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novembro 30, 2010

Em família

_Aí... Você sabe quem é “Renata Campos”? – a Lê me perguntou, sentada no meu computador.
_I am on a lonely road... – eu cantarolava em cima da cama, com um baseado na mão, sem dar atenção à pergunta – And I am travelling... travelling... travelling... travelling...
_Ei, Joni Mitchell? Me ouviu, porra?! – ela falou alto e riu.
_Ouvi, não faço idéia de quem é – respondi despreocupada, tragando mais uma vez, e soltei a fumaça lentamente antes de continuar a me mover de um lado pro outro.
_Hm, está nos amigos em comum – argumentou, já de costas para mim, murmurando mais para si mesma do que se dirigindo à minha pessoa – sei lá, vou adicionar.
_Do you wanna take a chance on... – continuei cantando, ignorando-a, e brisando sozinha – ...maybe finding some sweet romance with me, baby? Well, c’mon! – eu fechava os olhos e sentia a música correr, tranqüila, pelo meu corpo.

O dia havia amanhecido – o relógio já marcava 12:06, na verdade – mais ensolarado do que os anteriores, que foram nublados e tomados por um frio do cacete. A temperatura fresca daquele domingo me permitia, porém, ficar à toa de calcinha e blusa pelo quarto, enquanto a minha amiga se entupia de Coca-Cola, aprovando novos pedidos de amizade no Facebook e, claro, fuçando na vida social online da ex-namorada. Mesmo com uma leve ressaca mútua, o nosso humor estava excelente, tanto o meu quanto o da Lê, desde que acordamos.

_Do you see... do you see... do you see how you huuurt me, baby? – eu seguia cantarolando e meus olhos vagavam pelo quarto, assistindo-o de cima da cama, inconscientemente dançando – ...so I hurt you too... – tragava mais uma vez, entre um verso e outro, conforme meus pés descalços passeavam lentos pelo colchão – ...then we both get soooo bluuuuuuueeeeee.

No meio da música, contudo, alguém interrompeu a minha viagem boa. Era a porta, sendo esmurrada pelo meu melhor amigo. Tá, exagerei. Na realidade, ele só bateu, mas interrompeu mesmo assim. Desci da cama, me sentindo mais leve do que o normal, e virei a maçaneta, abrindo-a. No corredor, com um dos antebraços apoiados no batente acima da altura da minha cabeça, estava parado o Fernando, já devidamente vestido, trajando um jeans e camiseta branca.

_Pois não? – perguntei, levemente chapada.
_Seus pais tão aí na porta. Eu disse que ia te chamar... – ele resmungou, com cara de sono –  ...não ouviu a campainha?
_Nem... – sorri, meio amarelo, percebendo que talvez o tivesse acordado e que aquela era, na verdade, a mesma roupa do dia anterior – ...já... já tô indo lá, valeu.

Dei dois passos para trás, na direção do meu armário, e vesti um shorts qualquer. A porta permaneceu aberta.

_Mano... – o Fer botou a cabeça dentro do quarto e começou a rir – ...tá puta marofa aqui dentro! Seus pais não vão achar ruim, não?
_Sério isso?! – olhei em volta, meio assustada, e a Lê achou graça.
_De boa. Vai lá, vai lá... Eu vou abrir a janela... – o Fer riu, de novo.

Conforme entrou, eu saí simultaneamente do quarto. Não sabia se meus pais iam, de fato, pisar ali dentro, mas era sempre melhor não arriscar. A minha sorte, todavia, é que ambos nunca souberam reconhecer cheiro de maconha em mim. Se pudessem, certamente, a minha adolescência teria sido bem diferente do que foi e os meus intermináveis castigos e broncas recorrentes teriam sido, de fato, intermináveis. Não havia risco quanto a isso. Contudo, uma fumaceira daquelas acumulada bem no meu local-de-dormir com certeza desencadearia um longo e desnecessário "papo".

Logo me dirigi à porta de entrada, que estava aberta, e achei meus pais conversando do lado de fora no corredor. Minha mãe me apertou assim que me viu, não esperando nem eu terminar o meu “oi” inicial. Há meses não a via, apesar de morarmos na mesma cidade e de ela me telefonar com freqüência. O mesmo acontecia com meu pai, exceto pelos telefonemas. Ele, contudo, eu havia visto por último, em um jantar perto do meu trabalho. Meu pai estava mais gordo e simpático do que nunca, a uma primeira vista, enquanto minha mãe aparentava ter perdido dois ou três quilinhos e encurtado as madeixas loiras. Elogiei-a, é claro.

_Você acordou agora? – meu pai perguntou, me abraçando pelo ombro.
_Acordei faz pouco tempo – respondi – espera dois segundos aí na sala, eu vou trocar de roupa e a gente sai pra comer em algum lugar aí depois, pode ser? Vocês querem ir almoçar lá no shopping?
_Por mim, tudo bem – minha mãe disse.
_Ah! E chama o Fernando aí, quero trocar uma palavrinha com ele.
_Seu pai comprou um laptop novo... – minha mãe revirou os olhos, explicando.

Eu ri e deixei-os aguardando no sofá, enquanto ia chamá-lo. No meu quarto, o Fer havia acendido um cigarro normal e estava fumando na janela, enquanto conversava com a Lê, ainda sentada na cadeira da escrivaninha. Olhei para ele e fiz um gesto para que voltasse à sala, indicando que meu pai queria falar com ele, para variar.

A admiração do velho pelo Fer, às vezes, me cansava. Ele me adorava, evidentemente, sempre fui a filha com a qual ele podia beber cerveja aos domingos e assistir futebol junto. Mas a questão é que eles dois se davam muito bem também. O Fer viveu boa parte da nossa adolescência lá em casa, quando eu ainda morava com eles, e acabou se tornando o filho que meu pai nunca teve. Ou, pelo menos, essa era a minha teoria.

Agora, parei em frente ao armário, meio brisada, com que roupa?

7 comentários:

R. disse...

acho que nao consegui ser a primeira dessa vez :(

é tão gostoso acordar de bom humor *-* (e quem me dera meus pais fossem ruins com esse cheiro :x)

espero que de tudo certo no almoço da FM com os pais

lari disse...

Não conhecia a música, é lindaaaaaaaa *-*

Nah disse...

Momento familiaaaaa, eh acho que ela ta precisandoo..

Ianca' disse...

Papai curte demais todos menos eu kkkkkkkkkkkkkkkk
Devassa chapada, posso ver o estado... olhinhos vermelhos e fumaçal da porra kkkkkkkkkkk
ótimozão ;*

Thais disse...

Eu sei!! Renata Campos é minha amiga!! Sério...
Mas ela acabou de casar.... com um cara....
:/

Patife disse...

O Patife gosta disto.

Rayssa disse...

Nham quem que nao gosta do Fer?T1
ee é hot aiai T1