_Ai, pai. Não enche!
_Quê?!
_Ah, cê sabe, eu tento... – o desgraçado do Fernando colocou o braço sobre os meus ombros, fazendo graça – ...mas ela não me dá bola. O que eu vou fazer, meu, sua filha que não me quer.
_Babaca... – revirei os olhos, empurrando-o de cima de mim, enquanto meu pai se divertia com a cena – ...vamos embora, por favor?!
_Quem?! A Lê?
_É. Aquela que estava na sua casa – disse, como se desaprovasse.
_Meu deus... – eu arqueei as sobrancelhas – ...lá vem.
_Fale a verdade – insistiu – Vocês estão namorando?
_Não, mãe. Não estamos namorando, a Lê é só minha amiga.
_Sei. Olha, eu não... n-não quero me intrometer na sua vida, você sabe... – ela começou um discurso passivo-agressivo, que eu já sabia só pelo tom o que ia ser – ...a gente não liga, eu e o seu pai, você pode sair com meninas, como quiser.
_“Posso”? – eu interrompi, rindo, e ela me ignorou.
_Só que essa garota é meio... estranha, não sei. Você não achou, bem? – meu pai olhou para o outro lado, evitando ter parte na conversa, e minha mãe prosseguiu – Sabe, eu não entendo por que essas garotas precisam andar como se fossem uns moleques, cortar o cabelo curto daquele jeito, usar aqueles... – ela me olhou, fazendo um movimento esquisito perto da orelha – Como chama mesmo?
_Alargadores?
_É. É muito esquisito e com aquelas tatuagens enormes, sabe, no braço... Bom, você sabe minha opinião sobre tatuagens – ela me olhou feio, conforme saíamos do elevador – E não tem necessidade, sabe, se ela só colocasse um vestidinho, deixasse o cabelo crescer... Você viu aquela roupa que ela estava usando?! Parecia um menino! Com aquela calça larga... Ah, eu não gosto. Por que você não arruma uma garota mais... estilo a... a-aquela que você namorou... a... a Natália! Ou a Marina, ah, eu gostava tanto da Marina. Ou, então... – cutucou meu pai com as costas da mão, batendo no seu braço – Como era mesmo o nome daquela bonitinha, bem? A que eu sempre comentava?
_Raquel.
_Isso! Hein, por que você não sai com umas meninas assim? Sabe, mais femininas... Você é tão bonita, minha filha, se você se arrumasse mais também. Passasse uma maquiagem, sabe...
_Mãe, na boa, não começa – me irritei, já de saco cheio de ter a mesma porra de conversa toda vez que nos víamos – Eu tô bem assim.
_Mas, filha, precisa sair com umas meninas dessas?
_Não tem nada de errado com a Lê! Cê já olhou pra sua filha, por acaso? Porque sou eu que você tá criticando, mãe, a Lê é igualzinha a mim – enfatizei, sem paciência, enquanto andávamos na calçada em direção ao shopping – Se tem alguma coisa para dizer sobre minhas roupas, o jeito que eu sou, é só falar. E mano, que parte de “nós somos amigas” cê não entendeu?!
_Não... – bufei – ...eu não disse que ela não dormiu aí, ela dormiu. Só não comigo.
_Não precisa dar os detalhes.
_Mas eu não falei nada!! – resmunguei, revirando os olhos – Meu, não sei qual a dificuldade de entender que lésbicas têm amigas. Eu tenho um monte e não é porque são minas que eu vou me interessar. Não funciona assim, meu, não tá todo mundo dormindo com todo mundo...
_Ai, meu deus... – olhei para o lado oposto, incomodada.
_O quê?! – ela questionou, como se não entendesse o que tinha feito de errado – Eu só quero saber, oras, não tenho direito?
_Não é da sua conta, mãe... Não tô saindo com ninguém, pô.
_Benzinho, deixa a menina em paz – meu pai se manifestou, enfim.
Salve, salve papai.
