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abril 25, 2010

Dissolved Girl

Começa.

Começa com um olhar na balada; depois, uma conversa cheia de segundas intenções; e, enfim, um convite mais do que indecente. Os acontecimentos se aceleram progressivamente até a pista de dança, bem-acompanhada até o chão... Numa rapidez tudo converge contraditoriamente para o silêncio: aquelas quatro paredes de um típico apartamento paulistano, aquela meia-luz sugestiva, aquelas intenções subentendidas. Três garotas. E aí começa a música, lentamente, despindo-as uma a uma. Camisetas e vestidos no chão; alças de sutiã escorregando por braços descobertos; zíperes se abrindo pouco a pouco; beijos delicados esquentando a pele; imoralidade. Uma a uma.

 “Shame, such a shame…
I think I kind of lost myself again…”

Começa, na verdade, com um olhar em meio a uma tarde lenta. Mais lenta que a música no quarto acima. Você deixa seu rosto escapar em segredo para o lado, mesmo quando não deveria, e acaba por vê-la. Progressivamente, as batidas do seu coração aceleram. A lentidão te irrita, o silêncio te incomoda. Você sente o que não quer e, então, procura sons mais altos. Para ensurdecer o barulho que vem de dentro do seu peito. Procura qualquer coisa que te faça perder os sentidos. E encontra as curvas perfeitas no meio do caminho.

“…say, say my name…
I need a little love to ease the pain…
I need a little love to ease the pain…”

As pontas dos seus dedos percorrem as curvas dela, enquanto a ponta da língua daquela garota já conhecida percorre as suas. Continuamente. Vocês se movem juntas, sem pensar muito a respeito, e deixam o álcool desinibir o resto. Você já conhece todos os truques, sabe como agradar uma mulher. Ou duas. E faz exatamente isso, como se fosse parte da sua própria natureza.

“…'cause it feels like I've been,
I've been here before…”

No fundo, porém, você está física e emocionalmente cansada. Cansada de tardes como aquela, mas cansada também de noites como essa. Cansada de agradar uma, duas, três ou quantas mais vierem. E elas vêm, ah se vêm, uma após a outra. Todas elas – menos a que você tanto quer. Ela, não. Ela não vem. E no fim do dia, a sua cama continua sempre vazia. Dia após dia. Uma hora você simplesmente se cansa e, antes que perceba, está de novo nos braços e nas pernas e nas bocas de outras.

“…you are not my savior
But I still don't go…”

Que se dane. Que se dane toda a baboseira romântica – você pensa. Mulher alguma é melhor do que mulher nenhuma. Não é como se você tivesse algo melhor para fazer enquanto a espera, ali, sem perspectiva alguma, sofrendo por detrás de portas fechadas e corredores incertos, estreitos demais. Com elas é fácil. É gostoso. Tranquilo. Descomplicado – você se convence. E ao menos, você se diverte. 

“…passion's overrated anyway
Say, say my name…”

Então, você troca as pernas que viu sentadas sobre a pia naquela tarde pelos dois pares de coxas magníficas que agora se entrelaçam no seu corpo. O nome – aquele nome – continua na sua cabeça e em cada mulher que você coloca na sua cama, te perturbando. Insistentemente. No entanto, pouco a pouco, os dedos, o sobe e desce, os toques, os arrepios, as línguas, o gosto salgado de suor, a endorfina e toda a intensidade do momento fazem você esquecer. Esquecer do nome, esquecer dela, esquecer de por que você está ali afinal. Você se perde em cada centímetro de pele descoberta. Você perde a cabeça.

“I could fake it...
But I still want more, oh…”

E aproveita cada segundo daquilo. 

24 comentários:

Cy para os intimos!!! disse...

Adoro o seu blog!!! Cada vez melhor a história!

Até que enfim, consegui ser a primeira a comentar!!! rss

Anônimo disse...

nossa!! arrasou!

Cris disse...

Cá vim, esperando um post sexual (embora bem escrito, como sempre) e você me surpreendeu novamente! As passagens, as dúvidas e o desenrolar do pensamento da personagem foram tão inteligentes, tão bem construídos que me tiraram o fôlego. Devo admitir que, para um escritora tão jovem, me incomoda o fato de você encabeçar a lista das minhas favoritas. Parabéns e obrigada por alimentar esse blog tão delicioso, volto sempre ávida por mais um pouquinho! ;-)

fiktiva disse...

Muito lindo o texto... E ótima escolha de música também...

Liz M. disse...

Não sei porque eu ainda insisto em querer respirar normalmente depois de ler o Fucking Mia. É impossível!

Não sei explicar, mas falava disso ontem com uma amiga. De todas as sugestões que nunca são mostradas explicitamente.

Se fosse um filme, essa cena seria toda em câmera lenta, com uma ou outra narração - talvez da parte em que ela fala de todas virem "menos a que você tanto quer".

Perfeito!

Anônimo disse...

OMG...isso foi INTENSO!!! *-*

estou sem palavras, amei! amei a musica, amei o texto, amei tudo. post perfect! concordo com a liz fikei sem ar, Mel!!! to td arrepiada..uau!

matt. disse...

Muito intenso. Me tocou profundamente.

Júlia Gallant disse...

Parabéns, Mel! Assim como a Cris, vim esperando algo diferente (também bom) e me surpreendi. Muito legal o jeito que abordou o assunto e o post introspectivo e reflexivo. A trilha sonora também completa o texto e fica um conjunto deveras viajante haha.

Isa disse...

Bah, todo mundo esperando uma coisa absolutamente sexual e tu vem com isso. Muito bom.

Fez a música encaixar perfeitamente.

Ale Leonhardt disse...

noossa!! achei uma das melhores postagens!! "cansada de agradar uma, duas, três, quantas vierem." nossa, essa coisa de ter umas pessoas passageiras e querer só uma intangível é realmente algo recorrente entre todas nós u.u adorei a postagem, muito mesmo. além de adorar o blog hehe

Sharla disse...

Incrível como sempre. Muito, mas MUITO bem escrito. Entrar na cabeça da protagonista e ver o drama e a decepção dela, querendo mudar mas no momento sabendo aproveitar.
A cada post admiro mais o teu jeito de escrever, e mais quero ler :)

Mikaylla disse...

LINDO! Eu li ouvindo a música e tava até sincronizado! rs
Parabéns Mel ;)

Tatá disse...

Noosssa, muito bom. Palavras nunca são só palavras né? DEMAIS.

carine disse...

só reforçando todos os comentários merecidos..no mínimo perfeito e intenso.

eu entendo o lado da FM, mas ainda acho que mesmo gostando de alguém, se esse alguém não te acha merecedor de esforço, simplesmente não vale a pena..e a Mia, sei lá, eu entendo que ela pode estar confusa...mas não parece que é confusão, parece que é imaturidade mesmo, espero que eu esteja sendo precipitada xD

beijos, e continue escrevendo tão bem assim :D

PriscieAraujo disse...

E ainda tem gente que me pergunta por que gosto tanto do blog...

Realmente, ler ouvindo a música foi perfeito!

“Mulher alguma é melhor do que mulher nenhuma”. Só não é melhor do que a mulher que tanto quer.

Acho que o pior de toda essa situação é que se superestima tanto a pessoa desejada ao ponto de, às vezes, pessoas fantásticas passarem despercebidas ou não receberem o devido valor.

Vi disse...

ARREPIEI

Dea disse...

ai, Mel... imagina o ensaio DESSE post!

Bú disse...

Mel por favor apaga todos os comentarios da tatá...ela só fala merda!! ahuahauhauha

bjss
saudades

Pekinha disse...

Ela não ama a Mia :(
/pareicomvcs!
#decepcao

eutenhoproblemas disse...

Muito bom. A trilha dos posts é sempre perfeita. Nem vou falar parabéns de novo pq senão vai começar a ficar redundante hahaha.

Lu disse...

Sabe, tinha um certo receio do que encontrar aqui hj... De novo, errei! Mel, que lindo! Vc. pintou artisticamente a cena e a mente... Parabéns!

Giovanna Maset disse...

Amo Massive Attack ! Arrasou, dissolved girl rocks total !

Sophya disse...

Todos os posts a cima falam o que vou repetir agora, mas vou repetir rs, a três dias conheci seu blog e não consegui parar de ler, e essa parte em especial ficou maravilhosa, vc conseguiu transmitir todos os sentimentos dela, quer dizer as outras distraem mas ainda não são ela, mas são melhor que a depressão, e o não saber como ter ela :S aaaa, sei como é isso :S

@livia_skw disse...

Não importa quantas vezes eu leio esse post, eu sempre me arrepio!

Um dos meus preferidos...