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fevereiro 11, 2012

Ella

Trocou o CD que tocava no rádio, caminhando desinibida para a cama lentamente, de volta. Cómo decir..., uma voz feminina sussurrou suavemente. Deitou-se adiante de mim, o corpo de costas contra os lençóis macios de algodão e os braços largados sobre a cabeça, leves. ...que me parte en mil, ao fundo prosseguia. Os contornos e desníveis naturais pelo seu abdômen, as pernas enlaçadas – ...las esquinitas de mis huesos... –, formavam sombras sutis que lhe faziam voltas admiráveis pelo corpo, desenhando-a magnífica. A Clara voltou os olhos para mim, castanhos. E argentinos. “Quem está cantando?”, lhe perguntei com um gesto de queixo e a observei, os seus movimentos sutis, contemplando-a.

As horas naquele cômodo e constantemente bagunçado quarto eram sempre, sempre leves. E me passavam despercebidas. Pequeníssimo, modesto e um tanto boêmio; tinha as paredes repletas de fotos, cortes e recortes, tachinhas, desenhos curvilíneos, fitas, improvisos, luminárias diversas e panos, cujas extensões eram decoradas delicadamente. O frio se manifestava toda vez que eu me mexia para fora dos lençóis sobrepostos, meio amassados, e parecia me impedir de sair dali. Quatro paredes e meio arapuca, entende? De um jeito natural e agradável, portanto, eu ficava. E as horas ali iam.

Perdiam-se em si. Enquanto dançávamos, nuas, e conversávamos à toa; e eu procurava minuto atrás de minuto, ela, na ponta dos meus dedos; deslizando-os sedentos pelo seu corpo. Meu, nunca assim; sexo nunca fora assim tão fácil. Tão instintivo. E era um perigo que fôssemos eu e ela, ali – e não outras duas garotas quaisquer –, fazendo-o. Mas nos arriscávamos com gosto; ...que han caído los esquemas de mi vida. Despreocupadas e impetuosas, os dois gênios compatíveis em demasia. Por mais de três horas já àquela altura, brincando de chefe uma com a outra, insinuando de forma inteligente. E eu, que interpretava a mim mesma, ia-me com ela, que mudava e se desdobrava. Assumia, via-a, as mais lindas formas a minha frente.

Ahora que todo era perfecto (...)

Virou-se, acomodou-se; cantarolava apenas com os lábios, em silêncio e para si, deslizando sobre colchão; – ...y algo más que eso, me sorbiste el seso... –, parecia aconchegada. Afundara nos lençóis, olhava-me por detrás deles, agora de relance. Então levantou o corpo, num movimento fluido e acabara sentando-se frente a mim; uma das pernas dobrada adiante do corpo e a outra para fora da cama, pendendo para baixo e sobre o chão. Ajeitou os cabelos morenos, com calma. Eram lindos, suaves, as ondas lhe louvavam o rosto. “Se chama Bebe”, me disse enfim. A resposta bem pouco me importava; e eu sorri, admirada pela forma como o dizia, sem tirar os olhos dela.

Perguntou-me se eu gostara da faixa e eu ri, disse que sim, “claro”. Me lembrava o seu jeito, os seus caminhos; de alguma forma, ressoava o seu tom comigo. “Me cuesta abrir los ojos”, pronunciou então, me olhando, e sorriu. Foi se aproximando, com os gestos lentos e sincronizados. Sem pressa, sorria “no sea que aún te encuentre cerca”. Vê-la cantar para mim, naquela distância tão pouca, os fios de cabelo deslizando pela pele, conforme escorregava os braços e vinha, engatinhando vagarosa, sobre a cama na minha direção, me desconcertou. A luz lhe favorecia extraordinariamente, “...me guardo tu recuerdo”; ela sorria ao dublar uma a uma das sílabas, que eu pouco entendia.

E ainda assim apreciava tão veementemente. Com uma estranheza, aquela admiração presa dentro de mim. De repente, o errado me pareceu certo demais. Parecia. Subiu no meu colo, escorregou as pernas pelas minhas e a lateral do rosto na extensão do meu, leve e suave. Contornou minha face aos poucos, quase que dançando comigo, com os meus sentidos, as minhas intenções, mais atenta do que nunca a seus movimentos – e disse enfim, baixinho, no meu ouvido: “que dulce fue tenerte dentro”.

A mim. 

Estremeci. Senti um calor tomar o meu corpo todo e respirei fundo, fechando os olhos. Havia algo de magnético em sua voz, a maneira que pronunciava aquelas palavras. O sotaque, a língua enrolando nas letras. Tudo, tudo nela. Me era inebriante. Meu... A minha cabeça já começava a xingá-la de todos os nomes possíveis, argentina filha-da-mãe. A sua boca deslizou contra a ponta da minha orelha, foi indo, vindo pelo meu queixo. E descendo. Mais. Sentia-a na minha pele. Os seus dedos escorregavam por mim as laterais da minha calcinha. En esta oscuridad..., foi me tirando tudo, o sério, pouco a pouco. Para prestarme calma; e a sua boca encostava na minha cintura, fluía abaixo. Suspirei, trêmula. Me soltei. Ela foi. 

Os olhos fechados; a cabeça e sentidos abertos. El tiempo todo calma. Senti a sua língua, os seus dedos. Cada vez mais. La tempestad y la calma. Continuou. La tempestad y la calma. Crescendo a intensidade, interrompia-se então o silêncio.

Y mojará...
la flor que cresce en mi.

(...)

42 comentários:

Aléxia Carneiro disse...

MUUUUUUUUUITO BOM ENTRAR NO BLOG E VER ATUALIZAÇÃO HAHAH QUE DELICIA

Pathy disse...

Que isso genteee (L

Mel, post sexy e hot ao mesmo tempo! aí como eu queria isso agora! :D

Anônimo disse...

Acho que este é o melhor post da história do blog. Sem mais. *-* perdi o fôlego!

Anônimo disse...

PAAAAAAAAAAAAARA TUUUUUUUUUUUDO. QUE POST FODÁSTICO!!!

Viviane disse...

UMMMMM agora a tarde está maravilhossaaaaaaaaaaaaaaa!!!!
vlw Mel salvou minha tarde!

Anônimo disse...

São apenas 3 da tarde e eu fiquei sem fôlego, QUE POST É ESSE?!! mt bom, mt hot .. mt .. veeeeelho, não tem nem adjetivo que descreva direito!

Bibi disse...

...sem palavras...(respira fundo) sem dúvidas o melhor post de todos.

E como eu não percebi antes??? ela tava indo p/ casa da Clara ora, óbvio que seria uma música "caliente" rs.

Anônimo disse...

putaquepariu.
o que eria desta história sem uma mulher dessas que nem a clara??

Anônimo disse...

"Que dulce fue tenerte dentro" MEU DEUS!
MELISSA, QUE POST É ESSE?!

Fer disse...

Que post inspirador, rs.
Boa música hein :)

@carolcastr disse...

Nossa...
Que post foi esse??
Muito Hot...mas passa uma sensação de tranquilidade tb...
Adorei!!
Mais! Mais!!

Anônimo disse...

Vim ver o que todo mundo estava tanto falando... já sabia que era baixaria ou barraca pq são os que explodem cmments! Mas não imaginei que seria tão inteligente, delicado... bonito! Mel, vc surpreende!! Blog incrível e cada vez mais. Posta logo outro!

Ianca' disse...

Tenho ciúmes da Clara, pronto!

Vivi disse...

Ciumees??? Quero ela e a FM JÁÁÁÁ na minha cama!!! Juntas!!!

Ana Paula disse...

Esqueçam a Mia agora eu quero a Devassa com a Clara muuuuuuuito lindo elas duas e essa forma da Mel escrever meu sério tipo uau foi lindo *-*

Anônimo disse...

Ok, acho que sou sapatão. MUITO!
Deu um calor ler isso, não??? Chocada :O

@carlitaelias disse...

Nossa!

T disse...

Como eu queria uma Clara pra animar essa tarde chuvosa de São Paulo...

Betty Gibbons disse...

Nossa que delíciaaaa!!
pqp...

adorei esse post.. ;)

Catarina disse...

Ainda inventei de ler o post ouvindo a música... Quase não aguento. Gente... Olha, não vou nem dizer nada.

Anônimo disse...

HAHA tava lendo aqui, quando chego no último parágrafo vejo que minha respiração tá curtíssima haha ô dom pra enlouquecer pessoas com palavras!
Você me altera, Mel!

TekaSak disse...

Muuuito hot! Fiquei sem fôlego com esse post.
Muito bom mesmo Mel, parabéns.

Anônimo disse...

lindo post

Anônimo disse...

Wow....So sexy!

jamile disse...

mel vc escreve de um jeito que envolve o leitor, parabens viu =))

Lu disse...

Glup!

Amanda disse...

PUTA QUE PARIU, MELISSA! qiso, pecado pecado.
Lindas lindas lindas demais. Muerta.

Vitória Régia disse...

ameeeeeeeei, quero uma dessas na minha vida kakakaka

Juliana Nadu disse...

Ai!

Anônimo disse...

Cara, é impossível acompanhar a vida da FM e não ficar uns 50% mais tarada...Q issooo!? É contagiosa essa saliência.

Anônimo disse...

obra prima. Sem mais.
bjs Ju T

Dea disse...

posso me sentir no direito de ser considerada uma colaboradora [mais do que] especial desse post? afinal, se não fosse pelo rádio do meu carro e pela nossa conversa sobre músicas em espanhol e Chakiras (HAHAHAHAHA!), não teria sido Bebe e nem teria sido TÃO sexy. você se superou na escolha das frases, Mel. e a última, é claro, TINHA que ser aquela. e quanto ao post em si... bom, vou ser repetitiva, tá? mas é que parece que sua cabeça opera num nível de qualidade de detalhamento tão incrível, que eu não consigo nem imaginar o que mais se passa por aí. quer dizer... eu tenho uma ideia, rs. eu praticamente dancei junto com a narrativa. foi delicioso ler cada palavra.

beijos e hasta manãna ;*

( the girl fucking Mia ) disse...

Dea, sua linda!

Participação ESSENCIAL sua neste post! Todos os créditos pela belíssima Bebe e, claro, pela ajuda na nossa busca madrugueira da música perfeita.

Love ya, muah ♥

Liv disse...

Um post lascivo e delicado.
Incrível Mel ! Amei a trilha!

P.S.: Quando é que vem a OST 4, hein?

Anônimo disse...

Combinei Bebe e chuva (http://www.rainymood.com/) !
Fuck awesome!

Ana disse...

ótimo post! valeu especialmente pela dica musical, fui procurar e adorei a Bebe, baixei os dois CDs... mto bacana! e essa Clara até eu comia...

Gabriele disse...

É oficial,Clara...me gusta hahaha #TeamClara mas não consigo largar a Mia hahah

@l_skw disse...

[Não precisa aprovar o comentário, se não quiser]

Mel, você me converteu ao lado arco irís da força! Eu sempre me senti diferente, mas nunca tinha entendido em que sentido e porque.. quando eu descobri seu blog, eu comecei a lê-lo, primeiramente, porque notei que o texto era maduro, bem escrito, e também por curiosidade, porque na sociedade em que vivemos, ainda é um tabu gigante, falar sobre sexualidade (e as suas variáveis). Comecei a ler, me apaixonei pela fdp da FM, haha, e me acostumar com esse novo universo. E desde o início me senti muito confortável sabe, como quando você ouve uma música pela primeira vez, mas tem a certeza de que ela foi feita pra você.
Aprendi a apreciar, pelos olhos da FM, a natureza feminina, e assim despertar o meu instinto (latente).
Aos poucos, ainda estou me descobrindo, o que eu sinto, o que eu penso, sem me reprimir em nenhum sentido. E consigo realizar que eu não preciso de gostar de gêneros, e sim de pessoas.
E esse post com a Clara foi incrível, delicado, lascivo, envolvente, sem falar da trilha, que não para de tocar no meu note.

Só quero agradecer, por essa escritora incrível que você é, por dar vida à esse caleidoscópios de sentimentos, visões, sensações.

A cada post que eu leio no FM eu sinto 'ouvida'. Obrigada de todo coração!

Anônimo disse...

BEBE????? NÃO CREIO! AMO ESSA MÚSICA!!!

'duuda disse...

eu sei que ando meio atrasada nos posts, mas to um pouco sem tempo e lendo quando dá uma folguinha no trabalho. MAS QUE POST INCRÍVEL! nossa, fico boba...

Bruna disse...

Madre mia... vaya post!

Babaloodeuva disse...

ual