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dezembro 23, 2012

As Discordâncias pt. I

_Eu vou pra casa – ela disse.

Ainda virada para as sarjetas da A. Bicudo. E cabisbaixa, segurava uma integridade que eu era incapaz de manter com aquele tanto de álcool nela, em mim. À distância, a luz acesa sobre um táxi que se aproximava a fez dar alguns passos na direção da rua e sinalizar. Me adiantei – “não”.  Não podia deixar que fosse embora sem resolver ou terminar a conversa, sem mim – e ao contrário da maioria das meninas, comumente inseguras para abandonar um bom drama, eu sabia que ela iria. Sem sequer olhar para trás. E eu não podia permitir. “Não vai, meu, por favor”, eu lhe pedi, com o rabo entre as pernas e angústia de vê-la sentar no banco de trás daquele táxi. Ela se ajeitava e eu sabia que não tinha direito de demandar coisa alguma.

_Bi – insisti, mesmo assim – por favor.
_Está tudo bem. Vai pra casa, cura a ressaca. Sabe, fica sóbria – me respondeu, com a mão já na porta –, amanhã a gente se fala.
_Clara, n...

Fechou a porta antes que eu terminasse a frase e o táxi começou a andar lentamente. Merda! Tudo o que a minha mente embriagada conseguia pensar era “não”, “não” – observava o carro se afastar. Impotente. Estava genuinamente arrependida e me sentia presa a um final que eu não escolhera para aquela noite, ainda que o tivesse provocado. A raiva começou a me dominar. Sou uma porra de uma idiota mesmo. Esfregava as mãos no rosto numa tentativa vã de trazer qualquer sanidade para a minha cabeça, chapada as hell. A tontura e o ritmo disparado nas minhas veias começavam a me irritar. A situação toda me irritava. E lá estava eu, sozinha numa calçada escura de Pinheiros em plena madrugada de sexta-feira.

Senti vontade de destruir qualquer coisa, de cometer qualquer atrocidade. Ir arranjar briga na Bubu a quadras dali, chutar a boca do primeiro que aparecesse; encher ainda mais a cara, até estourar os meus miolos e vomitar cada grama daquilo no banheiro sujo de qualquer boteco; qualquer porra que me fizesse lidar com a frustração que me afligia. A cocaína confusamente parecia amplificar tudo – o meu sentimento de impotência e a minha capacidade, ao mesmo tempo, de fazer o que bem entendesse. Num impulso idiota. De gritar, não sei. E o estranho é que eu não o fiz, num impasse desgraçado, que me rasgava o interior. Eu sabia que minha cabeça exagerava e sentia uma necessidade irracional de ter bom senso, algo a ver com a Clara.

Fiquei portanto imóvel ali, sentada no meio-fio, num cigarro em seguida do outro. Os acendia consecutivos. Por mais tempo do que o aconselhável em São Paulo àquela hora, sozinha. Argh. Estava alcoolizada demais para considerar a minha segurança. Os meus pensamentos pareciam se voltar contra mim, contra a minha conduta e a porra das minhas decisões. Minha inconstância. Inferno. O que eu tenho a oferecer a ela, diabos? E então me ocorreu – lá pela metade do segundo cigarro – que sete horas antes ou nem isto eu estava comendo a namorada do meu melhor amigo no meu apartamento. Senti repulsa a mim, a quem eu me tornara. Em vista a tudo o que eu tinha e desperdiçava. E talvez este fosse um asco induzido pela situação, talvez ele sumisse na manhã seguinte e certamente sumiria, mas aquilo me contaminou no segundo em que me acertara. Puta que pariu.

Eu precisava da Clara. De repente dei-me conta do quanto precisava. E coloquei o cigarro entre os lábios, liberando a mão direita, para alcançar então a carteira no bolso. Abri-a e contei o dinheiro que tinha ali. Não dava nem nove reais e o metrô não abriria até dali uma ou duas horas. Foda-se, perdi o bom senso, ando para casa depois. Fiquei em pé na mesma hora e me dirigi o mais sóbria que conseguia até o ponto de táxi na esquina com a Teodoro. Pedi que me levasse ao prédio da Clara – a algumas, muitas quadras de onde estava.

Restaram-me uma nota de dois reais e algumas moedas, míseras. Desci determinada e andei poucos passos até o interruptor do seu apartamento. Toquei. E esperei pelo que me pareceu uma eternidade, sem resposta. Estou atrasada, ela já foi dormir. Pensei e suspirei. E toquei de novo, segurando o botão pressionado agora por mais tempo. Nada, de novo. Puta merda. Respirei fundo, com ambas as mãos apoiadas na parede que alocava as campainhas brancas, prestes a socar o cimento se não conseguisse corrigir a minha cagada. Toquei a terceira vez – e encarei, ansiosa, o viva-voz que ficava poucos centímetros abaixo dos botões com os números dos apartamentos. Esperando por qualquer sinal. Qual é, Clara, me atende, porra! Os segundos se prolongavam vazios frente ao seu prédio, em silêncio.

Dane-se. Peguei então o celular e tentei ligar para ela – a chamada, todavia, foi direto para a caixa postal. Maldição, quis jogar o telefone longe ao cancelar a ligação, mas não é possível. Caralho! Tornei a enfrentar a merda do painel com os interfones dos apartamentos. Chamei o seu número, pela quarta vez. Nenhuma resposta. Nada. Apoiei a testa contra a parede mais acima, sob a impressão de estar ali há horas, pressionando agora o botão continuamente. Ouvia o zunir da campainha, incessante – e o imaginava cortar o silêncio do seu apartamento modesto. Vez ou outra deixava o dedo subir alguns milímetros e tornava a pressionar o botão então, após uma pausa de nem um milésimo, propositalmente irritante. Atende. Atende, cacete. Escutei enfim o ‘cléc’ do interfone, sendo tirado do gancho do outro lado.

13 comentários:

francielli# disse...

agarre essa cléc do interfone e se redima =p

Ana Paula disse...

ahhh Mel como vc faz isso?? eu já tava ansiosa por esse, aí vc piorou a situação me deixando mais ansiosa pra o próximo, querendo ver a DR u.u

Flavs disse...

Clara, pfvr releve a merda que a FM fez, pfvr ):

Anônimo disse...

Eu ainda nao entendi o porquê desse pití da Clara =/

Fer disse...

Vai FM, aproveite a chance, pleaaaaase!

Camyla disse...

Agora vai! Se bem que eu nem sei se a FM ainda merece a Clara u.u
Enfim... Aguardando ansiosa o próximo >.<

Bruna disse...

Aaaaahhhh... terminar o post no começo do que seria um fim é tenso!
Ansiosa é pouco!

Anônimo disse...

Nao quebra assim neh
Poooooosta mais!

Anônimo disse...

Quero que a FM termine com a Clara logo, pfvr

#TeamMiaForever

Anônimo disse...

Eu gosto dessa independencia da Clara. As outras garotas realmente ficariam la e a Clara faz a FM se tocar um pouco que ela pode ser idiota as vzs. Elas tem um relacionamento bonito <3 <3

E amei o barraco bebadas, mto elas! Me lembra um pouco a Dani, ms evoluido!!

Anônimo disse...

Eu era Team Mia até uns dias atrás... VAI CLARA, DÁ JEITO NESSA FM!

Anônimo disse...

Ainnnn...msm sendo torcida da Mia...tô adorando a atitude decidida da Clara....
Quem não se apaixona???!!!

E Mel...uma das coisas boas do post hj é saber q já tem outro p ler!! kkkkkkkk
Obg pelo post duplo de natal!!

Aliás...FELIZ NATAL pessoal!!
(ANA CURI)

Anônimo disse...

achei DO CARALHO a descrição de como o alcool, a cocaina e a angustia afetaram a FM nesse post em especial. foda demais como vc passou isso em palavras