigo no chão, nas coisas que me dizia distraída, no bar do Itaim, nos seus dedos percorrendo a tatuagem no meu pulso no dia do estúdio, em nós duas bêbadas na Sarajevo, em como ela dançava comigo, perto de mim, no beijo na pista de cima, nas sensações no escuro, nos seus olhos inchados de chorar, no elevador do prédio. Peguei o celular ao lado da cama e segurei-o por um tempo, deitada de lado, sem saber o que fazer. Não tinha idéia do que dizer para ela. Aí escrevi um desajeitado, “Eei... :)”, na esperança de que ela também estivesse acordada.

Ela não me respondeu.
Naquela noite e nem nos dias seguintes.

Droga. A Marina por sua vez estava, de um jeito remoto e expresso por algumas poucas ligações durante a semana, meio preocupada comigo. Me ligava à noite para saber o que eu estava fazendo e, às vezes, me fazia perguntas bem de mãe do tipo “você comeu alguma coisa hoje?”. Eu achava que ela estava exagerando. Respondia da mesma forma que responderia caso eu fosse, de fato, a sua filha. Ou seja: sem muita paciência. Para falar bem a verdade, a minha vida estava bastante normal. Eu ia e vinha do trabalho todo dia, me alimentava regurlarmente todo dia, dormia uma quantidade razoável de horas todo dia, ou quase todo dia, e por aí afora. “Você não está enganando ninguém”, a Marina argumentava, indignada. Mas, na prática, eu só não estava enganando ela. O resto não percebeu...

Durante as duas semanas que se seguiram, recusei todos os convites para sair – incluindo um do Gui para a The Week e outros dois da Lê de irmos para a Clash. Todo mundo achava que eu estava ocupada e isso me bastava, me isolei. De propósito. Não falava sobre a Mia. Com a Marina ou com qualquer outra pessoa. Ainda assim eu sentia, preso dentro de mim, uma vontade insuportável de mencionar o seu nome, a qualquer hora que fosse. Uma vontade louca de vê-la, de saber o que estava se passando. Tudo o que eu sabia – numa infeliz forma de conhecimento – era que havia procurado o Fernando num daqueles dias que se passaram – em um ou mais, depois do fim de semana da briga. Eu estava na cozinha, jantando, quando escutei ele discutir com ela pelo telefone. Abriu a porta do quarto com força, após algum tempo, falando um último “porque eu não quero que você me ligue, porra!” e saiu do apartamento direto, com raiva.

Nesse dia, eu me senti um verdadeiro nada.

E era por isso que não falava dela. Porque me doía lembrar, desconfiar que fosse, da possibilidade dela sequer pensar em mim. Assim o meu silêncio me protegia, me distraía do dela. Maldição. Coisas como o chilique daquela noite estavam fora do meu controle. Menções espontâneas no corredor, que nada tinham a ver comigo, numa discussão com o Fer e eu ali do lado, sem escolha, ouvindo. Me remetia à ela e desencadeava um caos interno. Então o babaca saía de casa sem nem se dar conta da repercussão dos seus atos barulhentos e eu sobrava ali, sozinha, com o estômago embrulhado e uma vontade filha-da-puta de fazer alguma merda muito grande. Só para colocar tudo para fora. Para descarregar toda aquela frustração de não ser eu, de não ser eu, cacete; de não ser para mim a porra daquela ligação.

Sentei em silêncio por vinte minutos, naquela noite, com o meu telefone mudo na minha frente na mesa. E depois, com um rancor desgraçado, estourei o volume do som da sala até os vizinhos reclamarem.

38 comentários:

Monica disse...

nossa... q tenso!

estourar o som foi a coisa mais radical q a FM resolveu fazer?

no lugar dela eu entraria pro vale-tudo ou faria uma coisa extremamente mais perigosa como iniciar relacionamento sério com gente romantica rs

no aguardo...tah demaiis cmo sempre, Mel..

bgs

Milk :D disse...

Nossa, a Mia tá acabando mesmo com a FM ):

@lesbofilia disse...

Dá uma pena da FM =/ Mas acho que ela deve seguir em frente e tentar ficar com outra pessoa! Faz isso por ela, Mel! haha =)
Ah, e parabéns por mais um post maravilhoso!
Beijos

( the girl fucking Mia ) disse...

Monica, o contrário. Foi o que ela fez para NÃO fazer nada radical... ;)

Adorei o "uma coisa extremamente mais perigosa como iniciar relacionamento sério com gente romantica" HAHAHAHA

E @Lesbofilia, bastaaaante coisa ainda por vir! ;) Obrigada pelos comentários, lindas! ♥

Ianca' disse...

Ela tá tão calma, tão vegetativa, tá dando até dó...
E aquela vontade louca, quando vc manda um sms, nao tem resposta, mas precisa mandar outro, mas não tem cara pra fazer isso, por frustração...
Posso ter a vida completamente diferente da vida da Devassa, mas tem situações que se encaixam na minha vida, de uma forma inexplicável, Mel, sempre de parabéns, sua linda <3

fazneime disse...

Que depre da FM !!! Tadinha :/ AUHSUAHSUHAUSHAS'

Ma disse...

Nossa, nossa :(
C'horror isso! HAHAHAHA
To muito apegada, to sofrendo muito, chega! HAHAHAAHAHAHAHAHAHA :{

Muuuuito bom o post ..essa sou eu falando o óbvio..! haha er
E grandãoo! Aaameiamei! ♥
Parabénnns!


Um beijo ;*

'duuda disse...

awnn it broke my heart ):

Carol Carriel disse...

Eita bad >.<"

eu ate gosto da F.M assim sofrendo calmamente, melhor doq chutar o balde e fazer merda ¬¬"
essa Mia tbm putz mina phoda -.-

Ps. muito bom post novinho, tava com saudade *--*

Anônimo disse...

Ah, entendi a demora em postar: nos deu a mesma sensação esperar pelas palavras da Mel o que a FM está sentindo esperando pela Mia.


Sempre vale a pena.
;)

Raianny Duarte disse...

ai, tadinha =/


mtoo bom Mel \o/

Anônimo disse...

Acho que a FM devia chamar a Mia pra tomar uns bons drink e resolver logo isso.

Mikaylla disse...

:´(

Anônimo disse...

concordo com o Anonimo: sentimos a mesma falta de noticias exSPErante.
Infelizmente, serei a chata a dizer: "EU já sabiA"
pORQUE Mia só gosta dela mesma, só vê sua pp confusão. Para alguma chance, só se ela se resolvesse.
Já Marina...bem, não quero que ela seja uma merda de um estepe e ela é esperta tb em não se prestar a isso. Está dando à FM a amizade que ela precisa, alguem que se preocupe com ela de graça.
Coisa que Mia precisaria nascer de novo pra saber o que é.
Sim, ta rolando um combo revolta + raiva da Mia e sua confusão.
Espero que A FM crie alguma noção e se mude do apto, arrume um canto seu, um lugar limpo de lembranças e da presença do Fer que remete a tudo isso tb.
Mel, parabens e obrigada por postar mesmo com tanta correria e trabalho. Vc é dez. Bjs
Ju T.

Anônimo disse...

"(...) sozinha na cama e encarando o teto. Pensei na Mia. E só nela, um milhão de vezes, por todos os ângulos. No seu sorriso, nas curvas do seu corpo, nela deitada comigo no chão, nas coisas que me dizia distraída, no bar do Itaim, nos seus dedos percorrendo a tatuagem no meu pulso no dia do estúdio, em nós duas bêbadas na Sarajevo, em como ela dançava comigo, perto de mim, no beijo na pista de cima, nas sensações no escuro, nos seus olhos (...)"

:/// sei bem como é isso

Tais disse...

A FM e a Mia são tão cansativas às vezes.. --'
"Você não está enganando ninguém.." kkkkkk' Só a Marina mesmo, com seus comentários certos nas horas certas.. Amo demais essa garota *---*'

Anônimo disse...

Tadinha cara..a Mia detonou ela mesmo rs

Muitooo Phoda os posts meu, adoro!

Anônimo disse...

"Porque me doía lembrar, desconfiar que fosse, da possibilidade dela sequer pensar em mim." Chorei. =~

sissi disse...

Tá uma merda.

Anônimo disse...

COMO alguém pode dizer que tá uma merda?? Isso tá muito bom!! Mel, acho que tu aproxina demais a história das tuas leitoras, cara.. É o máximo!!! Sinto cada linha do que tu escreve. Queria ter metade do seu talento!!

Anônimo disse...

Tá muito foda ! Eu amo essas confusões internas da FM.

jamile disse...

ah que tenso.
a marina devia tirar a FM dessa fossa =(

Célia Matos disse...

The game is over....hora de mudar de atitude e de AP Fuckin mia! The show must go on....essa Mia já era.

Anônimo disse...

Sissi não deve estar se referindo ao blog, só pode haha
Tá muito foda, adoro as bads da FM !

Aléxia Carneiro disse...

Cada vez melhor!

Letícia disse...

estava com saudades de ler! (:

Pathy disse...

Bad!!

#SemMais

@_babyblue disse...

Tá, acho que sou a única do contra aqui que não torce pela FM e sim pela Mia. XD
A Devassa merece esse gelo. Eu quero saber é da Mia, como ela tá, o que ela tá sentindo, o que tá pensando. Amorzinho platônico, sabe?
Fala mais da MIAAAAAAAA :P

Anônimo disse...

Não gosto mesmo da Mia ela é uma espertinha.

Quer os dois.

Anônimo disse...

Anônimo certíssimo, a Mia qr os dois, babaca ¬¬

Anônimo disse...

Cordei kd post?

Anônimo disse...

De 10 em 10 dias agora =/

Anônimo disse...

Hoje tem poooost? *-*

Anônimo disse...

Vai ter continuação ne? Quando saí a proxima? ):

Anônimo disse...

rs ... Mel ... Daqui a pouco vai ter a mesma quantidade de real coments e de perguntas kd o post!... kkkkk ... Posta ai My friend!...kkkkkk...Bjo!

Anônimo disse...

Podia vir uns 3 posts de uma vez né?

*.*

Anônimo disse...

Enquanto a mia tá longe da FM, a minha "mia" tá aqui pertinho de mim ♥

Lih disse...

Mel, vc quer matar as suas queridas leitoras de curiosidade né?!
Só pode ser isso, pra essa demora toda. hahaha
Pra compensar, vc podia postar uns 2 de uma vez né?! hehehe
beijoooos