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julho 20, 2010

Botequinho

_Você não mudou nada, hein? – ela riu de qualquer besteira que eu falei, uma daquelas cantadas fáceis, prontas, que não exigem pensar muito... que era o que eu fazia de melhor.
_E isso é bom ou ruim?! – sorri, imprestando, com os olhos nela.
_Não vou responder... – ela se inclinou na minha direção, com uma das mãos pouco acima dos meus joelhos, sentada no banco ao lado – ...senão você vai ficar se achando.
_Olha... – traguei o cigarro e olhei rapidamente para a mão dela em mim – ...eu já tô me achando.

Ela riu mais uma vez, me observando como se quisesse me beijar, quase lisonjeada. No entanto, ali não era lugar. Nos encontramos próximo do prédio dela, que ficava escondido na A. de Queiroz, do lado do boteco da Alôka. O estabelecimento – clássico trash paulistano – dispensa apresentações e, portanto, é mais do que desnecessário dizer que um beijo, ali, causaria respostas proporcionais aos freqüentadores de nível do local.

Sábado à tarde: só nós, a atração principal há bons vinte minutos, e os realmente alcoólatras no bar. A menção ao meu ego remeteu, sem querer, a uma conversa com a Mia duas noite antes, memória que eu tentei apagar da minha mente conforme soltava a fumaça, por um espaço pequeno entre os lábios. O que eu to fazendo aqui, mano..., eu pensava, enquanto sorria falsa para a merda aleatória qualquer sobre a qual a tal Thaís tagarelava naquele momento.

_Meu, está afim de... sei lá... ir pra outro lugar? – eu perguntei, interrompendo-a, já apagando o cigarro no balcão.
_Ahm... – ela me olhou, meio confusa com o corte, como se reformulasse a pergunta na sua cabeça – ...acho que sim, não sei. Humm... você quer?!
_É – eu suspirei, já sem paciência e sem entender porque nos encontramos lá para começo de conversa – Sua casa, talvez?
_Err... pode ser – ela me olhava, ainda perdida, processando a mudança súbita de planos.

Para a minha sorte, a instabilidade do meu humor estava um nível acima da compreensão dela naquele momento – e pode-se considerar que eu também disfarçava suficientemente bem. Me levantei e esperei por ela, colocando a mão delicadamente nas suas costas, a acompanhando, numa demonstração de puro cavalheirismo hipócrita. E fomos, pagar a única long neck que consumimos.

Dali para o seu apartamento, contando os prováveis cem passos (ou menos) necessários, levamos dois minutos. Da porta até eu colocar minhas mãos nela foram menos de dois segundos. Mas o primeiro beijo foi estranho. Não pelo gosto de cerveja, porque isso nunca me incomodou, mas porque pareceu... hm, deslocado. O que há com você, porra, me indignei comigo mesma.

É só uma mina, eu pensava, vê se faz direito. Forcei os olhos, fechados, e me obriguei a ignorar tudo de errado que havia naquela situação. Não queria pensar na Mia. Queria fazer o que sempre fiz, queria estar fora ou na sarjeta, estar "por aí" pelos motivos certos. Pela imoralidade ou em virtude do aproveitamento pleno da vida, não por culpa.

Mas, não, não era assim que eu me sentia. E foi difícil, como nunca antes. Garotas eu já havia comido aos montes, podia fazer aquilo de olhos fechados – quer dizer, de preferência abertos... –, uma vez que eu começava era como se não precisasse mais pensar.

No entanto, cada vez mais freqüentemente, nos últimos meses, minha mente se enchia de todo tipo de conflitos internos e imagens – extremamente – inadequadas para a ocasião. Segurar alguém com o coração e a cabeça em outra é mais complicado do que pode parecer. E aquela rodada, em especial, foi bastante difícil... mas, enfim, foi.

E, no fim, restei eu – acompanhada de uma garota semi-nua e sem paz alguma de espírito. Eu já deveria ter aprendido, passei a mão no rosto, frustrada com o fracasso absoluto da minha tentativa de consertar o presente com os métodos do passado. É, eu deveria saber. As coisas mudaram, violentamente, eu repetia para mim mesma o que eu há tempos já sabia. Era o fim da linha para mim.

8 comentários:

Anônimo disse...

ooo gente. a mia tá foda estragando foda já.

Jupiter disse...

engraçado que o "fim da linha" pra ela é estar apaixonada, né... hahahahah
nao adianta, acho lindo x)

Inglória disse...

A.M.->(Antes da Mia) A devassa colocava no automática e fluia....
D.M.-> ela tenta dar a partida e.........nadaaaaaaaaaaaaa...


heheh

Rayssa disse...

HAUHAU como ja falei no twitter HAUAH Inglória resume HAUHAU adorei ahuahau

Thais disse...

Adorei o nome da vizinha! hahahahaha

Lu disse...

Mel, que luz! Eu não ia aguentar ela na vida de novo reinicando a lista telefõnica se Sampa e agora ainda com o convite da Rayssa, do Rio tb.! :)
Eu gostei dessa mudança, seria muita ilusão da minha parte?!? :/

Pri Araújo disse...

A única coisa que tenho a dizer é: olha a Mia fucking a vida da Devassa, nesse momento, apenas no mal sentido!

matt. disse...

Tipo, não curto quando a Devassa está fodendo tudo e todas. :(
Gosto de vê-la toda apaixonadinha e mais comportada (que é difícil).