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janeiro 08, 2010

Ex-namoradas

Resolvi encontrar a Marina para um almoço no meio da semana e contar-lhe a história toda. Já faziam duas semanas e meia desde o beijo. A Mia continuava sumida e eu continuava desesperada. Eu preciso da Marina.

A Marina era uma ex-namorada minha que, anos depois, tornou-se uma grande amiga. Não nos víamos há um tempo e logo me lembrei o porquê: encaixar os nossos horários foi uma tarefa ingrata e quase impossível. Ela estava trabalhando como jornalista numa revista e passava o dia correndo de um lado para o outro, sem horários fixos e nem tempo para respirar. Já eu, ganhava os meus míseros 60 minutos – a serem consumidos na mesma hora, todo santo dia.

Com um atraso significativo, ela chegou para o nosso encontro em um bistrô próximo ao estúdio onde eu trabalhava, na Vila Madalena. De todas as minhas ex-namoradas, a Marina era a mais culta e de longe a mais desastrada – o que eu considerava bem charmoso, para falar a verdade. Tinha uma franjinha e o cabelo castanho logo abaixo do ombro. Eu amava aquela garota. Como a Marina já sabia de todo o meu encantamento pela Mia, não foi difícil inteirá-la dos últimos acontecimentos.

_Hmm, assim? Sem mais, nem menos? – perguntou, interessada.
_É! Simplesmente beijei. Ai, Má, eu sou uma completa idiota.
_E ela não disse mais nada?!
_“Por que você está fazendo isso comigo?”. Eu não consegui responder.
_Bom, isso é sugestivo... – analisou – Mas ela te beijou de volta?
_Não sei... mais ou menos – a Marina me olhava, insatisfeita com a resposta – sei lá, Má... Ela não me impediu, mas também não fez porra nenhuma!
_E ela parecia brava? Digo, depois, ela ficou brava?
_...mais para assustada. Ela estava triste, eu não sei – a lembrança dos olhos da Mia surgiu na minha cabeça, de repente –, mas não comigo.
_Com quem, então?
_Não sei – respondi, acendendo um cigarro, ainda nervosa.
_É... Meio difícil de entender... – ela parecia refletir, com os olhos focados acima da minha cabeça, perdidos no espaço – Quer dizer, achei que ela tinha batido na sua porta pra isso. Não?
_Mano, MAS QUE MERDA! – amassei o rosto com as mãos, com raiva de toda a situação – Eu me senti como se fosse o seu namoradinho de infância, sabe? Partindo a porra do coração dela com aquele beijo, do nada. Eu não sabia o que falar depois... Tipo, em minha defesa. Senti que interpretei tudo errado. Foi um desastre!
_Eu acho – a Marina conteve um sorriso – que ela está saindo do armário. Ou em vias de...

Fiquei parada, olhando-a, sem acreditar no que ouvia.

_Não... – comecei a rir – ...você escutou uma palavra do que eu te disse?
_Por que outro motivo a garota apareceria chorando na sua porta em plena madrugada?!
_Por um bilhão de motivos! Porque estava incomodada com a nossa discussão! – eu retruquei – Nós somos amigas. E ela namora. Pior: ela namora o Fer – a ideia me consumiu por um instante e eu me frustrei – Ela, ela voltou pro quarto dele! Passou a noite com ele, Má! De volta nos malditos braços de homem dele. Juro, que ódio.
_Ela tá confusa, linda...
_Não tá. Eu tô confusa. Eu que não sei mais porra nenhuma do que tá acontecendo – me desesperei – E fora que ela já tem 21 anos, mano. Ela mora em São Paulo! Ela não está saindo do armário.
_Escuta o que eu estou te falando...
_Não, não... – eu ri.

Eu adorava a cara de gênio incompreendido que a Marina fazia, por trás dos seus óculos pretinhos de intelectual, quando achava que já tinha entendido tudo.

_Você está em negação. Você e essa menina. Você mesma diz que não sente que ela é 100% hétero! Os sinais estão todos aí, na boa, depois não diga que eu não te avisei...

Antes que eu pudesse me defender, o garçom apareceu ao meu lado, pedindo que eu apagasse o cigarro. Porcaria de lei anti-fumo. Enquanto eu guardava o maço no bolso, emburrada, a Marina retomou:

_Olha, essas coisas levam tempo. Provavelmente vai demorar bastante para ela...
_Para ela o que? – eu interrompi, achando graça.
_...para ela se assumir – ela concluiu e eu comecei a rir de novo, imediatamente negando com a cabeça – e isso vai acontecer cedo ou tarde – ela enfatizou – mas não acho saudável você ficar sofrendo pela garota, sabe, ficar aí esperando ela aparecer. Ela não vai resolver isso da noite para o dia. Leva tempo.
_Mas, meu... Não é como se eu quisesse estar nessa situação, né? Poxa... Sei lá, acho que eu preciso de algum desfecho, sabe? Ter certeza de que ela não me odeia, ver como vamos ficar agora, se vai ser uma merda total toda vez que a gente se encontrar... Mas ela não aparece na porra do apartamento. Só preciso de algum sinal de que eu não fodi de vez a situação, de que está tudo bem. Eu não sei, Má... Não sei mesmo o que eu faço para tirar ela da minha cabeça, de dentro de mim, da minha vida...
_Sai, meu!
_Sair pra onde?
_Vai para a balada, sei lá. Vai se divertir e pegar uma dessas tontas que ainda te dão bola, fazer o que você faz de melhor... – ela riu – ...esquece ela um pouco. De-sen-ca-na! Uma hora essa Mia aí aparece...


É fácil para você dizer, pensei, com plena consciência de que eu estaria fodida pelas próximas semanas.

5 comentários:

Nana disse...

AMO seu blog! jah espalhei pra td mundo!!!! :DD

lu disse...

Cê sabe que eu quase cai nessa dela (FM) sair pra balada pra esquecer a Mia! Mas aí, o mundo já tava virado! E, nesse caso, tá claro que a Mia tentou frear as coisas!
Eu declaro a Mia: Inocente! Bom... pelo menos até aqui! :/

Camyla disse...

Ooown, a primeira aparição da fofa da Marina *-*
(Na falta de post novo, relendo o blog :D )

Anônimo disse...

Marina LIIIIIIIIIINDA!

@livia_skw disse...

Marina 'grilo falante' <3