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dezembro 17, 2012

“Não é o que você pensa”

A sala estava caótica. O Vive la Fête ensurdecia todos que rasgavam a garganta nas rodinhas de conversa para falar quase tão alto quanto o primeiro álbum bom da noite, num êxtase ruidoso. Havia gente demais para um apartamento de um só quarto em Pinheiros e eu não conseguia racionalizar de onde haviam saído tantos copos, tantas garrafas ou marcas redondas espalhadas pelas mesas e peças de centro e apoios de sofá e pelo chão cada vez mais imundo. Olhei para o lado e a Clara parecia discutir relativamente exaltada a alguns metros dali com a, alguém – os meus olhos estavam subitamente dispersos; minha cabeça disparava como se lutasse contra o meu corpo imóvel e eu não conseguia focar em nada, porra nenhuma. Fechei as pálpebras e as reabri, inebriada, ainda levemente confusa.

_E o que eu penso? – ela perguntou à minha afirmação anterior.
_Eu... – enrolei a língua para falar e ri à pergunta sobre o Fernando, meio atordoada; então lhe murmurei, tendo-a como provável amiga da Clara e me explicando – ...é um cara, ‘Fer’ é um cara.
_Hum... – ela sorriu, a garota ao meu lado; os seus delicados cachos negros pareciam formar desenhos suntuosos no ar hype da festa e aparentava mais no controle de si do que o restante de nós – ...interessante. Você, hétero.
_Não... – ri.
_Não?
_Ele mora, ou... morava comigo. É um amigo, só.

Ela ergueu as sobrancelhas. Movia-se com certa graça; eu a admirava em inconsciência alcóolica. Tinha os shorts dourados arregaçados, torneando a base das suas coxas. Apenas uma pulseira também dourada no pulso. Aproximou-se então do meu rosto e disse em tom baixo, como se confessasse, colocando a mão na minha perna: “Não achei que fosse mesmo”. Não torne isto difícil. Virei o meu rosto na sua direção, encarando-a com um gosto, ahm, apetite na boca. Uma outra garota literalmente havia desmaiado numa cadeira a menos de dois metros de onde estávamos; e eu sentia o calor se manifestar nos meus pensamentos, enfiados até dizer 'chega' em álcool e outras substâncias menos lícitas.

_Não? – divertia-me, ainda afundada naquele sofá com conforto, fora de mim – E o que me denunciou?
_Bom, para começar... você é a única sem blusa na festa – ah, é, sobre isto..., me constrangi por um segundo e ela ajeitou-se ao meu lado, me encarando com um achar graça no canto dos lábios cheios – e, não sei se reparou, mas só tem mulher aqui.
_É, é? – ri.

“Sabe que não tinha reparado, né”, eu disse, completando. E os minutos pareceram escapar do meu controle, de repente – sentada ao seu lado, sem qualquer traço restante de moral, numa conversa que se desdobrava em rodeios e ambiguidades deliciosas. Com a garota do black power, charmosa. A ínfima parte ainda sóbria em mim me alertava de que ela era mais do que provavelmente alguma amiga ou conhecida da Clara. Nada era realmente dito ou feito. E isto é absurdo, pensei. Observava a sua pele negra adornar um osso um pouco mais saltado no seu ombro, de forma sutil. E realmente irresistível. Puta... que pariu, a mera visão me dava um calor desgraçado.

Eu sabia que devia ter saído dali. Entretanto, todo o resto do meu corpo parecia já ter esquecido o que eu estava fazendo naquela festa. Onde estava, o que é pior. E rolavam uns tateares incertos, uns climas despretensiosos de “começo”. Eu brincava, não sei explicar. Ouvia-a e provocava sem real intenção de beijá-la; não sabia o que diabos fazia, porra – estava com a cabeça entupida de coca, de álcool; com um fogo que explodia as minhas veias de dentro pra fora. E não estava pensando a respeito, caralho. Os arredores tontos me invadiam. Era só, sei lá, uma abertura que surgira ao acaso; um passatempo. Mas alguém, claro, estava prestes a não o achar.

_...e umas flores aqui, algo que flua, entende – deslizei as minhas mãos por um dos seus braços, suavemente, tentando convencê-la de que uma tatuagem ficaria atraente nela; que ria e justificava não achar bonito; ainda que mantivesse os dedos sobre a minha caveira nas costelas, exposta sob o meu sutiã, sem blusa, e dizia gostar – ...como não? Ficaria linda, porra, mesmo.
_Você até que é convincente – riu.
_É que eu sou paga pra fazer propaganda d’uns estúdios.
_Sei – continuou achando graça.
_Sério! – prossegui, com sarcasmo, afundando ainda mais o corpo no sofá e acendendo um cigarro meio de qualquer jeito – Na boa, quando você quiser alguma indicação de lugar, cê me liga e a gente vai.
_Então, quer dizer – soltei a primeira tragada e ela debruçou-se delicada sobre a perna que eu tinha apoiado na outra, colocando a mão sobre o meu joelho e falando como se insinuasse – que eu vou ganhar o seu telefone?
_Bom, qu...

Antes que eu pudesse responder – ou sequer me dar conta –, a Clara veio voando na nossa direção e empurrou o meu pé para fora do apoio do joelho oposto, me desequilibrando. E à garota, que quase caiu do sofá de tão na ponta que estava. Merda. Olhei para cima e encontrei uma Clara enfurecida, tão embriagada quanto eu àquela altura, pronta para me chamar de todos os nomes que eu provavelmente merecia. Eu me fodi.

20 comentários:

Ianca' disse...

Achei esse post muito massa, me senti nele, os diálogos fluíram de uma forma muito interessante, mew. E a Clarinha puta? Se fudeu! hahahahaha

Juliana Nadu disse...

AAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!

>.<


Obrigada! ;]

Anônimo disse...

Briga de casal, que lindas.

Anônimo disse...

OMG!!! Me diz como a pessoa dorme agora?? Como a pessoa sobrevive até o próximo post??!!
Arrasou Mel!! Mais uma vez...OBG!!
Quero ver o furdunço que vai rolar...kkkkkk
(ANA CURI)

Anônimo disse...

Clara bêbada, já discutiu com a Natalia la e agora com a fm... se fodeu msm, sinto informar kkkk o prox. vai ser animal!!

Anônimo disse...

SÓ DIGO UMA COISA: VISH!

Anônimo disse...

ahuahuahuhau... e a clara, que nao era barraqueira, esta prestes a perder sua emaculada 'fama'...

@livia_skw disse...

F O D E U !

Anônimo disse...

hahahhahahahhahahhaha
Um barraco de vez em quando faz bem hahahahha :D

c' disse...

Saabia qe a autora estava guardando uma carta na manga. Jajajahaha
Vai ser babadissimo agora hein.
Clara ja discutiu com a natalia/natali la , agora vai sobrar pra fm. Hahhhh

Anônimo disse...

[caralho, emaculada foi foda. Imaculada. pls! my mistake!]

Lorena Costa disse...

podia ter barraco... hahahahah <3 adoro

Pathy disse...

Barraco, barraco, barraco.. HAHAHAHAHAHAHAHA

Bruna disse...

O me fodi no final foi mto bom! hahahaha

Anônimo disse...

kkkk. Ótimo post!

Gabs disse...

A-M-E-I o post. Sem mais, cara.
Esperando ansiosamente pelo próximo. *-------*

coxiba disse...

BRIGA, BRIGA, BRIGA \O/

Anônimo disse...

Hahahaha
Quero muito ler o próximo post!
FM apela também!!

Ps: Mel tem algum outro link onde eu possa baixar o Fuckin' Mia 5? Tô tentando há algum tempo e não consigo...

Mariah.

bru disse...

eu sempre passo um tempao sem visitar o blog pra quando vier ter muitos posts e tu me vem com um final desse, mulher?? Poste logo o outro ou o barraco vai ser com uma tal de mel...

Nay disse...

no dia do encontro a gente tava conversando com uma morenona black power sobre tatoos... no caso, a julia UAHSUAHSuhsA